SOBRE NADJA KUZNETSOVA

Linhas de visão

Não há truque em ajustar o foco,

o truque está em vender a foto1

Delicate Balance

Agrada-me a leve esperança na justa vizinhança das palavras. No final das contas, ela muda pouca coisa. Inclusive a epígrafe. Pela esmerada observação do “foco”, encerrado na sentença acima, compreendemos que estamos num estado de certa perplexidade, causada, eu suponho, pelo equilíbrio instável dos significados, graças ao qual “vender” revela nem tanto o aspecto de troca simbólica, quanto a possibilidade de presentear, de “revelar” na visão, ou seja, vender e prover2 (diante da inacessibilidade vulnerável do fundo do olho) a “foto” buscada.

Não ao autor (mas quem pode garantir isso?) na qualidade do equivalente a certa quantia ou sucesso, mas a mim ou a outro. Retornando assim, mais uma vez, a fotografia ao “foco”, que reúne esquecimentos e antecipações paralelos, para, depois de se afastar, retornar com a pergunta: mesmo assim, o que não está certo aqui?

Em Nadiédja Kuznetsova há muito (se não tudo) de “certo”. Nos limites do inteligível, incluem-se 25 exposições coletivas e 25 individuais, duas bicicletas na ante-sala, aulas na Escola Superior de Arte Mukhina,3 na cátedra de “artes gráficas: livro e cavalete”, uma cama suíça tipo Jung, no quarto, que é também ateliê, com uma paisagem como que esmaltada, onde picos de montanhas e um trem estão envoltos num turbilhão de neve, embora tudo possa ser outra coisa, sem trem algum, mas com uma cerca azul além da janela da cozinha, e nem tudo vá parar, indiscriminadamente, no campo do curriculum vitae, com o qual a própria Nadiéjda Kuznetsova, eu desconfio, mantém relações bastante complicadas, seguramente como acontece com qualquer outra pessoa quando o assunto é o cronograma da vida pessoal. Assim surge o tema da sucessão dos dias. À pergunta sobre as últimas exposições, ela informa:

[…] última? No ano passado, uma exposição em Moscou, a apresentação do temário “Amsterdã” (ciclo de fotografias feitas em Amsterdã, editora Kodak), iniciada em 19 de dezembro de 2006, com duração de duas semanas. De 12 de janeiro a 4 de março de 2007, em Berlim, a “Contemporary Russian photography and video art”. Lá estava a “Paisagem de Cheshire” (“Paisagem de Cheshire: ciclo de fotografias da paisagem urbana”). E a partir de 18 de janeiro, em Londres, também a Cheshire. Eu mesma faria confusão, se não tivesse anotado tudo no cv.

Contra-espaço

Está tudo lá, no cv. Não falta nada. Entretanto, é exatamente a brecha “não” que permite ver o “que não está certo”, a própria fotografia, ou seja, o que se pode ver nesta parede, neste álbum, neste material impresso, em “Olga Sviblova”4 ou no “Zoom” etc. De qualquer modo, Nadiéjda Kuznetsova, como qualquer fotógrafo looking awry,5 sabe onde não é possível “parar” ou, ao contrário, continuar. Além disso, pelo que posso entender, ela adianta constantemente o possível “julgamento” do olhar, encontra um jeito de não se mover do “lugar” para “fugir” dos limites das possibilidades narrativas/interpretativas. Faço uma advertência a respeito da primeira e da “última” circunstância dessas observações. Trata-se das séries – “Paisagem de Cheshire”, “Amsterdã”, “Retratos”… Impressiona-me o que ainda se pode escrever. Pois, provavelmente, temos de iniciar pelo simples: o que é: “como”? Ou então: o que é  exatamente aquele lugar, em que a visão adquire uma “propulsão inversa”?

É possível prosseguir do seguinte modo. Nós abrimos os olhos, “vemos uma coisa” na qual distinguimos umas “coisas” que a compõem e nas quais se ocultam miríades daquelas primeiras ou dessas últimas. Nessa capacidade de divisão, divisam-se precondições de pura possibilidade.

Por outro lado, será que podemos chamar a coisa de, por exemplo, recordação? A sombra da árvore, décadas atrás desaparecida em si mesma? Se a resposta for sim, então onde está ela? Será que podemos chamar a “coisa” de “palavra”, “gesto”, que existe na complexa situação da tautologia da ausência e da substituição?

Por exemplo, abrimos os olhos, e coisas logo se oferecem (graças ao inteiro cabedal da experiência) – “transparentes” (sempre ainda não “nomeadas”), não articuladas, não ditas, “reais” (eis onde está o que eu queria proclamar como nova crítica “new real”), realizadas em si mesmas e jamais coincidentes consigo mesmas.

De sob as pálpebras baixadas

Será que não existe um ponto de mutação, um lugar não fixado na percepção do instante do olhar atento, ou seja, um contraespaço, que se mostra de novo como um espaço entre mim e a fotografia, em que “eu” e a “fotografia” nos encontramos para, de um lado, “me” excluir e, de outro, excluir certo aspecto material do testemunho do próprio artefato?

Na fotografia de N. Kuznetsova, oculta-se um único mistério: a ausência de qualquer possível segredo.

Provavelmente conviria iniciar pela ausência do que “se queria” ver; até o princípio da  transmutação da terceira dimensão, que, segundo comentário de Nabokov,6 tão maliciosamente se finge tal, recorrendo a um mísero subterfúgio geométrico.

Tirando da jogada a terceira dimensão, Kuznetsova simbolicamente exclui… a literatura.

É justamente da soma de ausências que se cria, nos trabalhos de Kuznetsova, a densidade onírica do cotidiano, aquela que, em Tíutchev,7 “através das pestanas baixadas é a lúgubre e tênue chama do desejo”. Pois, se falamos do olho como o local da representação dos modelos de luz, então antes temos de falar, obviamente, da atenção/desejo que determina o centro de atração do olhar e que se narra no processing (decodificação) das informações, em um nível mais elevado, no nível dos córtices.

Certamente, nem a atenção nem o desejo exercem influência sobre os processos químicos que fluem da retina. Mas incompreensível e ameaçador apresenta-se o “tempo” de obtenção dos resultados desses processos da própria concretização em uma estrutura decodificadora, a que, em parte, são consoantes estas palavras de Nadiéjda Kuznetsova, pronunciadas por motivo completamente diferente: “penetrei tão profundamente na própria natureza do material, que de lá se verificou não  ser possível nenhum afloramento, nenhuma superfície da fotografia”.

P.S.: Os trabalhos de N. K. encontram-se no museu de F. M. Dostoiévski, em São Petersburgo, na Galerie&Edition J. J. Heckenhauer oHG, em Berlim; na Luke&A Gallery of Modern Art, em Londres; na Solana Gallery, em Londres; no Museu de Arte Não Conformista, em São Petersburgo; na Galeira ArtKollegia, em Moscou; e também em coleções particulares na Rússia, Alemanha, Holanda, Finlândia, Estados Unidos e Suíça.

 

Veja as fotos de Nadja Kuznetsova em
http://www.fotokunst.ru/gallery.php?cat_id=56&action=images&viewtype=&lng=

 

Tradução: Denise Regina de Sales, doutoranda
do Curso de Russo da Universidade de São Paulo
Cotejo: profa. dra. Aurora Fornoni Bernardini

 

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Notas:

1. Не фокус – фокус навести/а фокус карточку продать.(Nie fokus – fokus naviestí/ a fokus kartotchku prodat.) O termo russo “fokus” significa “foco” e também “truque, prestidigitação”. A expressão “fokus navestí” é termo comum na fotografia – “focalizar”, “ajustar o foco”. O verbo russo “prodat”, assim como seu correspondente em português, “vender”, encerra o sentido de “venda” e de “traição”. (N. de T.)
2. Em russo, продать (prodat) e провидеть (providet), ambos com um mesmo prefixo, acompanhado, respectivamente, dos verbos dar (pro + dat) e ver (pro + videt). (N. de T.)
3. Escola localizada em São Petersburgo e nomeada em homenagem à escultora Vera Ignatieva Mukhina (1889-1953), que, após a Revolução de Outubro, participou da elaboração do plano da propaganda monumental, tendência artística predominante no período soviético, sobretudo na época de Stalin, baseada na criação de obras arquitetônicas e monumentos grandiosos, capazes de despertar a impressão de força e potência. A escultura de Mukhina mais famosa internacionalmente é O operário e a camponesa, de 1937. (N. de T.)
4. Diretora de arte do Museu de Fotografia Contemporânea de Moscou. (N. de E.)
5. “To glance or look awry: with a turn or twist to one side; askew”, The Random House college dictionary. Olhar vesgo, dar um olhar rápido, lançar os olhos, olhar com incredulidade. Provavelmente, nessa mesma medida, experimentar a incredulidade do olhar de esguelha em relação ao livro de Jacques Lacan, Looking awry (Boston, mit, 1999). (N. de E.)
6. Vladímir Vladímirovitch Nabókov (1899-1977). Escritor. (N. de T.)
7. Fiódor Ivánovitch Tiútchiev (1803-1873). Poeta. (N. de T.)