BATE-PRONTO
Materiais inéditos e, também, polêmica e desobediência. Novelties and polemics, controversy and disobedience.
UM CONCEITO DE SIBILA
Régis Bonvicino conversa com a multiartista croata SIBILA PETLEVSKI
4 de setembro 2006
RB: Por que seus pais deram o nome "Sibila" para você?
SP: Foi idéia de minha mãe. Mas, primeiramente, gostaria de contar para você que os meus pais foram pintores reconhecidos internacionalmente. Um trabalho de meu pai, Ordan Petlevski, da década de 1960, quando ganhou o primeiro prêmio na 1a Bienal de Paris, ainda deve estar em algum lugar do Museu de Arte Contemporânea de São Paulo. Provavelmente no porão, pois ele recusou a celebridade e decidiu deixar Paris e voltar para "trás da cortina de ferro", na Iugoslávia de Tito. Foi morar na Croácia como pintor free-lance junto com outra maluca free-lance, minha mãe, para viver uma vida familiar tranquila. Quem quiser mais informações sobre ele, peço que visite http://www.blesok.com.mk
Minha mãe procurava um nome com um som suave e uma conotação mítica, mas que não oprimisse a filha com um destino específico ou o de uma pessoa mítica ou histórica em particular que tivesse levado o nome pela "primeira" vez na história do “espírito humano”. Por exemplo, Sophia devia ser uma jovem muito inteligente; Diana devia ser – é claro— uma mulher bela; Selena poderia –meu Deus do céu—virar uma astronauta etc. Houve muitas Sibilas: Líbia, Saméia, Ciméria, Eritréia, Pérsica, Tiburtina, Délfica, Frígia, Européia, Agripina, Helespôntica — aí por que não Croata ou Macedônia ou Cosmopolita? Foi isso que minha mãe pensou, porque ela era croata e meu pai de origem macedônia.
E tem mais. Minha mãe, quando estava grávida, teve um sonho curioso. Sonhou com uma mulher que só conhecia por fotografias. Essa mulher era a mãe do meu pai, que tinha morrido, misteriosamente, quando meu pai estava com apenas 10 anos. Ela tentou em vão ter uma filha e tentou sete vezes. Só teve filhos e eles morreram na primeira infância. O único que sobreviveu foi meu pai. Neste sonho, a mulher estava vestida com uma toga grega e carregava um vaso com suas próprias cinzas. Ela ofereceu as cinzas ao seu primeiro filho e ele as recusou; depois, as ofereceu à minha outra avó e ela também não as aceitou. Quando ela ofereceu as cinzas à minha mãe, ela não apenas aceitou o vaso, mas bebeu também as cinzas. O forte simbolismo profético desse sonho fez com que minha mãe escolhesse o nome Sibila para mim.
RB: Como você se sente com um nome tão expressivo e incomum?
SP: Eu me sinto muito bem como uma das sibilas. Sim, é mais do que apenas um nome, tem matizes de um destino coletivo, como no hino latino: Dies irae, dies illa / Solvet saeclum in favilla/ Teste David cum Sibylla... Mas, esse nome "forte" nunca me privou da minha própria maneira de ser. Eu me sinto livre para cometer meus próprios erros. E tem mais: por simples coincidência o nome de meu marido é David!
RB: O que significa a poesia para você?
SP: A poesia é a última esfera de liberdade no mundo atual, que está baseado em valores medíocres e mensagens globalmente previsíveis. A poesia não vende, mas continua existindo: esse fato me traz alguma esperança. Eu escrevo em gêneros diferentes, mas minha poesia está presente em todos meus interesses: vira teatro quando a recito, vira prosa quando a vivo.
RB: Você poderia falar um pouco da poesia croata atual?
SP: Para ser franca, não estou interessada nela.
RB: Quais são seus poetas favoritos? Justifique.
SP: Acredito na unidade transtemporal do espírito poético, e, de vez em quando, descubro novas alegrias em versos antigos. Também gosto de redescobrir poetas que já conheço "muito bem" e freqüentemente me fascinam algumas vozes novas. Por exemplo, no começo da década de 90, editei uma antologia de poesia americana recente e um dos poetas que apresentei era Charles Bernstein quem — por outra coincidência — também é um dos editores da SIBILA brasileira. No entanto, considero poetas como Blake e Yeats como meus desejados espíritos gêmeos.
*
Uma Campa Aberta
we sweed, we broke the stones
Oscar Wilde
Desde que me prives do meu sexo, não terás mais
Dificuldades. Podes cosê-lo num saco e atirá-lo
Ao rio. Se te insultei – disse ele – foi sem querer.
Atira o caroço fora. Prometo não mais gritar que é crime.
Deixarei que comas a polpa. Juro. A trave de aço
Do espaço da minha vida cruza a tua num único
Arco. Posso derrubar todas as pontes exceto essa.
Ardem-me os dedos e não consigo acender um fósforo
Um ataque um pouco mais astuto à tua integridade
E estarei livre como um velho prisioneiro que, cumprida a sentença,
Caminha pela nave até o altar. Se procuras escalpes, por favor
Atreve-te ao meu cabelo de prata. Gostaria de fazer o mesmo, mas
Não tenho coragem. Nunca mais me peças que te mate, disse ele. Ok,
Podes fazer-me um filho, disse eu. Espero como uma campa aberta
Tradução para o português europeu: Ana Haterly.

Imagem de uma Sibila na Igreja Nossa Senhora da Rocha, em Montenegro
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