O telefone de Avital Ronell

A transformação de livro filosófico em palco operante de linguagens, capazes de atravessar um domínio disciplinar específico, logo desponta em The Telephone Book, de Avital Ronell. Por conta mesmo da performatividade em torno de constructos inseparáveis do desempenho e da instrumentação de traços gnosiológicos assim como de enunciados, que se acionam na órbita da logofonia (exemplificável no dispositivo-chave concentrado pelo aparelho telefônico). Todo um capítulo anterior de implicações com o desconstrucionismo derrideano nos Estados Unidos, no qual Avital Ronell se insere – a princípio, atuando como tradutora e hostess das visitas do pensador francês em suas estadas anuais na New York University –, pode ser traçado, de modo a definir seu surgimento como filósofa. O ensaio de Derrida centrado sobre James Joyce – Ulysse gramofone (1987), datado dois anos antes de The Telephone Book –, expõe, por um lado uma nítida fonte das ramificações entre pensamento e repertório tecnomaquínico no itinerário de Avital Ronell. Apresenta-se, em outro extremo.

A poeticidade do mundo

Na realidade, Rimbaud pratica a escrita como cartografia. De início, o referencial literário clássico é refeito, quando ainda estudante aplicado no Latim. E, na sequência dos poucos anos de sua adolescência (tempo em que dura sua produção poética), são apropriados o Romantismo e os poemas da atualidade parnasiana, posteriores a Baudelaire, na virada para o que ficou conhecido como Simbolismo. (Deve-se pôr em destaque o dado que o criador de Fleurs du mal se situa como matriz de suas desleituras/reescritas). Em tal andamento, o literário deixa de ser o único molde para a escrita de Rimbaud. Seu material se mescla, plurificando-se. Recolhe textos diversos no cotidiano, em todas as variações inscritivas, em seu uso mais ordinário, a partir mesmo do refugo cultural (veja-se a esse respeito “Alquimia do Verbo”).

O indefensável ataque

Querido Regis: estou impactado com o indefensável ataque movido contra você (por Frederico Barbosa, via “poeminha”), envolvendo seus familiares. Um horror, horror, que só mostra ainda mais o panorama de indigência em que vivemos, mesmo no pretenso espaço “nobre” da poesia. A Sibila vem se empenhando no estímulo da criação poética em si, de qualidade, e no fortalecimento da crítica contemporânea de um modo renovador. Isso é o que interessa. E eu sigo vibrando com o seu trabalho de poeta, desde sempre. Abraço grande, Mauricio Vasconcelos (Professor Titular da FFLCH/USP)

Velida Crash – Livro, Passagem e Vida de Régis Bonvicino

Até agora, o itinerário de Régis Bonvicino pela poesia se dá de modo nada pacífico, não repousado sobre o já feito. Quando o nome e a letra de Bonvicino são referidos, rearticulados, ganha relevo a dimensão de um homem em sua solitude inventiva, sempre em irrompimento. Algo que toma mais proeminência no presente, após as rupturas vanguardistas em seu credo evolutivo de sequências orientadas para o mais novo. O timbre reconhecível de um século de mudanças progressivamente acionadas promove um cortejo incandescente de figuras e estratégias formais tanto situadas quanto insidiosas, provocadoras que são de uma revisita crítica e criadora, deslocada de sua contingência epocal. Até agora testemunha tal passagem, tal problematização.

Nota intermilenar: sobre a poética de Haroldo de Campos

No limiar, a demarcar-se sob – na emergência receptiva, dorsal, de outro rosto, a poesia refuta a localização da casa/linguagem/clareira de cariz heideggeriano em favor da ética da doação, da errância (Wills, 2008, p. 61). Insufla o desmascaramento, ou melhor, o ingresso no jogo de máscaras ultraurbano, sob o influxo drag queen de todos os sexos, em “a morte vestida de verde-jade”, poema em que um gosto trash se modula entre extratos de Sarduy.

José Agrippino de Paula

Curioso é notar o paralelo possível de se estabelecer com outros criadores de narrativa em toda a extensão de nosso continente, tais como Manuel Puig, na Argentina, Cabrera Infante, em Cuba, e os norte-americanos William S. Burroughs e Thomas Pynchon. Estes autores incorporam as mutações técnicas e culturais que fazem do espaço literário, mapeado por Blanchot até a primeira metade do século XX.

Monção – Legados da poesia africana

O poema “Metamorfose”, do moçambicano Luis Carlos Patraquim, oferece um intrigante elo entre as literaturas de língua portuguesa no período pós-colonial (caso dos países africanos) e pós-ditatorial (realidade do Brasil e de Portugal), assinalando ao mesmo tempo o eixo da problemática contemporânea de arte, política e cultura, em torno do qual as literaturas dos diferentes […]

A acanhada produção literária contemporânea

Mauricio Salles Vasconcelos conversa sobre crítica e literatura brasileira contemporânea

Venho há algum tempo me referindo a certa pequenez generalizada que tomou conta da poesia brasileira. Acredito haver muitos modos de demonstrá-la. Um deles surgiu em uma conversa com a poeta Josely V. Baptista, em que ela me apontou a virtual impossibilidade de se fazer uma antologia forte de poetas contemporâneos. A antologia teria de ser, então, de poemas.