Sobre Urariano Mota

É escritor e jornalista pernambucano. Foi colaborador de Movimento, Opinião, Escrita, Ficção, entre outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redaçãoe colaborador do Observatório da Imprensa. É autor de Soledad no Recife (São Paulo, Boitempo, 2009), que reconstrói as circunstâncias, confissões e testemunhos da passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife em 1973, e a traição que levou à sua prisão, tortura e morte pelo governo militar.

SIBILA DEBATE 64: Urariano Mota

Urariano: Acredito que há um engano na relação, ou identidade, entre justiça e lei. A injustiça não se faz pela desobediência à lei. Imagine a escravidão no Brasil e o largo tempo em que foi legal. O problema é que a transição para a democracia no Brasil sempre foi, também, uma transação – um comércio, um acordo por cima. E mais, da distensão à democracia o processo não se fez de modo linear como em um fluxo de programa computacional. Assim, a Comissão da Verdade não veio como em outros países. E quando chegou, atravessou e atravessa até hoje obstáculos e boicotes e insultos inomináveis. Como compreender uma democracia que tem um Bolsonaro a debochar da busca de corpos de desaparecidos? Em que os oficiais nas escolas militares continuam a ser formados pela doutrina da guerra fria em pleno século XXI? E, no entanto, assim tem sido. Por fim, os erros na esquerda não são equivalentes ao terrorismo dos fascistas. Até hoje, o princípio de repúdio à tortura é cláusula não violada entre socialistas. Imagine a execução fria de presos desarmados, como se fez no Brasil. E ainda se faz até hoje contra os pobres e periféricos, pela polícia.