A razão original deste texto não era, no entanto, analisar o rap, notadamente o de Tyler Okonma e seu Odd Future, mas sim tentar uma comparação entre a poesia cantofalada do rap e a poesia escrita. Em parte, a resposta está no parágrafo inicial, quando me refiro à incapacidade de a poesia dar conta poeticamente do mundo contemporâneo e ao prosaísmo que a domina, encerrada em certo autismo autossatisfeito, enquanto o rap encara, em mais de um sentido, o mundo contemporâneo e nada tem de prosaico. Mas analisando as letras do Odd Future e de outros rappers, inclusive brasileiros, como os Racionais, chego à conclusão de que a principal diferença está no fato de que o rap consegue fundir estruturas propriamente poéticas, como os dísticos rimados em versos livres que dominam seus textos, a um coloquialismo ao mesmo tempo contemporâneo, forte, agressivo, realista e eficiente. Chega a ser paradoxal, pensando no coloquialismo buscado pelo modernismo poético no início do século XX: pois, neste caso, numa espécie de neomodernismo, o rap mantém o verso livre modernista enquanto recupera o dístico rimado da poesia tradicional, acrescentando à mistura esse coloquialismo radical, além de marcado por um fortepoetismo no tecido morfossemântico.