Sobre Fábio Akcelrud Durão

É professor do Departamento de Teoria Literária da Unicamp. Estes Fragmentos são uma continuação daqueles coligidos e publicados em Rio-Durham-Berlim: um diário de ideias (Campinas: UNICAMP/IEL/Setor de Publicações, 2008). “Trata-se de um ‘diário de ideias’ feito de fagmentos aforismáticos que discorre de maneira muito pessoal sobre a situação da teoria nos três países – Brasil, EUA e Alemanha – que fizeram parte da formação do autor; [...] A refexão do cotidiano se desdobra em tornar o olhar estrangeiro uma forma metodológica de crítica de diferentes culturas, cotejando entre si EUA, Brasil e Alemanha, algo que poderíamos chamar decrítica da cultura comparada” (Eduardo Losso) resenha.

Perspectivas da crítica literária hoje

Estudar literatura hoje é algo estranho; deveria ser a coisa mais fácil, e, no entanto, é o troço mais complicado. Deveria ser a coisa mais fácil, porque o que é necessário é pouco, e está disponível. Para estudar literatura direito você só precisa de quatro componentes básicos: livros, tempo, boca e ouvido. Idealmente, a coisa funcionaria da seguinte maneira: a pessoa lê uma diversidade de textos, simplesmente por curiosidade, porque são interessantes e dão prazer;

Impressões de um brasileiro em Nova Délhi

A Índia é refratária ao turismo. A palavra surgiu entre os românticos, no começo do século XIX, e, como é óbvio, vem de tour, movimentar-se para ver o diferente. Turismo necessariamente envolve uma estrutura de alteridade, distante no espaço, que inevitavelmente separa sujeito de objeto. A prática turística por excelência é o sight-seeing. A pobreza indiana não se deixa contemplar, não permite que seja tornada objeto – não apenas por causa da comunicação da dor de tantos miseráveis, aquilo que nos faz sofrer vicariamente, mas também pelas insistentes, perseverantes, infindáveis interpelações por dinheiro. Na Índia, você não consegue ter a ilusão de que é uma boa pessoa. Aqui você se vê implicado em uma estrutura de culpabilidade da qual não há saída. A Índia é uma escola para o Brasil.

Fragmentos

Uma experiência de banca. Me lembro de uma defesa de mestrado, na qual fui o segundo a usar a palavra. Antes de mim, arguiu um professor de mais longe, e como gostava de falar, tive tempo de procurar entender o que ali se passava. Concluí, em primeiro lugar, que era imperioso teorizar a merda, antes de mais nada pela dificuldade de diferenciá-la em vista de sua variedade, multiplicidade e ubiquidade. Neste caso, fiquei feliz em conseguir organizar a verborragia do colega em um esquema de quatro níveis, algo reminiscente da hermenêutica medieval. O primeiro era o literal, do simples nonsense, das palavras frouxas, dos conceitos gelatinosos, da falta de coerência entre as frases. Mas como é impossível deixar de fazer sentido o tempo todo, logo surgia uma segunda camada, que se referia ao simples erro, e que já era um avanço, dado que já possuía alguma determinação.