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BATE-PRONTO
(volta)

BATE-PRONTO
Materiais inéditos e, também, polêmica e desobediência. Novelties and polemics, controversy and disobedience.

 

O mandato celestial
Régis Bonvicino

Para o cientista político Guilhermo O’Donnel, que cito por meio de artigo de Gilberto Dupas, a democracia pressupõe seres humanos detentores de dignidade e possuidores de direitos.[1] Por isso, o desenvolvimento econômico, para ele, só é democrático quando produz sociedades eqüitativas que incluem tais valores como cláusulas vivas. Esse não é o caso da China, que – apesar de crescer em torno de 10% ao ano desde as reformas de Deng Xiaoping (1978-9) e de ser para o mundo, segundo James Kynge, “uma questão (país) de importância internacional diária a partir de 2003”[2] – permanece “socialista”, com 70 milhões de pessoas que sobrevivem com dois dólares ao dia e com um contingente de 120 milhões de trabalhadores migrantes que aceitam salários pré-industriais. Uma China que se vale da endêmica cópia de produtos ocidentais, sem respeito aos direitos de reprodução, para catapultar seu crescimento econômico alucinado. Coincidentemente, a China e os Estados Unidos são os dois maiores emissores de gases poluentes da Terra. E outras coincidências há entre eles: a rasura das liberdades públicas, que, no caso dos norte-americanos, parecia ter atingido seu ápice com o Patriot Act de 26 de outubro de 2001. Sob o pretexto de lutar contra o terrorismo, a lei suprimiu inúmeros direitos civis básicos, revogando a democracia plena naquele país. E agora, com o Foreing Intelligence Surveillance Act, aprovado em julho de 2007 pelo Congresso norte-americano, inclusive por alguns senadores democratas, o Patriot Act tem seus poderes ampliados: qualquer cidadão pode ser alvo de escutas sem a necessidade de uma ordem judicial.

Ilustra o caso chinês o filme Em busca da vida (2006), de Jia Zhang-Ke. Nele, narra-se a história de duas pessoas à procura de seus cônjuges numa cidade em vias de desaparecer sob as águas da represa Três Gargantas. A personagem Han Sanming, trabalhador das minas de carvão, viaja para Fengjie – a cidade que vai submergir no rio Yangtzé – em busca de sua ex-esposa, que ele não vê há dezesseis anos.

Permito-me um parêntese para dizer que esse episódio da película remete, no caso deste livro, a um poema de Yao Feng – um bilíngüe chinês-português, residente em Macau, que co-editou esta mostra comigo, na condição de líder do projeto. O poema intitula-se “Para os mortos na Mina de Carvão Taping” e começa: “Os cadáveres foram carregados/ um a um,/ e o último a ser levado era apenas mais um”; para se concluir numa estrofe que sintetiza as contradições já apontadas: “Todavia, no mundo terrestre/ o vento continua soprando frio e a energia/ é cada vez mais objeto de cobiça./ O crematório? Insumo energético da China”. China, aqui, significa o Estado chinês.

No filme, a segunda personagem, a enfermeira Shen Hong, retorna à cidade para visitar seu marido, que não encontra há dois anos. Em busca da vida é um filme que revela desencontros e, entre eles, o da economia com as liberdades públicas na China. De acordo com Luiz Zanin, “esses custos [do desenvolvimento] implicam o desaparecimento de cidades milenares de um dia para o outro [...]. Implicam também a dispersão de pessoas, que, não tendo mais onde morar ou no que trabalhar, serão realocadas em outras partes do país. Assim, é da morte que fala esse filme: morte cultural”.[3]

Os poetas que integram esta mostra, que ora apresentamos ao público brasileiro, situam-se dentro desse quadro. O mais velho deles, o extraordinário Bei Dao, nasceu em 1949, ano em que a China se tornou “socialista” sob Mao Tse Tung. Aliás, Bei Dao, que em 1989 estava no exterior, não pôde retornar a seu país, proibido pelo governo, em conseqüência do massacre promovido por Deng Xiaoping nas ruas em torno da praça da Paz Celestial, pois os manifestantes que pediam a liberdade e o fim de uma inflação em espiral ascendente carregavam alguns de seus versos em cartazes: “Para não me ajoelhar na Terra/ contrastando assim com a elevação do carrasco/ que impede os ventos da liberdade”.

Ilustra tanbém as contradições chinesas a história real de Zeng Jinyang, de 23 anos. Jinyang dirige uma ong de luta contra a Aids. Seu marido, Hu Jia, um ativista dos direitos humanos e ambientalista, desapareceu de súbito em fevereiro de 2006, o que a levou a enviar milhares de mensagens eletrônicas e cartas para políticos do mundo inteiro e organizações internacionais como a onu, com o objetivo de pressionar o governo chinês a revelar o destino de seu par. A estratégia deu certo: 41 dias depois, Jia reapareceu para, no entanto, ser sumariamente condenado à pena de detenção domiciliar de 241 dias. Ambos estão proibidos de sair da China. Zeng Jinyang costuma usar camisetas onde se lê: “House arrested again”.

Para o atual presidente chinês, Hu Jintao, que tomou posse em 2003, harmonia significa estabilidade, e estabilidade significa impedir qualquer discrepância ou insurgência contra seu modelo de governo. Hu Jintao foi o primeiro líder civil a governar o Tibete (anos 1990), após uma das muitas rebeliões daquele país contra o domínio chinês, e esmagou com sucesso todos os levantes que se deram sob sua gestão. Em termos de direitos públicos, Jintao é partidário de mudanças “lentas e graduais”. As posições do presidente Jintao lembram-me versos dos poetas deste livro. Yan Li, no poema irônico “Devolvam-me”: “Devolvam-me aquela porta sem fechadura”; Xi Chuan, em “A cidade onde moro”: “Todavia ela sempre vai existir/ porque na cidade onde moro/ ninguém vive aqui”. Ou o excelente poema de Yan Li, “Anzol”, que vale a pena ser transcrito na íntegra porque revelador do beco sem saída chinês: “Após esperar muitos anos/ meu anzol/ flutuou por si mesmo/ no tanque estéril de peixes/ Flutuou por mais anos/ ainda sem outro desfecho/ meu anzol acabou/ por devorar-se a si mesmo”.

O país que devora a si mesmo, que tem vinte cidades entre as mais poluídas do mundo e enchentes arrasadoras, além da paralisia institucional e da pobreza africana, apesar do crescimento econômico. Por tian li, o mandato celestial, os fins justificam quaisquer meios. Tian li: a auto-imagem chinesa de superpotência milenar. Segundo Kynge, para os imperadores, a fome não era apenas um desastre que poderia causar – e muitas vezes causava – rebeliões. Era também o insulto supremo. Os imperadores eram tian zi, filhos dos céus, e, como tal, encarnavam o elo entre a terra e as autoridades celestes, que controlavam a chuva, o vento e o clima. Desse modo, secas, inundações, fomes e outros desastres naturais eram vistos pelo povo como prova de que o imperador havia perdido o tian li, o mandato celestial – que Hu Jintao parece tanto prezar com sua mão de ferro.

Para falar deste livro, tenho de retomar o tema da “pirataria”. Kynge relata que a Honda, que foi copiada pela Lifan chinesa, acabou por imitar a cópia para poder voltar a liderar o mercado de motocicletas na China. Ele conta ainda que, quando visitou Chongquinq – imensa cidade chinesa –, catalogou, com a ajuda de auxiliares, 320 mil tipos de diversos produtos contrafeitos, de aparelhos eletrodomésticos a telas de Van Gogh, Chagall e Monet. Nos dez poetas chineses que selecionamos, mais pelo resultado do poema na língua de chegada (português) do que pelo escrito na língua de partida (chinês), não há contrafação, mas, bem ao contrário, originalidade em si e originalidade para os olhos ocidentais: o verdadeiro mandato celestial. O que escrevi para apresentar a poesia de Yao Feng – amigo e parceiro de uma década – vale para os demais autores, exceto para Bei Dao, com uma poética amarga, marcada pelo exílio de quase vinte anos e por seus constantes deslocamentos across the world, algo que foi obrigado a fazer, como se fosse uma espécie culta de Han Samming, de Em busca da vida. Reproduzo: “Yao Feng é um poeta original, atento à vida contemporânea. Em seu trabalho, refabula as fábulas clássicas, trazendo-as para o cotidiano, para confabular contra a morte da própria poesia [...]. Sua sensibilidade é franca, pura, mas não “ingênua”, e, em conseqüência, aberta de verdade aos fatos do mundo; seu olhar é afetivo, sem, no entanto, deixar de ser suficientemente crítico”. De um modo geral, há astúcia nos poemas ora editados, diferente da astúcia – perversa – ocidental. E um humor “arteiro”, completamente diverso do nosso. Sinto-a também truncada, por razões óbvias, como se usasse intuitivamente uma técnica de guerra, o cut-out beckettiano, por exemplo, com versos curtos e abruptos e/ou versos longos sincopados. Esses poetas e poemas preservam, mesmo que agora dialoguem com o Ocidente por meio de cem milhões de computadores e 350 milhões de celulares, a cultura milenar chinesa (esmagada pela hidrelétrica Três Gargantas), com feição contemporânea, como nos ensina Feng em sua introdução e em seus ensaios nos apêndices. Há, sem dúvida, duas dúzias de outros poetas relevantes a serem ainda vertidos para o português, mas, ao menos segundo os críticos chineses, traduzimos os quatro principais poetas da atualidade: Bei Dao, Yu Jian, Han Dong e Xi Chuan. Pequenas porções, mas porções. A poesia de Bei Dao é um caso raro de poesia – para utilizar um insight de Octavio Paz – que se encarnou na história: os cartazes da praça da Paz Celestial.

Uma palavra sobre a tradução: os poemas de Bei Dao e de alguns outros foram traduzidos do inglês e, depois, cotejados com o chinês por Feng, que lhes fez correções. Os outros foram traduzidos direta e literalmente por Feng a partir do chinês e retrabalhados por mim em português, sob sua supervisão. Participou também das traduções a excelente Maria do Carmo Zanini. Não tentamos reproduzir em português “a extrema economia de meios” dos caracteres (para usar uma expressão de Haroldo de Campos, a respeito de suas transcriações de haicais).[4] Preferimos buscar uma correspondência de valor entre as línguas, num português atual, que pudesse ser usado por um João Cabral de Melo Neto, por exemplo, e não um pseudo-estranhamento que não existe nos poemas originais: a língua chinesa não é estranha aos poetas chineses. Se assim não fizéssemos, recairíamos em colagens espacializantes que, talvez, não dissessem os poemas com seu vigor original. Alongamos as linhas para não perdê-las de vista.

 

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1: Gilberto Dupas, “Massas populares e democracia”, O Estado de S. Paulo (21 jul. 2007). ^ voltar ao texto.

2: James Kynge, A China sacode o mundo (Rio de Janeiro, Globo, 2007). ^ voltar ao texto.

3: Luiz Zanin, “Em busca da vida”, Luiz Zanin: Cinema, Cultura & Afins, <http://blog.estadao.com.br/blog/zanin>, (21 jul. 2007). ^ voltar ao texto.

4: Haroldo de Campos, A arte no horizonte do provável (2. ed., São Paulo, Perspectiva, 1972), p. 57. ^ voltar ao texto.

 

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