Sobre Dirce Waltrick do Amarante

Professora do curso de artes cênicas da UFSC. Coorganizou e cotraduziu, com Sérgio Medeiros, De santos e sábios, uma antologia de textos estéticos e políticos de James Joyce (Iluminuras, 2012), e Cartas a Nora. Autora de As antenas do caracol: notas sobre literatura infanto juvenil e Pequena biblioteca para crianças: um guia de leitura para pais e professores. É autora de Para ler ‘Finnegans wake’ de James Joyce (Iluminuras).

Nota sobre Frank Stella

O museu Whitney, em Nova York, produziu uma exposição retrospectiva das obras de Frank Stella, considerado um dos mais influentes artistas norte-americanos atuais. A mostra se encerrou em fevereiro de 2016. Suas criações teriam servido de inspiração para muitos dos pintores abstratos dos últimos cinquenta anos, como destaca o catálogo da exposição. No Brasil, seu discípulo mais conhecido é Nuno Ramos, que parece ter herdado de Stella suas concepções abstratas monumentais e também outras ideias sobre o fazer artístico. Segundo Stella, aprender a pintar consiste no ato de olhar outras pinturas e depois imitar “os processos intelectuais e emocionais” desses pintores. Sabe-se que Ramos costuma retomar, numa escala “monstruosa”, obras de outros criadores.

A dança-teatro de Pina Bausch

Em 2014, assisti na Brooklyn Academy of Music (BAM), em Nova York, à apresentação de Kontakthof, que há 30 anos fazia seu début no mesmo teatro.

Ao contrário da considerável resistência ao trabalho da dançarina e coreógrafa alemã Pina Bausch e do Tanztheater Wuppertal, no início dos anos 1970, deparei-me com um teatro lotado de espectadores entusiasmados, que riam, aplaudiam e interagiam com a peça.

A respeito dessa resistência, Pina dizia que a dificuldade já começa com o conceito da palavra dança: “A palavra dança estava relacionada a um número muito particular de ideias. Mas a dança não consiste numa técnica particular. Isso seria extremamente arrogante, pensar que muitas outras coisas não seriam dança.

O nonsense em Finnegans wake

Finnegans wake igualmente incorporou o nonsense, tal como este foi praticado por escritores da Inglaterra vitoriana. Acredito então que o problema da estabilidade e da instabilidade no romance joyciano não pode mais ser discutido sem se levar em conta esta herança.

Se não fosse pelo coelho…

A 51ª Feira do Livro Infantil de Bolonha, que acontecerá entre os dias 24 e 27 de março na Itália, terá como país homenageado o Brasil. Ana Maria Machado, consagrada escritora e estudiosa da literatura infantojuvenil, estará presente no evento, apoiada pela Academia Brasileira de Letras. Ana Maria Machado é autora de alguns “clássicos” da literatura infantil, livros que não faltam nas bibliotecas das escolas e que se tornaram leitura obrigatória para os pequenos leitores. Gostaria de fazer aqui uma rápida reflexão sobre um desses “clássicos”, valorizado por tratar do tema da diversidade racial. Menina bonita do laço de fita, de Ana Maria Machado, parece ser, a princípio, um livro inocente e politicamente correto que trata da questão racial apresentando uma protagonista negra, cuja cor de pele é objeto de desejo de um coelho branco. Por trás dessa trama superficial, existe, no entanto, um conteúdo controverso. É interessante pensar, por exemplo, que, se não fosse pela companhia do coelho e da sua mãe, a menininha seria uma criança solitária. Pergunto-me: por que o vizinho ou a vizinha não vêm brincar com ela? Por que somente o coelho a procura? Ou ela moraria cercada de animais apenas? Trata-se, pode dizer o […]

O corpo e os corpos em Samuel Beckett

Mesmo não sendo um gnóstico, Beckett parece compartilhar das ideias expostas por Le Breton, uma vez que, nos seus textos, o corpo é muitas vezes um tipo de sarcófago, que aprisiona a alma inquieta de seus personagens. É preciso ressalvar, no entanto, que o conceito de “alma” em Beckett tem dimensão própria, pois, ao manifestar-se por meio da polifonia, ela é uma rede de vozes internas e externas que falam incessantemente, atravessando o sujeito.

Outra afirmação de Le Breton poderia também ser usada para analisar o “modelo” de corpo beckettiano, que é o que me interessa destacar aqui: “a alma caiu no corpo […] onde se perde. A carne do homem é a parte maldita sujeita ao envelhecimento, à morte, à doença. É o cadáver em decomposição, a carne. O mal biológico”. Considerações que aprofundam a imagem de corpo-sarcófago, atravessado por vozes.

Há sessenta anos esperamos Godot

Escrita em francês em apenas quatro meses, no ano de 1949, Esperando Godot, a peça mais conhecida do escritor irlandês Samuel Beckett (1906-1989), estreou somente em 1953, no Théâtre de Babylone, em Paris.

Na época, Beckett ofereceu ao ator e diretor teatral parisiense Roger Blin duas peças suas: Eleutheria (1947) e Esperando Godot. Blin optou por montar a segunda, porque considerou que os custos de produção de Godot não seriam tão altos quanto os de Eleutheria, que precisava de um cenário móvel e dezessete atores em cena. Godot requeria apenas cinco atores e um cenário praticamente vazio, com uma arvorezinha ao fundo.

A peça estreou sob a direção e atuação de Roger Blin, que se tornou o grande parceiro teatral de Beckett. Ao final da primeira apresentação, a plateia aparentava estar perplexa. O que se havia passado no palco? Nada, como se percebe logo na primeira fala de Esperando Godot: “Estragon (desistindo de novo): Nada a fazer”. A propósito, “Nada a fazer” é uma frase que retorna regulamente à boca dos personagens.

A despedida de Trisha Brown

1) A LENDÁRIA DANÇARINA ENCERRA SUAS ATIVIDADES Dirce Waltrick do Amarante A dançarina, performer, coreógrafa e desenhista norte-americana Trisha Brown, uma das precursoras da dança pós-moderna, anunciou oficialmente o encerramento de suas atividades frente a sua companhia, The Trisha Brown Dance Company. A despedida culminou com aclamadas apresentações na Howard Gilman Opera House, em Nova […]

O pato, a morte e a tulipa: a morte e as crianças

Num ensaio intitulado “Devemos temer a morte?”, que compõe o livro Ensaios sobre o medo, organizado por Adauto Novaes, Francis Wolff afirma (o que nos parece bastante óbvio) que o medo mais universal é o medo da morte, no entanto é o medo de que menos falamos abertamente: “falamos abertamente de doenças, de sofrimentos, de assassinatos, de massacres, de terror, mas da própria morte só falamos de maneira camuflada, e do medo que ela inspira – do medo que nossa própria morte inspira – não falamos quase nada […]”.

O teatro está morto?

Ao ser perguntado sobre o que quis dizer com “o teatro está morto” e se teria alguma relação com a situação do teatro na Romênia, Visniec explicou que, no seu país, o teatro “vivia (ou antes sobrevivia) enquanto teatro vigiado, perseguido (pelo poder), frequentemente desfigurado pelos pequenos ‘compromissos’ que os autores aceitavam para ver suas peças representadas.” Cabe citar, então, esta súplica de Godot:

Godot (choramingando): Eu não poderia viver sem o teatro … Não duraria muito…  Toda a noite, eu estava na plateia, estava entre as pessoas, vivia … Sofria como um animal, mas vivia… Vivia em tudo, em cada palavra… Como eles podem fechar tudo? Como podem jogar as pessoas pra fora? O que será de mim agora?