Sobre Fabio Riggi

Jornalista, canhoto. Escreveu mundo menor e mio cardio entre 2002 e 2004, publicados em tiragem ínfima e distribuída aos amigos, e os vem reescrevendo desde então. Também apresentou em 2009 a dissertação Ideograma do caos, sobre a poesia e a experiência de Mário Faustino entre 1956 e 1959.

A face mais banal de Francisco Alvim

Alvim é devedor e tem parte na pesada herança político-moral que seus poemas condensam, por mais que eles não revelem isso. Com toda sua experiência, levou onze anos para se repetir. Passou da hora de se reinventar. Contra as acusações sobre o subjetivo em poesia contemporânea, os poemas de Alvim, ao se esconderem nessa voz dos outros, olhando de fora sob a suposta prerrogativa da objetividade construtiva, trazem implícito eu-lírico que se quer acima de seu “problema-país”.

Sousândrade ri no inferno

E O Guesa é isto, um poema de transição, de crise do decassílabo heroico. NO Guesa, o verso clássico é obrigado a conviver com o “inferno de Wall-Street” a fim de lutar pela própria vida, assim como o errante renegado em sua pátria natal sofre para interagir com o mundo, chegando a reconhecer-se na imagem do misantropo. Luiza Lobo, referindo-se às “transposições no ‘Inferno de Wall-Street’ do fragmento do Canto X para o Canto II, diz que essas “inserções tornam-se trechos particularmente em desacordo com o cenário da floresta amazônica”.

As hooooras de Katharina

Bruno Tolentino abriu fogo contra a palha seca da cultura brasileira, protagonizou o maior bate-boca sobre tradução do país, ocupou, por 15 minutos, a posição da “antinovidade”, mas também carregou consigo o risco de fazer muito barulho por nada e o de produzir obras tão discutíveis quanto desestimulantes. A obra de Tolentino traduz bem o provérbio: cão que ladra, não morde.

Três poemas de mio cardio

braço terremoto de cãibra e cócega
interrompe o sono
caralho envirilha esguicho ao talho
interrompe o sono
— alguém esquece o aparelho ligado
jazz café e veludo vermelho
desenha, o contrabaixo
salto agulha, martini e cereja
— traga sono:
contar,
farpas de arame

Relendo Augusto de Campos

verso reverso controverso, que já na grafia de seu título nos propõe um desafio à transposição para a sintaxe vulgar, é, por que não?, um clássico de Augusto de Campos. Os estudos ali contidos foram originalmente publicados entre 1964 e 1967 e reunidos em livro mais de 10 anos depois, em 1978, pela coleção Signos (dirigida por Haroldo de Campos) da Editora Perspectiva.

Drummond: o furioso contrato da existência

“[…] à medida que a poesia se deixar levar pela nostalgia de tais ‘moldes antigos’ ou insistir na reação contra eles decidirá, a meu ver, da sua liberdade conceitual, pois o regresso ao padrão arcaico ou transposto é quase sempre indício de uma tendência para a recapitulação histórica, para a volta a concepções e diretrizes intelectuais também suplantadas. Quero dizer: começa-se pela forma e chega-se ao fundo. Ora, acredito que os poetas se acautelarão do risco.”

Treva alvorada, de Mariana Ianelli

Mariana Ianelli é bastante jovem. Apesar disso, possui um currículo tentador. Publicou seu primeiro livro aos 20 anos e outros cinco volumes em um intervalo de dez anos. Ela foi duas vezes finalista do Prêmio Jabuti, outra do Bravo! Prime de Cultura e ainda recebeu o valioso Prêmio Fundação Bunge. Em consequencia, seu mais recente livro Treva Alvorada merece atenção.

A África mascarada de Fernando Pessoa

A aproximação com Shakespeare – o “inventor do humano”, como quer Harold Bloom – é inevitável e demonstrada por mais de um crítico. Entre os discordantes, João Gaspar Simões e Jacinto do Prado Coelho entendem que a diferença entre o gênero dramático de Pessoa e o de Shakespeare diferem com relação à evolução das personagens.

Costa fracassa ao traduzir Octavio Paz

Não entendo como é possível investir nos valores de respiração do poema sem obedecer à regularidade métrica. Conforme verificamos, não há padrão para as inversões sintáticas, nem em obediência ao original nem a qualquer outro critério, diferentemente do que afirma o tradutor.