Adonis e a poesia árabe contemporânea

O poeta sírio Ali Ahamed Said Esber (Latakia, 1930), conhecido por seu pseudônimo Adonis, é considerado o mais importante poeta árabe da atualidade. Ainda pouco conhecido no Brasil, acaba de ganhar uma antologia com prefácio de Milton Hatoum e tradução de Michel Sleiman (São Paulo, Cia das Letras, 2012). Adonis não pode mais, portanto, ser desconhecido no Brasil.
Adonis é o que se costumava chamar de um “homem político”: num sentido estrito, foi membro do Partido Socialista Sírio; num sentido lato, manifesta-se politicamente em todas as oportunidades; por fim, leva o discurso político diretamente para sua poesia. Apesar disso, os poemas de Adonis, como os de qualquer outro poeta, e ainda que sem desconsiderar inteiramente esses dados, devem ser tomados pelo que são, assim como pelo que representam na história da estética (pois a ideologia “correta” não garante uma grande obra − daí o fracasso do “realismo socialista” −, assim como crenças equivocadas não implicam numa obra ruim).

A FARRA DO ALUMBRAMENTO POÉTICO (INCLUINDO “COMO FAZER DIFERENTE” OU FEMEN)

Não apenas publicada, tal poesia foi, afinal, também premiada: recebeu o Prêmio Jabuti 2012. Aqui é mais fácil compreender: premiando a irrelevância “alumbrada”, o prêmio afunda definitivamente nessa mesma irrelevância, que o vinha consumindo há tempos (seu regulamento, não por acaso, é um perfeito nonsense, ao determinar que os que já receberam o prêmio não podem ser jurados: ou o prêmio não confia em seu próprio mérito, pois não reconhece a qualificação de quem o ganhou, ou prefere investir em jurados pouco expressivos, talvez porque mais fáceis de (im)pressionar).

Por uma política literária para a cidade de São Paulo

Os partidos e políticos que governaram o estado e a cidade de São Paulo nas últimas décadas, o que mais tentaram foi o caminho eleitoreiramente proveitoso do populismo cultural, apesar das variações de grau, somado à pura e simples indiferença filistina pela cultura. Ficamos no pior dos mundos: nem equipamentos culturais na quantidade minimamente necessária, nem agentes culturais com a qualidade e a capacidade de trabalho minimamente suficientes. O próximo prefeito de São Paulo não mudará um mínimo que seja esse estado de coisas. Serra e seu grupo já governaram o estado e a cidade (o atual prefeito tem uma das maiores rejeições da história recente, em parte, por haver fracassado notoriamente em inúmeros aspectos, incluindo a cultura).

A CORRUPÇÃO DO MÉRITO E O GOSTO PELA CENSURA

A esse respeito, um representante da Poeisis, à qual a Casa das Rosas é subordinada, afirmou que o referido artigo de Luís Venegas, “no que toca à CR, veicula inverdade, porque a gestão do dinheiro público gasto nesse equipamento cultural sofre (nem poderia ser de outro modo) controle interno (da Poiesis), da Secretaria de Estado da Cultura e do Tribunal de Contas. Ademais, obviamente (só a má-fé poderia supor de outro modo), todo esse gasto (do dinheiro público) é transparente, publicado no Diário Oficial”. Por partes: 1) não se está questionando a Poiesis; 2) a Secretaria de Estado da Cultura é hoje comandada pelo melhor nome em décadas, Marcelo Araújo; 3) não há qualquer má-fé nos questionamentos das atividades da CR (e do CCSP em sua curadoria literária): mesmo porque, são fatos notórios. Qual, afinal, a transparência na escolha dos autores que são contemplados com edições “grátis” produzidas no CCSP e lançadas na CR com dinheiro público? Qual o critério para integrar a lista de participantes de eventos pagos com esse dinheiro?

Instruções para bem se matar

Forma realmente popular de se suicidar é por ingestão de veneno, principalmente entre as mulheres. A explicação para a popularidade do veneno está na antiguidade de sua utilização, no seu baixo custo e na sua farta distribuição. Já a circunstância de as mulheres o escolherem como modo preferencial de suicídio adviria de não demandar o emprego de força nem causar derramamento de sangue, além de estar associado aos apetrechos de cozinha e à arte da culinária.

COUTINHO, PONDÉ, ROSENFIELD E A DIREITA OBSCURANTISTA

O conservadorismo político é, hoje, insuficiente porque atrasado, e atrasado porque, à semelhança do esquerdismo, mantém uma obsessão e uma cegueira “humanistas”. Pondé é, neste sentido, um caso limite e exemplar (daí a possível pertinência de se deter sobre ele): seu pensamento navega e naufraga numa insistência monótona, cansativa e algo fanática em “pensar sobre o homem”. Na prática, em denunciar como a modernidade é enganosa ao haver pretendido (ao menos segundo Pondé) “solucionar o humano”: “O que caracteriza a modernidade é a utopia de que a gente vai organizar a agonia. Não resolvem. O ser humano é agonia. O ser humano não é alguma coisa que tenha solução”. De fato, não tem. Não, porém, como acredita cegamente Pondé, porque esteja “envolto em mistério” e toda essa velha balela dos crentes: “A natureza humana […] sempre subentende um certo mistério” (a “natureza humana” e apenas ela, obviamente). Mas porque se trata de um falso problema, ou de um falseamento do problema. Noutras palavras, de uma ilusão de ótica.

A modernidade de Dante via tradução

Minha intenção aqui é demonstrar, pela análise da primeira cena do Canto I (estrofes 1-9), não ser Dante um poeta “difícil” (como, por exemplo, Hopkins), inclusive difícil de traduzir, ou seja, mais difícil do que outros grandes poetas. Na verdade, a proximidade entre o italiano da época (mais próximo ao latim) e a origem latina do português, somadas à linguagem do poema, facilitam relativamente as coisas. As muitas vezes surpreendentes soluções dos tradutores de Dante, portanto, não se devem tanto às características do original quanto às escolhas dos tradutores. Sou incapaz, por exemplo, de compreender a tradução de Augusto de Campos dessa primeira estrofe: “No meio do caminho desta vida / me vi perdido numa selva escura, / solitário, sem sol e sem saída”. “Me vi perdido” contradiz frontalmente o claro sentido (ou os sentidos claros) do original, pois não se trata de se perder em tais circunstâncias, o que seria banal, mas sim de se achar (trovare, ritrovare).

A CASA DAS ROSAS E A POLÍTICA CULTURAL DO PSDB DE SP

A gestão literária da cidade de maior importância cultural do país foi entregue pelo PSDB não apenas à truculência e ao boicote como à mesmice apequenada. Cabe então perguntar, não a Frederico Barbosa, cujas motivações e cujo modo de agir estão explicitados, ou seja, de certa forma respondidos à sua revelia (uma vez que ele mesmo se recusa a responder de maneira pública, clara, direta e desabrida às críticas à sua atuação à frente da Casa das Rosas). Cabe sim perguntar ao próprio PSDB, aparentemente indiferente a tudo.

Verdade tropical de Caetano Veloso: a arte de então e a de agora

Como incorporar o mundo moderno? Como ser incorporado por ele? Pelo mercado ou pela “revolução”? A cultura e a arte eram produtos necessários das relações econômicas, condenadas ao entretenimento no atual estágio de desenvolvimento do capitalismo, ou poderiam apesar de tudo fazer parte, ainda que como “companheiras de viagem”, da “revolução”? A resposta à esquerda, talvez pouco marxista, era que a arte poderia, e portanto deveria, “guardando quanta independência fosse possível em face do aparelho tecnológico e econômico”, servir como instrumento de “conscientização das massas”. A resposta pessoal de Caetano Veloso é que isso era populismo de esquerda. E que (talvez mais ortodoxamente marxista) a arte não poderia se guardar do “aparelho econômico” e, portanto, do mercado.

A Ovelha e o Tigre: a tradução de Blake por Augusto de Campos

Ainda na primeira estrofe, o tradutor em seguida elimina o elemento semântico mais importante da introdução do poema. Trata-se do adjetivo immortal do terceiro verso. Ele é o elemento central da primeira estrofe porque introduz, por sinédoque, o personagem a quem Blake questionará ao longo do poema. Na verdade, o poema é um questionamento desse personagem: daí ser todo ele montado sobre interrogações.