Dubling

Entrevista de Ana Paula Cohen com Elida Tessler

Ana Paula Cohen − Você poderia falar sobre a noção da duração em relação a seu projeto “Dubling”, levando em conta que você menciona o dia em que começou a ler o livro de James Joyce e o dia em que terminou, leitura com duração de um ano, para um livro cuja narrativa transcorre durante um dia?

Elida Tessler − Eu costumo criar algumas regras ao iniciar um trabalho. Neste caso, a primeira delas foi definida ao comprar o meu exemplar na livraria do James Joyce Center, em Dublin, no dia 1º de julho de 2008. Eu desejava percorrer as ruas de Dublin antes de entrar nas páginas da literatura de Joyce. Eu já havia lido Retrato do artista quando jovem e sabia que o desenho urbano da capital irlandesa definia, de certa forma, o enredo do romance Ulisses. Dublin foi a cidade-cenário de Ulisses.

Além disso, eu sempre tive fascínio em relação ao tema da passagem do tempo e suas demarcações. Todo o meu projeto intitulado “Falas inacabadas”, iniciado em 1993, inclui objetos que guardam o registro desta passagem, seja pelas marcas de ferrugem, seja pelo resguardo da poeira, ou pelo acúmulo do que sobra de um cotidiano e que poderia ser descartado.

APC − Na maior parte das línguas de origem ocidental, o verbo infinitivo já indica ação, algo que acontece no tempo. Como você acredita que as noções de tempo e de duração se transformam no seu trabalho ao usar o tempo verbal gerúndio em inglês?

ET − Há cerca de 10 anos, percebi a importância da presença da palavra escrita em minhas produções. O processo se iniciou com o trabalho “DOADOR” (1999), criado a partir de objetos doados por amigos, cujo sufixo da palavra que os denominavam deveria conter DOR (apontador, liquidificador, abridor, apagador etc.). Além de nominar os objetos, decidi apresentar o nome dos doadores, e para tanto encomendei plaquinhas de latão com gravação serigráfica em preto, cujo conjunto configurou um quadro de palavras na parede externa do corredor. Substantivos próprios e substantivos comuns, juntos, inauguraram o que mais tarde eu viria a chamar de “Por uma gramática intuitiva”.

Seguindo a sequência estão os nomes próprios – “Todos os nomes-chaves”, 2003 –, que parte do romance Todos os nomes, de José Saramago; os verbos no infinitivo – “Horizonte provável”, 2004 –, composto de todos os verbos no infinitivo do livro A arte no horizonte do provável, de Haroldo de Campos. “A vida somente”, 2005, apresenta todos os advérbios de modo do romance de Georges Perec, A vida modo de usar – realizado durante uma residência na Itália, em 2005.

Nesse momento, a noção de duração estava bem demarcada: a leitura do romance e a concepção do trabalho deveriam acontecer nas sete semanas previstas para a residência. De O homem sem qualidades, de Robert Musil, retirei todos os adjetivos, 30.301, apresentando-os em uma exposição intitulada “O homem sem qualidades caça palavras” (2007). Nesse título, o verbo está no presente do indicativo. O sujeito é o homem. Ele caça palavras, como eu faço continuamente quando inicio a leitura de uma obra literária. Então, já tendo passado pelos substantivos comuns e próprios, pelos verbos no infinitivo, pelos advérbios e adjetivos, cheguei ao gerúndio, aqui apresentado em DUBLING.

As noções de tempo e de duração se transformam no meu trabalho ao usar o tempo verbal do gerúndio em inglês justamente por sublinhar o caráter da vida acontecendo a todo instante, com intensidade suficiente para não adiarmos um segundo sequer as nossas mais íntimas intenções, valorizando pequenas conquistas em lugar dos grandes planos.

APC − Há algo de performático no seu trabalho, quando você inclui seus próprios deslocamentos (como as leituras do livro de James Joyce em diferentes cafés) e momentos da sua vida cotidiana (como no projeto em que você lia em situações de espera do seu dia a dia), como parte do trabalho. Você pode falar sobre esse aspecto de sua produção, e de como traz esse elemento performático à obra que é apresentada ao público?

ET − Como disse anteriormente, gosto de criar regras para produzir os meus trabalhos. A escolha do tempo verbal não foi mero acaso. Quando estive em Dublin, inscrevi-me em uma das caminhadas propostas pelo James Joyce Center, na qual um guia nos conduz a pontos da cidade importantes para a concepção do romance, nos fazendo parar em alguns deles para realizar uma leitura em voz alta, evidenciando as relações do texto com o desenho urbano e com a história daquele país. Caminhávamos sob uma chuva fina, e o passeio não foi tão agradável como eu esperava. Mas a situação foi propícia para que, internamente, eu ouvisse uma cadência de verbos: caminhando, lendo, escutando, parando, chovendo, olhando, pensando, associando…

Justamente por surgir durante um percurso, uma caminhada na cidade, minha proposição incluiu a premissa de somente ler o livro em cafés ou bistrôs, intensificando o caráter urbano e coloquial do romance.

Uma característica importante do meu trabalho é a apropriação de elementos do cotidiano: chaves, pratos, vidrinhos de esmalte, toalhas, prendedores de roupa… objetos ordinários destinados ao descarte. Desta vez, enquanto DUBLING ainda não assumia a sua forma de apresentação final, foram os deslocamentos que me ajudaram a configurar um desenho, e as notas fiscais dos cafés podem ser consideradas os pontos que me ajudaram a traçar o mapa da leitura.

APC − No caso específico de “Dubling”, as notas fiscais dos cafés em que você parou para ler o livro, contendo data, hora e lugar, funcionam como registro de seu deslocamento. Qual a relação entre esse registro e a ideia dos cartões-postais com imagens do rio em Dublin?

ET − Durante a leitura do romance, fui descobrindo aos poucos que, além de Dublin ser uma cidade-cenário, Liffey era um rio-personagem. Foi a minha forma de pensar o movimento ali contido. O romance é um fluxo do inconsciente de Joyce.

O rio é fluxo das águas. Poderia ser o cartão-postal o fluxo da própria linguagem da arte? Imagens entrariam em uma rede postal em que o desenho de DUBLING estaria sendo permanentemente realizado, como em um diagrama, sem previsão de destinatários.

Para as fotografias, foram seis dias intensos de caminhada ao longo do rio Liffey, desde a sua foz junto ao Mar da Irlanda até a sua primeira represa, em uma cidadezinha próxima. Havia o desejo de incluir o que há de fluido nas águas do rio e de fluxos na literatura de Joyce. Criei um arquivo de águas, nos mais diversos ângulos e contextos, ora turvas, ora cristalinas, em dias azuis ou em dias nublados e chuvosos. Tempo é, de fato, a palavra-chave deste trabalho. Este foi um importante e essencial deslocamento.

APC − Como você acredita que todos esses deslocamentos e tempos se traduzem nos elementos escolhidos para sua instalação? Ainda, você pode falar sobre a decisão por um resultado final que acontece em um mesmo tempo e espaço, considerando a importância da duração e do deslocamento nesse projeto?

ET − Refleti muito acerca do fato de poder estar estagnando um movimento inerente a Ulisses ao reunir cartões-postais, rolhas e garrafas em uma instalação em tempo e espaço definido pela CIFO [Cisneros Fontanals Art Foundation]. O mais agravante era a ideia do cartão-postal ser único, sendo que o conjunto será colocado em dispositivo construído como um fichário de madeira, evocando a ideia de arquivo, e incorporado ao acervo da CIFO. Seria um risco, justamente, interromper o fluxo da linguagem, tanto literária como da própria arte, ao encerrar o trabalho por aqui. Sentia a necessidade de incluir o elemento água. O cartão-postal é um pequeno território de papel capaz de percorrer territórios mais amplos, concentrando a experiência da viagem e o espírito provisório daquilo que é nele relatado pela escrita e pela imagem simultaneamente. Nesse sentido, propus a reprodução de exemplares de um livreto de cartões-postais, idênticos aos vendidos em pontos turísticos, para serem vendidos na loja da Instituição. Estes cartões-postais poderão ser comprados e utilizados normalmente, refazendo a circularidade do trabalho. Os livretos são compostos de 18 cartões-postais, correspondendo aos 18 capítulos do romance. Cada imagem de água está acompanhada pelo último gerúndio de cada capítulo. Não há um texto descritivo acerca do trabalho, apenas o que está escrito no verso de todos os cartões-postais:

Installation created from 4311 gerund words from the novel Ulysses by James Joyce, with 4311 postcards featuring images from the River Liffey (Dublin, Ireland), 4311 corks with printed verbs and 4311 glass bottles. Variable dimensions.

APC − Como você acha que a leitura – no sentido mais amplo da palavra – aparece nas diferentes etapas do projeto “Dubling” (desde o início de sua concepção até a apresentação a um público)?

ET − Podemos ler de diferentes maneiras e em diferentes situações. DUBLING é um trabalho que consumiu muito de meu tempo e ofereceu-me a oportunidade de consolidar a minha experiência no que concerne à conjugação entre o ato de ler e o de ver.

A instalação contém 4311 gerúndios, impressos em cartões-postais e em rolhas de cortiça. Mas quem irá se deter nessas palavras? As rolhas estarão inseridas nos bocais das garrafas transparentes, e muito provavelmente dispostas em local de difícil acesso ao olhar. As palavras devem ser lidas? Para mim, basta saber que elas estarão ali dispostas, disponíveis e dispersas em um mar de palavras.