Flagelos do Senhor

Faltavam oito para o meio-dia quando Andrei terminou sua vida autêntica e começou a falsa — ele marcou esse fato com precisão. Ele começou a vida falsa com a preparação do desjejum. Dirigiu-se à cozinha comunal coberta de fuligem onde havia mesinhas individuais na mesma quantidade das famílias de inquilinos, colocou sobre o fogão a frigideira da senhoria, derramou alguns ovos na gordura endurecida de frituras anteriores e, atento ao chiar dos ovos, pensou em como poderia aproveitar seu dia, sem que perdesse e depreciasse o que havia acabado de descobrir. Se ficasse sozinho, significaria passar um dia cerebral, orientado para uma direção, concentrado num único ponto, o que fatalmente o levaria a dúvidas e poderia anular seu achado. Já se ele encontrasse pessoas com suas ninharias cotidianas, significaria comparar continuamente sua descoberta secreta com as trivialidades que aconteciam em volta e, como resultado, deixaria uma má impressão de si e ainda defrontaria seu pensamento ainda frágil com algo já estabelecido, palpável e sólido, o que, de novo, reduziria e empalideceria seu achado.