Sobre Marco Antonio Villa

É historiador. Mestre em Sociologia pela Universidade de São Paulo (1989) e doutor em História Social pela USP (1993). É professor da Universidade Federal de São Carlos. Últimas publicações: Breve História do Estado de São Paulo. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009. 200 p. 1932: imagens de uma revolução. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2008. 208 p. Jango, um perfil (1945-1964). São Paulo: Globo, 2004. 287 p. “O Partido dos Trabalhadores e a política brasileira (1980-2006) - uma história revisitada”, EdUFSCar, 2009.

SIBILA DEBATE 64: Marco Villa

Villa: Nunca existiu uma “situação pré-revolucionária”. É uma leitura marxista do século XIX. Não se sustenta nos fatos. É pura construção ideológica. Deve-se recordar que o Brasil, desde os anos 1920, viveu um período de turbulência política. 1922, 1924, Coluna Prestes, 1930, 1932, 1935, 1937, 1938 e 1945 foram alguns dos momentos de abandono da política – no sentido do convencimento do adversário – e da priorização do combate, do embate, da guerra, da transformação do outro em inimigo. Em 1955, no mês de novembro, tivemos três presidentes da República. Na presidência JK ocorreram duas tentativas para derrubá-lo e, ainda, não se deve esquecer a grave crise de agosto de 1961. Em todos esses momentos, a “situação pré-revolucionária” foi absolutamente inexistente.

Quando vim m’imbora: a migração nordestina para São Paulo

Dado o grande afluxo de migrantes e o rápido crescimento da economia paulista e da cidade de São Paulo, a todo instante era necessário reforçar o papel do estado como locomotiva do país e da cidade como a representação do novo, do futuro. As comemorações do IV Centenário da fundação da cidade, em 1954, serviram para, a todo momento, insistir na paulistanidade e ignorar a participação dos nordestinos na história da cidade. Foi o momento em que os mitos da história paulista voltaram ao primeiro plano: o padre Anchieta, os bandeirantes, o desbravamento do interior, o pioneirismo econômico (café, indústria). Para estes, “os ‘verdadeiros paulistanos’, a rigor, são os descendentes dos imigrantes estrangeiros”. Em um processo de fortalecimento ideológico dos setores mais conservadores da elite paulista – mais ainda devido ao retorno de Getúlio Vargas à presidência da República, em 1951 –, tornou-se fundamental a comparação entre São Paulo, como símbolo do progresso, e o Nordeste, como representação do atraso, do passado: “São Paulo é um viçoso broto de 400 anos! Nas ruas e logradouros centrais não há uma capela, uma casa, um muro de taipa, uma ruína sequer a anunciar ancianidade. Um único prédio que seja, com mais de 100 anos! Todo o seu passado arquitetônico foi varrido. A famosa ‘picareta do progresso’ tem friccionado continuamente as suas faces, desfazendo as marcas do tempo. Vive a cidade muito mais em função do futuro do que das glórias arquitetônicas do passado. O orgulho dos paulistas jamais era o de possuir a Igreja de São Francisco, como os baianos e sim de construir 6 casas por hora e sustentar o título de ‘cidade que mais cresce no mundo’”.

11 de setembro: a cultura brasileira é inferior à americana

A língua dificulta. Afinal, o português sobrevive graças à importância cultural e econômica do Brasil. As antigas colônias portuguesas na África, a cada dia, se afastam do português como língua nacional. Em Timor Leste ocorre o mesmo processo. Não deve ser acidental. Mas a pergunta é mais complexa. É chato dizer, mas a cultura brasileira (e latino-americana) é muito inferior à chinesa, japonesa, francesa, americana, inglesa etc.

O Brasil naufraga no marasmo

Romper com o presidencialismo de transação é tarefa imperativa para modernizar o Brasil e fortalecer a democracia. Como romper? Só há um caminho: via poder central. O presidente ao tomar posse anuncia numa rede de rádio e televisão que pretende governar com base em um programa. Expõe o programa e pede apoio programático aos partidos com representação no Congresso Nacional. O apoio não será na base do “é dando que se recebe”.