A poeticidade do mundo

Na realidade, Rimbaud pratica a escrita como cartografia. De início, o referencial literário clássico é refeito, quando ainda estudante aplicado no Latim. E, na sequência dos poucos anos de sua adolescência (tempo em que dura sua produção poética), são apropriados o Romantismo e os poemas da atualidade parnasiana, posteriores a Baudelaire, na virada para o que ficou conhecido como Simbolismo. (Deve-se pôr em destaque o dado que o criador de Fleurs du mal se situa como matriz de suas desleituras/reescritas). Em tal andamento, o literário deixa de ser o único molde para a escrita de Rimbaud. Seu material se mescla, plurificando-se. Recolhe textos diversos no cotidiano, em todas as variações inscritivas, em seu uso mais ordinário, a partir mesmo do refugo cultural (veja-se a esse respeito “Alquimia do Verbo”).

O indefensável ataque

Querido Regis: estou impactado com o indefensável ataque movido contra você (por Frederico Barbosa, via “poeminha”), envolvendo seus familiares. Um horror, horror, que só mostra ainda mais o panorama de indigência em que vivemos, mesmo no pretenso espaço “nobre” da poesia. A Sibila vem se empenhando no estímulo da criação poética em si, de qualidade, e no fortalecimento da crítica contemporânea de um modo renovador. Isso é o que interessa. E eu sigo vibrando com o seu trabalho de poeta, desde sempre. Abraço grande, Mauricio Vasconcelos (Professor Titular da FFLCH/USP)

Velida Crash – Livro, Passagem e Vida de Régis Bonvicino

Até agora, o itinerário de Régis Bonvicino pela poesia se dá de modo nada pacífico, não repousado sobre o já feito. Quando o nome e a letra de Bonvicino são referidos, rearticulados, ganha relevo a dimensão de um homem em sua solitude inventiva, sempre em irrompimento. Algo que toma mais proeminência no presente, após as rupturas vanguardistas em seu credo evolutivo de sequências orientadas para o mais novo. O timbre reconhecível de um século de mudanças progressivamente acionadas promove um cortejo incandescente de figuras e estratégias formais tanto situadas quanto insidiosas, provocadoras que são de uma revisita crítica e criadora, deslocada de sua contingência epocal. Até agora testemunha tal passagem, tal problematização.

Nota intermilenar: sobre a poética de Haroldo de Campos

No limiar, a demarcar-se sob – na emergência receptiva, dorsal, de outro rosto, a poesia refuta a localização da casa/linguagem/clareira de cariz heideggeriano em favor da ética da doação, da errância (Wills, 2008, p. 61). Insufla o desmascaramento, ou melhor, o ingresso no jogo de máscaras ultraurbano, sob o influxo drag queen de todos os sexos, em “a morte vestida de verde-jade”, poema em que um gosto trash se modula entre extratos de Sarduy.

José Agrippino de Paula

Curioso é notar o paralelo possível de se estabelecer com outros criadores de narrativa em toda a extensão de nosso continente, tais como Manuel Puig, na Argentina, Cabrera Infante, em Cuba, e os norte-americanos William S. Burroughs e Thomas Pynchon. Estes autores incorporam as mutações técnicas e culturais que fazem do espaço literário, mapeado por Blanchot até a primeira metade do século XX.

Monção – Legados da poesia africana

O poema “Metamorfose”, do moçambicano Luis Carlos Patraquim, oferece um intrigante elo entre as literaturas de língua portuguesa no período pós-colonial (caso dos países africanos) e pós-ditatorial (realidade do Brasil e de Portugal), assinalando ao mesmo tempo o eixo da problemática contemporânea de arte, política e cultura, em torno do qual as literaturas dos diferentes […]

A acanhada produção literária contemporânea

Mauricio Salles Vasconcelos conversa sobre crítica e literatura brasileira contemporânea

Venho há algum tempo me referindo a certa pequenez generalizada que tomou conta da poesia brasileira. Acredito haver muitos modos de demonstrá-la. Um deles surgiu em uma conversa com a poeta Josely V. Baptista, em que ela me apontou a virtual impossibilidade de se fazer uma antologia forte de poetas contemporâneos. A antologia teria de ser, então, de poemas.

GODARD

Não é por acaso que o próprio cineasta aparece para pontuar (sempre com a voz off) ou sublinhar por meio de legendas os intervalos entre um e outro quadro em sucessão. Quando não ocorre o toque na já muito antiga máquina elétrica de escrever, à maneira de um comentário intermitente, disseminado no fluxo das images/stories que são dadas a ver sobre as Histórias do Cinema.