Sobre Ronald Augusto

Poeta, músico, editor e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de valha (1992), Confissões aplicadas (2004) e No assoalho duro (2007). Dá expediente nos blogs: poesia-pau e poesiacoisanenhuma

Augusto de Campos e o fogo-amigo dos cortesãos

Encontrei textos de gente perguntando antes de qualquer leitura: “mas, quem é esse sujeito?”. E em um tom que queria dizer “você sabe de quem está falando?”. O aviso desses secretários endereçado a Luis Dolhnikoff parece supor uma advertência pseudo-aristocrática: cuidado com quem você se mete. Mas, a julgar pelo silêncio de Augusto de Campos, esse quem ressentido é o dos próprios seguidores que tomaram, a juros elevados, as dores do vietcong concreto.

EDITORIAL

A revista Sibila dedica-se há anos, com desprendimento, esforço e afinco, sem jamais se utilizar de verbas públicas, à poesia brasileira contemporânea, por considerar a situação da poesia um aspecto fundamental da situação da cultura brasileira. Vários críticos (entre eles, Alcir Pécora e Paulo Franchetti) escreveram e escrevem sobre o tema na revista. A crítica rigorosa da poesia contemporânea é um serviço inestimável à essa mesma poesia, pois a complacência leva à complecência, e a complacência não leva a lugar algum que valha a pena. A experiência humana não é feita de facilidades. Quem busca facilidades e satistafações fáceis, quanto à poesia brasileira, não deve portanto ler a Sibila. Quem busca, por outro lado, tentar compreender por que afinal a poesia brasileira contemporânea está ou parece estar aquém da grandeza que poderia e deveria ter, não apenas em relação ao país que poetiza ou tenta poetizar, mas em relação à história literária de que é herdeira, deve talvez lê-la. Não porque temos certezas. Mas porque temos dúvidas. Principalmente sobre a satisfação fácil com a situação atual da poesia brasileira. Pois acreditamos que ela possa e, portanto, talvez deva ser maior. Muito maior. Ronald Augusto (Editor da Sibila)

Faltou hombridade para assumir o ataque

Não é segredo que a mãe do Régis se suicidou em 1979. Nem que a Mônica Rodrigues da Costa (hoje são amigos) e ele se separaram na década de 90. Sua filha, de 17 anos,  passou por problemas relativamente sérios. Régis foi, sim, e daí?, em novembro para a China, para um importante encontro de poetas de lá. Para fugir a uma réplica vigorosa, Frederico Barbosa invoca didascália e o escambau (a covardia escrita entre parêntesis); faltou hombridade para assumir o ataque; lamentável. Ronald Augusto

Piglia morre pela boca do editor fanfarrão

Por outro lado, pensando um pouco mais a propósito dessas referências evocadas por Ricardo Piglia, talvez elas tenham mais a ver com os seriados de televisão e sua dublagem dessincronizada do que com as finezas do cinema, já que, em Alvo noturno, as senhas e as remissões, tanto ao film noir quanto à escrita que mimetiza essa tradição, são muito estereotipadas. De resto, não há muita sutileza, inclusive porque esta é a marca dessa cultura das citações em abismo e das medíocres releituras que estamos experimentando a todo momento, quer como leitores, quer como espectadores.

APONTAMENTOS MARGINAIS: A POESIA E A VIDA DE CRUZ E SOUSA

Em 1898, cerca de um ano depois de haver concluído a redação de Faróis e Evocações – e da publicação de Un Coup de Dés, de Stéphane Mallarmé -, Cruz e Sousa morre em estado de penúria extrema, vítima de tuberculose, em Sítio (MG), para onde se dirigira, inutilmente, em busca de melhora. Seu corpo desce para o Rio de Janeiro num vagão utilizado para o transporte de gado.

O drible no racismo

Quero entender essa angústia: o racismo seria então uma “questão de foro íntimo”? Ouvi algo equivalente a isso da boca de um renomado comentarista esportivo do rádio e da televisão do Rio Grande do Sul, não é por outro motivo que seus pares de jornada futebolística o chamam de Professor. Pois esse Professor, a propósito do caso Grafite, deu mostras de sua sabedoria, prevaricando com uma argumentação que dizia mais ou menos assim: a intimidade indecorosa das quatro linhas, o espaço mítico do campo deve ser preservado, pois o que se passa no interior das marcas de cal não deve sair dali.

Tópicos sobre emoção e poesia

A questão fundamental parece ser a seguinte: o sentimento tem que se resolver em forma, signo estético. Tudo acaba num livro, segundo Mallarmé. O poema não é um receptáculo neutro onde se derrama a emoção. Não há, a rigor, emoção nenhuma num poema. E a contribuição do leitor, neste caso, é decisiva. A emoção é um evento que se localiza aquém ou além do poema. O que se tenta no poema é fazer uma alusão à emoção, convertê-la em figura, imagem.

A Ku Klux Khan de Monteiro Lobato

Lobato escreve e inventa um tipo de obra que é “palatável”, sim, mas apenas para os defensores da meritocracia de fachada, para os retranqueiros da branquitude ameaçada em seus privilégios, pois seu mundo mitológico e folclórico é o mundo perdido do menino branco que se vinga no filho da mucama batendo nele.

Age de Carvalho: um normal e limitado ás da poesia

É impressionante como a série de bolso da coleção “Ás de colete” conseguiu agrupar ao longo dos últimos anos cerca de uma, duas dezenas de poetas que alcançam escrever todos com uma idêntica sensaboria poeticamente correta. De ordinário demonstram notável adestramento técnico, em que pese o mesmo ser pueril; praticam esse movimento inconcluso que parte de um “repetir para aprender” e não chega sequer a roçar as margens de um “aprender para criar”.