Tocando no metrô de Montreal

Tenho vivido uma importante experiência da minha debutante vida de músico. Longe de grandes palcos, festivais, prêmios ou qualquer atividade de prestigio, falo da experiência de tocar nos metrôs de Montreal – Canadá. É verdade, no entanto, que, ao dizer que “toco no metrô de Montreal”, certo charme parece daí emanar; a cultura norte-americana pintou em seu imaginário um lugar todo próprio ao artista urbano, aquele que trabalha sem intermédios empresariais, que troca uma canção por uma refeição.

O ritmo nas obras “Piano Phase” e “Drummings”, de Steve Reich

Sente-se em um avião bimotor e você perceberá, em voo, que essa ideia, esse mecanismo de defasagens captado por Reich está por aí, na natureza. Contemple o trânsito de sua cidade e veja como os pisca-alertas dos carros entram e saem de sincronia. Em diversas situações de nossas vidas os sons, as imagens, os afetos entram e saem de fase e mostram melodias secretas, mesmo sendo eles essencialmente idênticos.

O compositor grego Georges Aperghis

“A criação do mundo não é um edifício pensado por um deus. Nada é coerente, tudo é absurdo” (Aperghis). Aperghis não entrega significados ao seu público. Seu material em Récitations, assim como em muitas outras obras suas, são os fonemas. A manipulação dessas partículas fundamentais, destes pequenos átomos, gera compostos tão distintos quanto o kit de percussão a que alude a Récitation 13.