Beyond the wall

Beyond the wall (Além do muro), segundo selected poems de Régis Bonvicino publicado nos Estados Unidos – o primeiro foi Sky-eclipse, em 2000 – pela mesma Green Integer, em edição bilíngue, testemunha um trabalho de arqueologia poética centrada sobre os resíduos tóxicos do capitalismo terminal. Pois se mostra observável nos poemas o foco na condição de lixo em que as grifes e as referências culturais contemporâneas acabam por se situar. O filósofo Emil Cioran comparou a atividade escritural, numa de suas notas sobre Beckett, à obstinação daquele que, no budismo, busca a iluminação – como “o rato que rói um caixão”: “Todo escritor verdadeiro faz um esforço semelhante. É um destruidor que amplia a existência, que a enriquece minando-a”. Assim, o teor dramático da escrita de RB, em relação metonímica com a figura do poeta atravessando as ruas da cidade em decomposição, pode ser observado no poema “Caminho de hamster”: “Fedendo a cigarro e a mim mesmo/ cruzo uma avenida/ ao anoitecer/ sirenes, carros (…) fedendo como aquela maçã podre/ fedendo a música estúpida/ desses tempos.

NO PRINCÍPIO ERA O VÍRUS

Inquietante viralização a que se impõe hoje, enquanto atravessamos as truculências desse início de milênio, através de uma infinidade de peças escatológicas servindo de estofo ao hiperlivro www. Dois fantasmas do livro por vir, diz Derrida em Papel-máquina, vêm nos induzir à tentação de considerar a rede mundial como o Livro ubíquo enfim reconstituído, o livro de Deus, o grande livro da Natureza, ou o Livro-Mundo. Trata-se do sonho onto-teológico com o fim do livro em dois limites, em duas figuras extremas, finais, escáticas: o fim como morte ou o fim como telos ou realização. Na esteira do fim da arte e fim da história hegelianos, da morte de Deus, do último homem e do super-homem nietzscheanos, multidões de cyber-usuári@s, em cadência publicitária global, colaboram para a metanarrativa da desolação mundial diária. Certo modo de ser replicante, acossado e em pânico – o terror – fez-se condição oportuna para a emergência de uma cultura tecnocapital planetária. Desde há mais ou menos dois séculos, quando o fim das supremacias.