Sobre Régis Bonvicino

Poeta, autor, entre outros de Até agora (Imprensa Oficial do Estado de S. Paulo), e diretor da revista Sibila.

Sexo e Gênero em Parque Industrial

Parque industrial, de Patrícia Galvão, a Pagu (1910-1962), foi escrito em 1932 e lançado no ano seguinte (em pequena tiragem financiada por Oswald de Andrade), com o pseudônimo de Mara Lobo, que ela adotou para evitar mais atritos com o Partido Comunista, no qual militava sem nunca, no entanto, se submeter ao seu “centralismo”. O livro foi, assim, escrito durante o governo Vargas, que tomara o poder em 1930, após o breve período do governo da junta militar liderada pelo general Tasso Fragoso, sucedendo Washington Luís (1926-1930). A polarização política mundial entre comunistas e fascistas, que ocorreu nessa década, pautou igualmente as artes, que, pouco a pouco, na maioria de suas manifestações […]

Alex Polari: Inventário de Cicatrizes

Fato importante aconteceu, não só no circuito poético, com o lançamento de Inventário de cicatrizes, coletânea de poemas de Alex Polari de Alverga, que, como se sabe, foi preso em maio de 1971, aos vinte anos, por sua militância guerrilheira contra o regime militar brasileiro e, por isso, condenado pelos tribunais a 80 anos de prisão, o que não é, diga-se, nada mole. Há coisas significativas no livro de estreia desse poeta-guerrilheiro, que escreveu seus poemas na cadeia.

A primeira é que o produto de sua venda vai ser canalizado para o Comitê Brasileiro pela Anistia. A segunda é que a linguagem de Alex é colada, de modo inseparável, ao vivido e à vida. Nesse sentido, pode-se afirmar que Inventário de cicatrizes é um diário em transe e em trânsito, temperado com reflexões sobre o passado (atuação guerrilheira) e o presente (vida na cadeia, condição de preso político, torturas etc.). Nos melhores poemas de Alex, há o risco do instantâneo e o rápido do imediato.

Poems from Critical Condition (2013)

This poem
is unremarkable
not unlike the rest –
just for a moment,

illustrates, apathetically,
the past, it catches flies
pays interest
has no air sac

snakes, mice, thieves
scorn its grave
plush wolves howl,
its future is moot

it’s a blind bee and its mate wearing glasses
it’s tongue is no sponge
it’s antennae scent out Drummond
unable to see in the dark

A poesia e a língua portuguesa na era da internet

Não se pode falar sobre a poesia na internet, sem se falar, brevemente, sobre a situação da língua portuguesa na rede. O português é a única língua oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe, além de uma das línguas oficiais da Guiné Equatorial, do Timor-Leste e de Macau, na China. No que respeita à internet, o primeiro aspecto a se apontar é a grande defasagem entre a proporção de seus falantes na população mundial e a dominação nítida de sites em outras línguas.

O fascínio pelo “literário” no Brasil

A poesia brasileira continuava, nesse mesmo ano, travada pelo tardo-parnasianismo e pelo tardo-simbolismo – que se referiam quase que exclusivamente à literatura, abdicando da sondagem do real, o que se daria apenas a partir do início dos anos 1920, com altos e baixos. O Concretismo, em sentido estrito, dos anos 1950, não deixa de ser uma vanguarda que se deduziu da própria literatura (o que é atípico se cotejada com os ismos europeus e com o Objetivismo norte-americano), ao instituir uma receita de poema […]

Cair de costas

Na verdade, Cair de costas é, do ponto de vista editorial, o primeiro livro de poemas de Ronald Augusto, porque reúne cinco plaquetes, lançadas a partir dos anos 1980, com tiragens pequenas, que propunham a leitura de sua poesia aos amigos. Cair de costas reúne a parte de formação do trabalho do guitarrista da banda “Os poETs”. Não há, em Cair de costas, inovações formais ostensivas na aparência, embora essa poesia não seja nostálgica ou grandiloquente, com temas kitsch.

Metaformose de Leminski

Observava Aristóteles, na Poética, que o (bom) poeta deve ser antes um fabulador do que um versificador. Com isso, não ignorando as exigências da técnica, procurava enfatizar a importância da imaginação criadora num texto literário. Ocorre-me relacionar a observação do filósofo com esta Metaformose de Paulo Leminski, por ele também batizada de “uma viagem pelo imaginário grego”. Viagem livre que se utiliza dos mitos como ponto de partida para fabulações.

O sentido do sol de Maiakóvski

O trabalho de criar os cartazes seria o mote central de “A aventura insólita que viveu V. Maiakóvski quando de sua estada na datcha”, poema traz à tona, entre outras leituras possíveis, as contradições insolúveis entre Revolução e arte revolucionária, já a partir de seu título. Escrito no auge da guerra civil que contrapunha a Revolução à contrarrevolução (1920), refere-se, em primeiro lugar, à “aventura”, não do povo russo, ou da classe operária, ou do Exército Vermelho, mas do próprio poeta.

A pluralidade da língua portuguesa

Há diferença notável entre o português europeu e o português brasileiro: este último recebe, hoje, acriticamente, dezenas de anglicismos por dia, que se tornam então brasileirismos, usados no dia a dia. Há um lado saudável nisso; entretanto, eu prefiro cuidar da língua como língua de cultura, com limites mínimos ao menos; talvez eu não fosse tão drástico como os portugueses o são, mas não permitiria nomes próprios esquisitos como Maicon, embora engraçado e afetivo (tradução sonora e popular de Michael Jackson). Prefiro “défice” a “déficit”.

Nota sobre “Poetry”

Esse possível enunciado da relação da poesia com o mundo social ganha, através da redução, uma notória ironia, que marca o primeiro verso: “Eu também não gosto dela…”. Trata-se de um gesto cult afoot da explícita evocação de Baudelaire: “Hypocrite lecteur, – mon semblable, – mon frère!”. Mas o que no gigante francês era desmascaramento em Marianne Moore é um dizer sutil: “Sim, eu também não gosto dela, mas…”. Não há esse mas, but, no poema – ao menos, não de modo imediato. Ele aparece um pouco adiante, na forma de however, contudo, no entanto.