Um lugar sob o sol do além

Há algum tempo, escrevi um pequeno texto de apresentação na revista Cult sobre o filósofo e crítico russo-alemão Boris Groys (1947), pouco conhecido no Brasil. Como o tenho lido com muito interesse, pensei em estender a apresentação de seu pensamento aqui no seminário de psicanálise. Posso garantir que é dos mais originais entre a gente que, por ora, vive. A piada vai ficar clara mais adiante. Não por acaso Groys foi escolhido para escrever o catálogo da exposição The Air is on Fire, composta de desenhos, fotografias, pinturas e animações de David Lynch, exibida na Fondation Cartier pour l’art contemporain, em Paris, de 3 de março a 27 de maio de 2007.

Letras e Humanidades

Ao falar da situação das áreas de Humanidades no contemporâneo, há duas situações em que não gostaria de incorrer.
Primeiro, gostaria de evitar ao máximo um discurso cuja eloquência combina o estilo lamurioso com o edificante para demonstrar a importância das Humanidades em geral e das Letras em particular. Quando se fala delas nesse estilo, como se elas fossem um grande Bem Perdido, logo me vem à cabeça a velha e batida fábula da raposa e as uvas. Na fábula, sem poder alcançar as uvas, a raposa acaba fazendo o discurso do desdém pelo que deseja – de modo que a sua célebre esperteza se reduz ao esforço de enganar a si mesma, enquanto pensa enganar os outros. No nosso caso, o auto-engano é o mesmo, mas em vez de simular desdém, fingimos que choramos pela infelicidade das uvas que não serão comidas por nós.
Em segundo lugar, também não quereria reproduzir diagnósticos abstratos a respeito da situação de crise no campo das Humanidades.

A musa falida

A questão mais direta seria: há uma literatura comprometida com o novo que esteja sendo produzida na e pela internet? Se há, ainda não ganhou evidência no meio dos que não conhecem muito profundamente o meio. A literatura que mais aparece na internet é a mesma que mais aparece em qualquer suporte tradicional: literatura rala, sem grande exigência de invenção, e sem qualquer exploração experimental de seu próprio suporte

Gracián e Vieira: o lugar do “mistério”

O topos do “mistério”, aplicado por tratadistas e oradores do século XVII, funda-se no postulado de uma natureza cujas espécies repõem uma substância infinita e invisível, análoga e proporcional à divindade. Enquanto sobreposição do infinito no finito, a proposição de uma “presença sem vista” tem sido interpretada, na história da cultura, como paradoxo e artifício gratuito, como efeito típico de uma época que se toma por “miracular”[1] e afeita a toda sorte de irracionalismos. Entretanto, retomadas algumas de suas referências históricas, aqui exemplarmente atinentes ao emprego que delas é feito pelo jesuíta aragonês Baltasar Gracián (1601-1658) e pelo jesuíta português Antonio Vieira (1608-1697)

Apolítica, uma literatura de segundo grau

Não é apenas questão de “identidade” nacional — identidade era apenas uma das possibilidades de pensar os acontecimentos vividos com relativa urgência. A questão, até por volta dos anos 60/70, era outra: a forma literária era central na interpretação do país. A forma literária parecia a todos os escritores uma questão central em favor da criação de uma comunidade imaginária que respondia pelo Brasil ou pelo seu destino como país. Hoje, essa urgência interpretativa perdeu fôlego para a representação de um pequeno espetáculo de si, de grupos de leitores ou de comunidades mais restritas, com gostos e perspectivas homogêneos, ainda que disseminados pela internet –, que, hoje, também sabemos que está longe de cumprir os sonhos de descentralização e de democracia que lhe atribuíram os seus apologistas. Enfim, quero dizer: não me parece que seja na literatura, na linguagem da invenção, que se trava, hoje, a batalha das contradições do real ou da busca de suas alternativas mais consistentes.

Impasses da literatura contemporânea

Num debate recente com a crítica Beatriz Resende, organizado pelo Instituto Moreira Salles, expus minha impressão de que o campo literário se encontra hoje numa situação de crise, observável pela relativa perda da capacidade cultural da literatura de se mostrar relevante, não apenas para mim, mas para muitos que estão comprometidos com a cultura: como se alguma coisa se introduzisse nela (sem eventos violentos) e a tornasse inofensiva, doméstica. Um vírus de irrelevância, por assim dizer.

Não gostaria de defender uma tese cabal sobre a fraqueza atual da literatura, mas me agrada a ideia de explorar, tão fundo quanto possa, esse lugar de crise da expressão. Tento formular sucintamente a seguir, em diferentes ordens de argumentos, alguns dos impasses que percebo na literatura contemporânea.

Estado Crítico

Desde Página Órfã, radicalizada neste Estado Crítico, não vejo poesia que faça crítica mais implacável da poesia e, ao mesmo tempo, melhor se reafirme como poesia, do que a de Régis Bonvicino. E é assim não porque esses livros falem de poesia ou teorizem sobre a crise da poesia, mas porque se movem taticamente em torno de seus impasses, implantando-se num terreno no qual os versos ocupam as vias mais hostis da metrópole.

A partir dessas condições de implantação, a poesia de Régis opera três movimentos.

A enfermidade do silêncio

Nesses termos, a narração é basicamente a composição de um lugar argumentativo no qual os acontecimentos selecionados na carta atuam como amostras de situações repetidas, que referem menos ocorrências únicas do que maus hábitos que se foram estabelecendo no reino. Como exemplo, pode-se tomar o quadro desenhado por Vieira a respeito da situação dos índios do Brasil. Em termos de virtualidade ou potência, tudo parece providencialmente disposto para favorecimento da conversão das almas e da sustentação de Portugal […]

Décio Pignatari: o melhor dos concretos

“Para o crítico e professor de teoria literária da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Alcir Pécora, Pignatari era o melhor entre os concretos. “Eu gostava mais da poesia não-concreta dele. Mas, dentre os poetas concretos, ele era o melhor realizador desse tipo de poesia, porque tinha melhor noção da publicidade e da síntese”, afirma. “Fiquei surpreso quando o conheci pessoalmente. Ele passou um tempo na Unicamp e foi um ótimo profissional. Ele era muito interessante, muito produtivo”, diz. Segundo Pécora, a contribuição de Pignatari para a área da semiótica também foi notável”. Em Veja.com

O encoberto que vem no desejo

É o que me proponho a investigar neste texto, que reescrevo com base em antigos estudos cuja inspiração, em parte, devo a Benedito Nunes, um de meus mais inesquecíveis professores. Acrescento que, no caso específico de minhas leituras de Vieira, de quem Bené é leitor e estudioso, mais de uma vez fui convidado por ele para apresentá-las em Belém. Curiosamente, por algum golpe de azar, os eventos vieirianos que programou comigo nunca chegaram a ser efetivados. Fica, pois, este estudo dedicado a ele.