Em queda livre

A tela branca começa a ser coberta de um tom claro de azul, pelas beiradas. Quando um tom ainda mais claro começa a preencher a parte do meio, que ainda estava cru, já é possível ver a silhueta branca que falta ser pintada. Tons mais escuros de azul e outros tantos ainda mais claros, alguns chegando bem próximo do branco, vão sendo aplicados à tela e definindo melhor as áreas pintadas, sobrepondo-se, dando mais complexidade às camadas de cor já existentes. Ao longo dos sete dias de trabalho, é possível passar horas olhando e achar que nada acontece. Algo parecido com o que se dá com as águas de um rio que corre tranquilo, em câmera lenta. Às vezes de tão tranquilo ele parece não se mexer a nossos olhos. Deve ser isso que acontece quando se está em queda livre, seja na imensidão azul do céu ou do mar.

O processo se repetiu ao longo dos quatro meses de trabalho que antecederam a exposição Queda, que traz pela primeira vez os 11 trabalhos da série homônima, desenvolvidos especialmente para esta individual, de Mônica Rizzolli. Ele revela um elemento estruturante da produção da artista: uma ação que é executada constantemente, e que por isso naturalmente se vai aprimorando, ao mesmo tempo em que parece ser sempre nova, tamanho o cuidado com que é realizada. Mônica nos mostra que, se é preciso prestar atenção quando se faz um movimento pela primeira vez, mais importante ainda é prestar atenção quando ele é feito pela décima, vigésima, centésima vez na mesma tela. Mônica Rizzolli faz parte de uma geração que foi alimentada pela visualidade das histórias em quadrinhos, da cultura underground e da comunicação de massa. Esse aspecto gráfico é como um guia para a construção de sua maneira de ver e mostrar o mundo. Se em sua produção em desenho o aspecto gráfico reforçava uma tentativa de capturar o tempo, tornando o desenho capaz de produzir tantas imagens quantas vemos no mundo contemporâneo, hoje ele confere complexidade ao primeiro encontro da artista com a pintura. A sobreposição de planos de cores que a pintura possibilita (e que não era possível com o desenho) convive com padrões derivados de uma pesquisa feita pela artista sobre os símbolos usados para representar a ideia de água por diferentes culturas, em diferentes momentos da história. Essa é uma prática comum à produção da artista, que mantém cadernos onde reproduz padrões que encontra pelo mundo, como de azulejos ou de calçadas, além de grafismos indígenas.

A prática revela como a referência de artistas concretos influencia o processo pelo qual Mônica compreende a construção de uma imagem. É pela repetição que esses motivos vão se acumulando e ganhando força, para logo em seguida se perderem dentro desse processo. Essa persistência revela o gosto de Mônica pelo traço, pela linha que guia o preenchimento do plano, atribuindo texturas e reforçando a presença da cor. Por outro lado, a artista não abre mão da linha em sua forma mais simples, que é a indicação do limite entre dois planos, potencializando e incorporando os espaços vazios como parte do desenho e da pintura. É também a indicação de formas de contornos simples, que apontam mais para o que está fora do que para o que está dentro do plano: imagens que mostram resquícios de algo que já aconteceu ou a expectativa de algo que está para acontecer.

A presença da figura humana é constante na produção da artista e reforça essas pequenas narrativas. São corpos genéricos, tão desprovidos de personalidade que nos tornam capazes de nos reconhecermos neles. Essas figuras não são você ou eu, e sim você, eu e qualquer outra pessoa em qualquer parte do mundo, em qualquer tempo da história. Nessa série de trabalhos, a queda pode ser lida como um mergulho interior, em dilemas existenciais, comum a todas as pessoas em algum momento da vida. São águas calmas essas que se apresentam para quem olha de fora. Puro engano, só desfeito por aqueles que se arriscam na queda.

 

Serviço
Central Galeria de Arte Contemporânea
Avenida Rebouças, 1545
Exposição Queda, de Monica Rizzolli
Abertura: sábado, dia 13 de novembro, das 16 às 22 horas
Período: de 16 de novembro a 4 de dezembro de 2010
Horários: terça a sexta, das 11 às 19 horas e sábados, das 11 às 18 horas