Uma releitura das contradições de Ezra Pound

Porém, Pound não apenas merece estar na galeria dos suspeitos de sempre da história intelectual: revolucionou a literatura direta e indiretamente. Ademais de ser o maior dos poetas do século XX, foi editor, corretor e artífice da publicação de “No Man’s Land” de T.S. Eliot, o primeiro poema realmente modernista que formatou tudo o que vinha do passado, fazendo-o caduco e ridículo. Não obstante, enquanto Eliot passou a converter-se no principal crítico e poeta de seu tempo, apesar de sua carga teológica, a posição de Pound foi ofuscada por seu apoio incondicional a Mussolini e Hitler, por seus programas radiofônicos de agitprop fascista em Roma durante a Segunda Guerra Mundial e por seu antissemitismo visceral. Como nos debates sobre autores enfeitiçados pelo fascismo, no caso de Pound temos também interpretações opostas, uma ferradura hermenêutica que oscila entre separar artificial e absolutamente a obra do homem (o clássico é Julia Kristeva) ou diretamente fazer preceder à poesia sua adesão política ao fascismo (Massimo Bacigalupo). A conclusão é um silogismo ridículo: Pound não foi fascista (quando efetivamente foi); Pound não foi realmente um poeta (quando foi, e como!). Ou, aprofundando um pouco, Pound foi um fascista sui generis porém sua poesia não.