Poema exemplar

Conheço duas gravações desse poema na voz de Manuel Bandeira: numa, ele o reproduz tal como aparece escrito. Mas, no cd que acompanha a recente reedição dos 50 melhores poemas do autor, Bandeira muda o último verso dizendo: “O ruivo, claro isóscele perfeito.”. O poeta suaviza a aliteração dos /rr/ vibrantes (ruivo-raro) ao optar pelo / l/ de “claro”, que vem se avolumando obsessivamente desde “Logo a seu lado/ buliu na luz do lar, na luz do leito…”.

Os sapos

O meu verso é bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.
Vai por cinquenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A fôrmas a forma.
Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas…”.

EL DESDICHADO

Je suis le ténébreux, – le veuf, – l’inconsolé,
Le prince d’Aquitaine à la tour abolie:
Ma seule étoile est morte, – et mon luth constellé
Porte le soleil noir de la Mélancolie.

Eu sou o tenebroso, – o viúvo, – o inconsolado
Príncipe d’Aquitânia, em triste rebeldia:
É morta a minha estrêla, – e no meu constelado
Alaúde há o negror, sol da melancolia.