Sobre Denise Martins Freitas

Nasceu em Rio Grande(RS) em 1980. Escritora e professora de história; é autora de Misturando memórias (2007), Mares inversos (2010); está entre os autores que compõem a Antologia poética: moradas de Orfeu (Letras Contemporâneas, 2011); possui publicações em diversas revistas e sites literários, dentre os quais: Revista Sibila, Germina Literatura, Musa Rara, Autores Gaúchos, Revista Modo de Usar, entre outros. Escreve o blog sísifo sem perdas.

Feminismo ralo serve a interesses comerciais imediatistas

Muito bem, chegamos ao ponto de pensar, então, sobre o que conduziria à configuração desse contexto tão incompatível com a realidade dos poemas publicados. Decerto alguns fatores mais ou menos indissociáveis como, por exemplo, os interesses comerciais dos editores, o capital social que põe em interseção os autores da hora com os responsáveis pelos veículos midiáticos de renome, que em contrapartida alimentam as autoridades no assunto da vez, todos bem dispostos a manter as aparências e suas posições.

Companhia das Letras lança livro anódino de poesia

Essa tendência pode ser observada tanto na poesia disponibilizada para a leitura em âmbito virtual, quanto naquela tradicionalmente publicada em formato de livro. É interessante destacar que não são somente as publicações independentes ou vinculadas a pequenas editoras que se empenham em reproduzir esse tipo de poesia sentimentalista, por assim dizer, também grandes editoras se ocupam da mesma matéria. Parece que para fazer poesia – pior ainda, para fazer boa poesia – tem bastado aos poetas falar de emoções.

Publique e pereça: a poesia brasileira hoje

Num plano geral, a literatura feita hoje tem muito de incômodo. Uma grande sala de estar onde todos exibem sua galhardia e o fino trato com o parceiro (ou seria cúmplice?). Críticos, resenhistas, leitores, editores, poetas alternam-se em cada posto. Ora o papel de crítico se cumpre aqui para não faltar um leitor adiante, ora um editor em silêncio para o mercado concretizar o vulto de mais um poeta.

Ianelli repete-se, na Iluminuras

Os versos de Ianelli revestem-se de intenções de escândalo, de horror. O propósito, entretanto, falha, pois a transparência do embrulho de que se serve revela embuste ou inépcia. Em trechos como “O diabo sorri, sentado diante da cama:/ ritual de cada noite, ter com o maldito”, a percepção de que alguém tenta comover-nos, determinando as coordenadas do entendimento, antecede a inquietação das imagens de espanto e desassossego.

Veloso e Schwarz

Aqui, me parece, evidencia-se a diversidade discursiva, ou mesmo a polifonia ideológica contidas no depoimento de Caetano Veloso, contudo, perceber nesse depoimento, mesmo que antecipadamente mais identificável com a esquerda, indícios de premissas àquela época tidas como de direita não constitui imperícia da análise de Schwarz. É importante lembrar que interferências dessa ordem, bem como ambiguidades na formulação de discursos identitários serão perceptíveis em qualquer contexto.

Na superfície da linguagem de Christian Morgenstern

A construção poética, portanto, corporifica-se, evidencia-se na fatalidade de suas possessões no campo formal; o sucesso do aproveitamento operado no poema, a qualidade estética do pensamento vertido a objeto verbal, é que firmará a existência de bons poetas. Desse grupo – menos populoso do que sugerem a quase ausência de crítica e as felicitações irrefletidas diante de qualquer produção poética – destaco, para uma breve apreciação, a obra Canções da Forca, de Christian Morgenstern, alemão que viveu até 1914.

Poesia é ouro sem valia

Outro problema negligenciado é o do estereótipo que costuma identificar o poeta a um passional caráter de abnegação, ou colocá-lo na circunvizinhança de divindades, distantes o suficiente da realidade a ponto de mantê-lo afastado da materialidade cotidiana. Assemelhada a entes que oscilam do supra ao sub-humano, a criatura (criador de poemas) não pode ao menos ser avaliada. Nem no que diz respeito à qualidade estética, nem no que diga respeito à possibilidade de comercialização de seu trabalho. Dessa dupla desvalia decorre a inviabilidade da crítica literária dedicada à poesia.