Sobre Joaquim Magalhães de Castro

É escritor e jornalista de viagens. Acabou de publicar o seu terceiro livro, O Mar das Especiarias, pela editora Presença.

Os filhos esquecidos do império português

– Se vai ao meu país, não se esqueça de visitar a ilha dos portugueses. – Foi com estas palavras que se despediu de mim o jovem secretário da embaixada de Myanmar em Pequim quando aí fui solicitar um visto de turista, já lá vão uns bons anos. Dessa vez, não chegaria a utilizar o visto requerido, mas aquilo da «ilha dos portugueses» ficou-me na ideia durante algum tempo.

Quando, finalmente, visitei pela primeira vez essa nação que já se chamou Birmânia e que um punhado de generais teimava em considerar um feudo seu, levava a lição minimamente estudada, graças à informação que em Macau me fora fornecida por um amigo entusiasta dessas coisas das miscigenações.

Quem primeiro nos relata o pioneirismo dos portugueses na Birmânia é o cronista Duarte Barbosa, que em 1501 ruma à Índia com uma frota de várias dezenas de navios, só regressando a Portugal quinze anos depois.

China: mítico reino do Cataio de Bento de Góis

O leigo jesuíta açoriano Bento de Góis, pouco divulgado viajante da centúria de Seiscentos, devido à sua energia, tato diplomático e domínio dos idiomas locais, foi o escolhido para a árdua missão de partir da Índia, no ano de 1603, em busca desse tal mítico reino do Cataio, onde se acreditava existirem cristandades perdidas. A extraordinária jornada que o levou do Punjab à Grande Muralha, atravessando os píncaros do Hindu Kush e visitando diversos e obscuros reinos e emirados da Ásia Central, foi reconstituída pelo jesuíta Matteo Ricci, que naquela altura dirigia a missão em Pequim, com base em fragmentos de apontamentos redigidos por Góis e com o auxílio da memória do seu companheiro de viagem, o armênio Isaac. O relato, porém, à semelhança de tantos outros relatos de viagens de ilustres portugueses, ficaria inédito até 1911.