As prostitutas e as mulheres na arte

Artistas sempre ficaram intrigados com mulheres à beira das bordas, na fronteira dos limites. William Hunt, da Irmandade Pré-Rafaelita, apaixonou-se por Annie Miller, uma prostituta, depois de pintá-la– a despeito de sua angústia religiosa. Picasso frequentava bordeis desde os treze anos e uma de suas pinturas mais famosas Les Demoiselles d’Avignon retrata cinco prostitutas. Picasso foi também um dos muitos – entre os quais estavam Jean Cocteau, Alexander Calder e  Pablo Gargallo – fascinados pela selvagem e desinibida Kiki de Montparnasse. Ela foi a mulher-violoncelo numa das imagens mais famosas de Man Ray. Ernest Hemingway e o artista Tsuguharu Foujita escreveram introduções para sua autobiografia.

A bela Lee Miller (veja-se abaixo foto de sua autoria) foi amante, assistente e musa de Man Ray. Era uma modelo de moda muito procurada, até aparecer numa propaganda com um absorvente higiênico (escandaloso, à época), o que encerrou precocemente sua carreira. Miller era perturbada – pelo trauma de ter sido estuprada quando criança – mas era corajosa. Ela chegou sem haver sido convidada à casa de Man Ray e se ofereceu como aprendiz e saiu de lá como uma fotógrafa de primeira linha. Kiki de Montparnasse e Lee Miller eram mais desinibidas, menos conformistas e mais seguras de si do que outras mulheres de seu tempo. Isso tornou-as musas atraentes para os homens que as pintavam, fotografavam ou escreviam sobre elas e isso explica porque lembramos delas ainda hoje. Não é que eu tenha menos interesse por mulheres selvagens e desinibidas que vivem fora do mainstream, mas a diferença é que eu também sou mulher e numa época em que as mulheres sequiosas podem ter o controle de sua vida e de seus corpos.

As mulheres que foram meus modelos vieram de várias extrações e classes sociais e poucas delas estavam e ou eram perturbadas. Entretanto, sua decisão de serem artistas pornô, garotas de programa, acompanhantes de bar, strippers ou simplesmente de viver livres das convenções “estabelecidas” foi tomada livremente e não resultado de coerções. Nenhuma delas é vítima e, se no passado elas o foram, conseguiram arrancar o poder daqueles que as oprimiam (homens, sempre homens) e agora vivem como escolheram viver. Elas são francas e isso é um grande alívio. Nada têm a esconder – de mim, pelo menos. São mulheres naturalmente desinibidas e sensuais. São alegres, curiosas e abertas às novas ideias. Suas emoções – boas ou más – estão geralmente à flor da pele, não são suprimidas. Uma delas, que foi minha modelo, tinha um PhD e realizava trabalhos humanitários. Uma outra, era uma dona de casa que se desnudou à minha frente, sem desviar o olhar, alguns minutos depois que nos conhecemos.

A arte que faz uso de mulheres desinibidas não se refere sempre – ou mesmo frequentemente – ao sexo. Porém, as qualidades que tornam uma mulher sexualmente intrigante a tornam um sujeito perfeito para ser retratado. Há algo de mais profundo e de mais desafiador em sua pose e em seu olhar.

Helmut Newton, cujas obras foram inspiradas pela visão, de meados do século 20, de mulheres poderosas, sensuais e depravadas, foi também um grande retratista. Seu trabalho com mulheres que queriam ir além de onde outras foram permitiu-lhe, ao mesmo tempo, ser ousado e original em suas fotografias. Suspeito que a abertura e a determinação que essas mulheres demonstravam ajudaram-no a desenvolver sua habilidade de imersão mais profunda na psique dos sujeitos com quem lidava.

Ainda não vi mulheres pintadas por mulheres que tenham o mesmo nível de insight. Em lugar disso, retratos pintados por mulheres são, demasiado frequentemente, loquazes, torcedores, miméticos, como as manchas que não têm substância de Elizabeth Peyton’s. Eu prefiro as pinturas ousadas, machucadas, da artista britânica Jenny Saville, que retrata mulheres como pranchas de carne, mesmo que seu trabalho diga respeito a seu próprio corpo e não ao de outras mulheres e mesmo que ele se configure como uma visão opressiva das mulheres enquanto objeto a ser devorado.

A arte que lida com mulheres fortes, desinibidas, insólitas é incômoda, especialmente quando criada por outra mulher. Outras mulheres e homens do pós-feminismo sentem-se pouco à vontade quando não há o freio do elemento politicamente correto. É fácil compreender e desmontar figuras femininas criadas pela fantasia. Afinal, elas são o básico da cultura pop. Mas é mais desafiador e complicado se as artistas porn  receberem uma dimensão simpática, heroica, como ocorre em minha obra Big Pin-Ups. As gaiolas das profissionais do pós-feminismo são chacoalhadas por uma série como Dangerous Career Babes, cheios de talco, mas glamorosos. Ou quando uma colecionadora de arte (art collector) passa a ser desnudada e objetificada.

Não sou uma pintora erótica. Sou uma pintora de mulheres. Comecei com autorretratos, explorando minha própria identidade e meus papeis propulsores, enquanto mulher. À medida que os anos passam, meu trabalho é cada vez mais sobre outras mulheres.Interessam-me suas complexidades e suas contradições. Sou uma feminista, mas eu odeio a visão seca, corrente, de como uma mulher deva agir. Sou uma mulher moderna, aberta quanto à experimentação sexual.

Meus primeiros retratos (first portraits) de outras mulheres foram relações sexuais entre elas. Meus primeiros retratos fotográficos (early photographic portraits) foram igualmente íntimos. Eu me incluía em muitos deles. Hoje meus retratos de outras mulheres não me incluem. Mas, mantendo-me aberta e vendo essas mulheres no seu íntimo, experimentando suas respostas, eu me tornei mais apta a lê-las como artista. Tenho uma ideia melhor de seus medos, suas inseguranças, seus desejos seus conflitos internos e suas ambições – e de suas partes íntimas que dificilmente são mostradas aos outros, nem mesmo a seus amigos ou seus amantes. Essas partes ocultas é o que mais me interessa capturar em meus retratos de outras mulheres, sejam elas profissionais do sexo, artistas de TV, donas de casa, mulheres de carreira ou dependentes de fundos de benefícios. Cada um de meus retratos oferece um vislumbre de um ser, mas suspeito que, com o passar do tempo, será o conjunto de minha obra mais revelador.


Foto: Lee Miller