DE CRÁPULA A HERÓI

O caminho cumprido por Emanuele Bardone, o protagonista de De crápula a herói, é muito mais complexo que o simplismo dos dois extremos presentes no título brasileiro do filme. Sua construção parece justamente atacar a ideia de que possam existir tipos com características tão estritas. Impossível não ver aqui também um caminho cumprido por Rossellini, de Roma cidade aberta para cá. Se quinze anos antes a guerra figurava como eliminadora das ambiguidades, ela agora passa a ser a própria fonte delas. Numa oposição entre a população oprimida por uma ocupação e a força militar ocupante e opressora, não restava muita dúvida de que lado ficar. Em De crápula a herói os lados continuam os mesmos, mas Bardone é a figura que transita entre as partes. Nem tão identificado com o sofrimento do povo italiano dominado, nem muito menos entusiasta do poder alemão, ele vai se moldando a partir da contingência, e não se furta a usar o artifício que for preciso para se sair melhor da situação em que se meteu. Um personagem, a princípio, quase antirrosselliniano.