Sobre Fabio Riggi

Jornalista, canhoto. Escreveu mundo menor e mio cardio entre 2002 e 2004, publicados em tiragem ínfima e distribuída aos amigos, e os vem reescrevendo desde então. Também apresentou em 2009 a dissertação Ideograma do caos, sobre a poesia e a experiência de Mário Faustino entre 1956 e 1959.

A poesia na “era digital”

O artista norte-americano Kenneth Goldsmith publicou agora em 2016, no Brasil, a obra trânsito*. O livro é uma versão em português de Traffic, lançado em 2007 nos Estados Unidos, dublada agora, no caso, por dois jovens poetas, que ainda sondam um caminho mais próprio. Uso o termo “dublado”, pois foi assim que o livro foi exposto no papel por seus tradutores. Também em sua apresentação, na internet, lê-se que o trabalho é composto “de textos que transcrevem os engarrafamentos transmitidos por uma rádio de trânsito em São Paulo na véspera de um final de semana prolongado”, acrescentando-se que “a versão brasileira dublou o mecanismo do original, chegando a um texto que, entre o ready-made e a crônica, transforma o material descartável das ondas de rádio em livro”.

A Poesia Viva de Paulo Bruscky

Nesse sentido, a influência de alguns mentores do poema/processo, como Wlademir Dias Pino e Moacy Cirne, é notável na produção de Paulo Bruscky, que compactua a noção de participação do público e transformação inerente a uma poética que não se encerra em si mesma nem no pé da página, mas sim em uma ideia, um conceito.

Má-fé na tradução

Má-fé, no sentido sartriano de enganar não apenas os outros, mas também de enganar-se, é o conceito usado por Cyril Aslanov para discorrer sobre A tradução como manipulação (Ed. Perspectiva e Casa Guilherme de Almeida, 2015). Em seu livro, o professor israelense expõe e comenta casos de falsificações, negligências, censuras, motivações políticas, boicotes, deficiências do Google Tradutor, bajulações, apropriações e também casos em que a má-fé percorre outras camadas do texto, por vezes chegando ao seu estatuto ontológico.
Apesar do cinismo contido nas atitudes descritas acima, Aslanov considera a boa intenção de tradutores, mas considera também o resultado desse tipo de tradução “fiel e laboriosa” quase sem salvação. É inevitável nos lembrarmos de traduções de títulos de filmes e livros que encontramos sempre que vamos às lojas ou ligamos a TV. A propósito, o autor também dedica um capítulo à fraude na tradução simultânea.
Para Aslanov, “o tradutor não está traindo ninguém. Ele apenas procura subterfúgios que tornem o texto aceitável para o leitor”

A mesma coisa de Felipe Fortuna

É honesto em seu questionamento, do começo ao fim, não vende utopias, criando, assim, a maior delas. É nisso mesmo, em seu próprio paradoxo, que ele luta diante de um possível contra-argumento. Aqueles que poderiam tomá-lo, sectariamente, por um elogio da mesmice fazem, eles próprios, uma concessão ao banal. Afinal, não é porque uma questão está batida que ela esteja esgotada. Pelo contrário, em certos casos, prova-se que abandonar um tema pelo excesso de repetição é ilusório e, acima de tudo, um meio para a banalidade.

Transcriador ofusca poemas de Borges

Não se justifica, por exemplo, o arcaísmo do verso “A aparência superficial das cousas” para “La vana superficie de las cosas”. A explicação é simples: centrado nos encantos sonoros do verso borgeano, do qual a rima perfeita é um recurso explorado, Augusto de Campos preferiu um termo fora de uso para casar com “rosas”. Ademais, combina com as rimas do quarteto anterior “exploro” e “ouro”. A música foi, em verdade, reforçada – o que é diferente de potencializada ou renovada, mas por conta de uma palavra o poema empoeirou uns séculos.

Guia de sobrevivência aos Rolling Stones

Tudo começa com um fanzine chamado Beggars Banquet, que nos anos 1970 foi o responsável por aproximar Bill German de Keith Richards, Ron Wood e companhia. Cameron Crowe, que foi assinante do Beggars Banquet, escreveu e dirigiu Almost FamousUnder their thumb é quase uma versão literária desse filme, mas no livro de Bill o jovem protagonista não se apaixona por uma groupie. O foco está na atuação do fã enquanto jornalista, no relacionamento com os integrantes e o staff da banda e com os leitores.

Glauber Rocha e a revolução sussuarana

Faz trinta e um anos que Glauber Rocha morreu.

Fazia mais de trinta anos que o único romance que ele escreveu estava esgotado. Trata-se de um livro exigente potente verborrágico alucinatório descontínuo polêmico vociferante ousado erudito&transgressor lisérgico fantasmagórico virulento cangaceiro memorialístico histórico político violento escatológico&ezcatologyko como adjetivam por aí.

O romancista Altair Martins

Se, em 2009, Altair Martins ainda demonstrava algum desgosto com sua pouca exposição alcançada como escritor, sobretudo obviamente em São Paulo, hoje podemos afirmar que ele já se tornou um nome bastante festejado. Ganhador de prêmios literários, vai compor mesa com André de Leones e Carlos de Brito e Mello (mediação de João Cezar de Castro Rocha) na Flip 2012. Apesar de se ter destacado como contista, sua consagração se deu por conta do primeiro romance, A parede no escuro, publicado em 2008, que levou, entre outros, o Prêmio São Paulo. É um livro interessante e, diferentemente daqueles menos simpáticos com o leitor, faz o que pode para ganhar a amizade. Outro romance é aguardado e, segundo o autor, abordará o tema da identidade.

Prejuízos à nossa cultura

Sobre o tema Casa das Rosas, é lamentável a situação do campo literário brasileiro, que ainda tenta resolver tudo na base da machada, da exclusão e do silêncio.  O sr. Frederico Barbosa foi baixo demais com sua resposta a um artigo civilizado, e mais baixo ainda ao tentar fugir da responsabilidade de suas próprias palavras, propondo uma interpretação dispersiva de seus ataques naquele poeminha ruim, mas não chega a ser surpreendente, não é de hoje que a Sibila estimula o diálogo crítico e só recebe em troca silêncio ou adjetivos ofensivos e pessoais que prefiro nem mencionar. Saudações à Sibila pela educação e dignidade com a qual vem recebendo e rebatendo tais ofensas, assumindo sua posição de antagonismo a essa boa vizinhança literária que só traz prejuízos à nossa cultura. Abs. Fabio Riggi

A face mais banal de Francisco Alvim

Alvim é devedor e tem parte na pesada herança político-moral que seus poemas condensam, por mais que eles não revelem isso. Com toda sua experiência, levou onze anos para se repetir. Passou da hora de se reinventar. Contra as acusações sobre o subjetivo em poesia contemporânea, os poemas de Alvim, ao se esconderem nessa voz dos outros, olhando de fora sob a suposta prerrogativa da objetividade construtiva, trazem implícito eu-lírico que se quer acima de seu “problema-país”.