ARTE / RISCO
Arte/poesia enquanto ato de risco postula a luta cultural, entendida como combate entre o que se reconhece como arte/poesia e o novo que o próprio legado cultural exige como condição da arte/poesia.

Arte / poesia enquanto ato / de risco
Régis Bonvicino e Alcir Pécora
1.
A idéia do módulo é evidenciar aspectos não-representacionais da arte/poesia: visa a dramatizar a ação que produz a arte/poesia e os efeitos que gera, em vez de interpretar os conteúdos que supostamente veicula. Arte/ poesia não é veículo. Não transporta significado de um lado para outro a fim de obter um sentido, mal ou bem remunerado. No limite, opera para despir o gesto do sentido.
A não-representação nada tem a ver com irrealismo ou irracionalismo.
Não se trata de negar a realidade, mas de negar que arte/ poesia seja apenas uma segunda natureza ornamental ou hermenêutica dessa realidade; trata-se igualmente de negar que sua função seja tornar a realidade compreensível ou perceptível para todos pois ela mesma é uma realidade.
Arte/poesia não é vassala da filosofia, nem da história, nem do sujeito, nem da comunicação de um sujeito com outro. Arte/poesia não é determinada por nenhuma essência ou fato. Arte/poesia é um ato de indeterminação radical, ato de descoberta da potência anterior ao ato. Arte/poesia não diz, mostra; não reflete, não é gênero, pois existe enquanto presença, energética, evidência, engenho, máquina, matéria, física: “El água es el elemento de los peces”, para concordar com o verso do poeta chileno Gonzalo Millán.
Arte/poesia não tem garantias ontológicas. Arte/poesia não tem significado fora de sua forma de vida, peculiar e intransferível, e o que ela primeiro significa é a sua própria existência. Seu ato não é uma terceira coisa. Há, pois, na poesia/arte, uma dimensão irredutível a significado ou conteúdo prévio, pois o que ela diz é o que faz, e o que não faz simplesmente não pode dizer. Não se diz o que não é; Wittgenstein: não há semblante sem rosto. Não há nenhum fato oculto no que arte/poesia faz: arte/poesia é o fato manifesto.
E o que arte/poesia manifestamente faz quando diz?
2.
Neste âmbito, em que a dimensão não-representativa da arte/poesia é acentuada, interessa-nos tão somente o que ela faz como ato de risco, isto é, enquanto ato ainda sem legibilidade artística ou poética constituída ou partilhada: arte que não tenha garantia artística. Isto não significa a proclamação do direito ou do dever do absolutamente novo ou do inteiramente outro, mas a necessidade do risco. Boris Groys: A condição de entrada no campo da arte/poesia é a imersão no legado da cultura. O legado de cultura, entretanto, tem a insubmissão e o confronto como condição da relevância deste ato de Arte/poesia. Arte/poesia enquanto ato de risco postula a luta cultural, entendida como combate entre o que se reconhece como arte/poesia e o novo que o próprio legado cultural exige como condição da arte/poesia.
Arte/poesia está nas fronteiras da destruição, para estar nas fronteiras da criação.
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Arte / poesÍa COMO ACTO / DE RIESGO
Régis Bonvicino y Alcir Pécora
1.
La idea del módulo es poner en evidencia aspectos no representacionales del arte/ de la poesía: se encamina a dramatizar la acción que producen el arte/ la poesía y los efectos que genera, en lugar de interpretar los contenidos que supuestamente vehicula. Arte/poesía no es vehículo. No transporta significado de un lado a otro a fin de obtener un sentido, mal o bien remunerado. A lo máximo, opera para despojar al gesto del sentido. La no representación nada tiene que ver con irrealismo o irracionalismo.
No se trata de negar la realidad, sino de negar que el arte/ la poesía sean apenas una segunda naturaleza ornamental o hermenéutica de esa realidad; igualmente se trata de negar que su función sea la de tornar la realidad comprensible o perceptible para todos, pues ella es, en sí misma, una realidad.
El Arte/ la poesía no son vasallos de la filosofía, ni de la historia, ni del sujeto, ni de la comunicación de un sujeto con otro; no están determinados por ninguna esencia o hecho; es un acto de indeterminación radical, acto de redescubrimiento de la potencia anterior al acto. El Arte/ la poesía no dicen, muestran; no reflexionan, no es cuestión de género, pues existen como presencia energética, evidencia, ingenio, máquina, materia, física: “El agua es el elemento de los peces”, en esto concordamos con el poeta chileno Gonzalo Millán.
El Arte/ la poesía no tienen garantías ontológicas, no tienen significado fuera de su forma de vida, peculiar e intransferible, y lo que primero significan es su propia existencia. Su acto no es una tercera cosa. Existe, pues, en la poesía/ el arte, una dimensión irreductible a significado o contenido previo, pues lo que dicen es lo que hacen, y lo que no hacen simplemente no lo pueden decir. No se dice lo que no es; Wittgenstein: no hay semblante sin rostro. No hay ningún hecho oculto en lo que el arte/ la poesía hacen: es el hecho manifiesto.
Abiertamente, qué hacen el arte/ la poesía cuando dicen?
2.
En este ámbito, en que la dimensión no representativa del arte/ la poesía se acentúan, solamente nos interesa lo que hacen como acto de riesgo, esto es, como acto aún sin legibilidad artística o poética constituida o compartida: arte que no tenga garantía artística. Esto no significa la proclamación del derecho o del deber de lo absolutamente nuevo o de lo enteramente otro, sino la necesidad del riesgo. Boris Groys: La condición de entrada en el campo del arte/ de la poesía es la inmersión en el legado de la cultura. El legado de la cultura, sin embargo, lleva la insubordinación y la confrontación como condición de la relevancia de este acto de Arte/poesía. Arte/poesía como acto de riesgo postula la lucha cultural, entendida como combate entre lo que se reconoce como arte/poesía y lo nuevo que el propio legado cultural exige como condición del arte/ de la poesía.
Para estar en las fronteras de la creación, el Arte/ la poesía están en las fronteras de la destrucción.
Traducción: Idalia Morejón Arnaiz
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Fotos de Nadja Kuznetsova
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