Poesia em tempos de indigência

Em tempos de indigência passa-se fome de toda natureza: material, intelectual, afetiva, ética. Indigência evoca miséria de um modo absoluto. E a miséria tem a ver com criação, distribuição e apropriação de bens. Com o possuir e o não possuir. Esse pensamento, por um viés arquetípico, traz à memória a fala de Sócrates no diálogo de Platão – o banquete, quando os deuses embriagados celebravam o nascimento de Afrodite; entre as divindades, encontrava-se o filho de Métis (Astúcia), Poros (Recurso, riqueza).

Entre o real e o onírico

Ressalta a “admirável leitura de Rabelais por Mikhail Bakhtin, dos anos 1960, um estudo bem russo de um riso popular que mescla o corpo vivo e suas aberturas, o encadeamento dos nascimentos e das estações, o mundo inteiro, num carnaval vencedor da morte, do medo, do poder, em seguida ocultado e pouco a pouco extinto: o ventre que dá à luz e que excreta, e a festa em que o novo sucede ao velho, a terra das delícias e a navegação rumo ao outro mundo são as representações-chave em que se exprime uma cultura popular sem idade.