A guerra secreta da CIA contra a Cultura

O livro Who Paid the Piper: The CIA and the Cultural Cold War (London: Granta Books) de Francis Stonor Saunders conta em detalhes a maneira como a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) infiltrou-se e influenciou um grande número de organizações culturais por meio de seus agentes e de organizações filantrópicas associadas, como as Fundações Ford e Rockfeller. O livro revela ainda como a CIA no pós-guerra alistou muitos intelectuais na campanha para provar que o engajamento à esquerda é incompatível com a arte séria e o conhecimento.

A autora, Francis Stonor Saunders, detalha como e por que a CIA patrocinou congressos culturais, montou exibições de arte e organizou concertos. A Agência também publicou e produziu autores conhecidos que seguiam essa linha de Washington, patrocinou a arte abstrata e fez ataques à arte de conteúdo social. E, em todo o mundo, financiou publicações que atacavam o marxismo, o comunismo e as políticas revolucionárias.

MONTAIGNE: AUTORRETRATO

O que se pretende aqui é investigar e comentar que espécie de eu ou de voz narrativa atravessa os ensaios de Montaigne. De saída pode-se afirmar, por meio de uma leitura comparativa, que nos Ensaios não deparamos o mesmo tipo de eu (como mecanismo discursivo) que, por exemplo, serve de instrumento tanto a Descartes como a Agostinho para a consecução e apresentação de seus textos e problemas filosóficos. Sob uma aparente similaridade, isto é, a de que nesses casos temos filósofos escrevendo a partir da primeira pessoa do singular ou conferindo ao pronome pessoal um estatuto mais dramático no que toca às condições de possibilidade do conhecimento, enfim, sob essa virtual aproximação, cabe estabelecer algumas distinções. Distinções estas que, de resto, vão demarcar o que é irredutível a cada um desses percursos filosóficos.
Tendo em mente as considerações do poeta T. S. Eliot que no ensaio Las tres voces de la poesía[1] analisa as possibilidades expressivas da poesia a partir da concepção de que o gênero admite três tipos de vozes, a saber.

Indústria editorial no Brasil

Toca o telefone, atendo e um tal de sr. Herrero me pergunta se posso recebê-lo. Explica que é representante de editoras espanholas e que gostaria de me conhecer pessoalmente.
Estamos em 1982, três anos após a constituição da minha empresa. Como todo bom vendedor, o sr. Herrero é simpático e comunicativo, vai apresentando os catálogos de dezenas de editoras. Oferece abertura de crédito imediato, 180 dias para pagar sem obrigação de assinar um contrato e/ou promissórias e acrescenta que, se tiver qualquer inconveniente no meio do caminho, tudo bem, o prazo pode ser estendido. Fácil, extremamente fácil. Nunca esquecerei. Ele escrevia só com caneta verde e se autoatribuía o título nobiliário de “Conde de Tinta Verde”.
Luz verde, portanto, para ampliar possibilidades de negócio e um conselho: “Vai para a Espanha. Tem uma feira profissional em setembro. O pessoal precisa conhecer o teu trabalho”.
Os vinte metros quadrados da Letraviva não cabiam em si. Abria-se um novo horizonte.

Entrevista a Jane Joritz-Nakagawa

No verão de 2015, Jane Joritz-Nakagawa embarcou numa conversação, via e-mails, com o poeta, tradutor, editor, ensaísta e romancista Paul Hoover para discutir o futuro do New American Writing (uma revista que tem sempre destacado poetas americanos e não americanos, tradução de poesia e várias edições especiais), a carreira de Paul e seu trabalho mais recente.
O poema contém poucas sentenças, mas muita música e jogo de palavras. Escrevendo dessa maneira, os alunos se veem forçados a pensar palavra por palavra, e não de frase por frase. Para confirmar o esquema, eu leio o final do poema duas ou três vezes mais. Algumas pessoas usam o termo “abstrata” para qualificar esse tipo de poesia. Mas não é abstrata; é uma dança viva de palavras, que leva a mais do que uma direção.
A segunda tarefa do dia era um poema de três páginas a ser começado no meio de uma frase e a terminar no meio de outra. Os modelos eram os poemas longos de Gwendolyn Brooks (“In the Mecca”), Louis Zukofsky (“A”-14).

Música popular na Bahia

A história musical baiana começa com a vinda do primeiro bispo nomeado para a Bahia pela Coroa Portuguesa, D. Pero Fernandes Sardinha, que aqui chegou em 1º de janeiro de 1552 trazendo consigo um musico, Mestre de Capela, para ensinar aos alunos do Colégio dos Jesuítas. Mais adiante o irmão do poeta Gregório de Matos, Eusébio de Matos, também conhecido como Frei Eusébio da Soledade, (nascido na Bahia em 1629, um exímio tocador de harpa e viola, compondo hinos religiosos e cantos profanos), tornou-se o responsável pela formulação das primeiras regras de ensino de música. O tempo passa e no início do século 19, através de uma carta régia expedida por D. João VI, é criada na “cidade da Bahia”, em 30 de março de 1818, uma cadeira de música, nomeando-se José Joaquim de Souza Negrão como seu primeiro instrutor e diretor. Terra inspiradora de grandes artistas do século 19 produz e consagra nomes como José Joaquim de Souza Negrão.

O submundo do livro no Brasil

A edição mais recente de “Já podeis da pátria filhos”, o ótimo livro de contos de João Ubaldo Ribeiro, do ponto de vista das editoras, tem curiosa trajetória. O livro, relançado pela Objetiva, saiu pelo selo Alfaguara, editora espanhola adquirida pela Santillana, esta do grupo espanhol Prisa, de comunicações, dono do jornal El País. Em 2005, a Santillana comprou 75% da brasileira Objetiva, editando o livro de João Ubaldo em 2009. Mas a coisa não acaba por aí, na verdade, mal começa.

Uma gigante, dona de várias grandes editoras, engole a outra. A alemã Bertelsmann, que havia incorporado a norte-americana Random House em 1998, comprou a Penguim, do grupo inglês Pearson, em 2012, gerando o maior conglomerado editorial do planeta, a Penguim Random House. Daí para a frente, a Penguim Random House, enquanto ramo editorial da Bertelsmann (53% das ações) e parte da inglesa Pearson (47% das ações), comprou a italiana Mondadori (dona da mexicana Grijalbo) , a argentina Sudamericana, a espanhola Santillana

Crédito à morte: a crise sem fim do capitalismo

Quem quer se lembrar agora? O grande medo de outubro de 2008 parece já mais distante do que “o grande medo” do início da Revolução Francesa. Mas naquele momento, tinha“-se a impressão de que grandes buracos davam entrada à água que levava a pique o navio. Tinha”-se até a impressão de que todo mundo, sem dizê-lo, já esperava por isso há muito tempo. Os experts se interrogavam abertamente sobre a solvência até dos Estados mais fortes, e os jornais estampavam em primeira página a possibilidade de uma falência em cadeia das cadernetas de poupança na França. Em reuniões de família, discutia“-se acerca da necessidade de se retirar todo o dinheiro do banco e guardá”-lo em casa; usuários dos trens se perguntavam, comprando um bilhete com antecedência, se ainda poderiam pegá”-los. O presidente americano George Bush se dirigia à nação para falar da crise financeira em termos semelhantes àqueles empregados depois do 11 de setembro de 2001, e o Le Monde trazia como título em sua revista de outubro: “O fim de um mundo”.

Curatorial Practises

Na prática da curadoria estamos assistindo a uma mudança radical da própria noção de “arte”, a uma mudança da categoria cognitiva daquilo que, até agora, tem sido chamado “arte”. Esse fenômeno não diz respeito apenas à Itália. Está ocorrendo uma profunda desestabilização daquele “mundo da arte” (Artworld) que se havia constituído no começo da década de 1960, com a Pop Art e com todas as modas artísticas sucessivas, de acordo com o qual é “arte” tudo o que é reconhecido como tal pelos mediadores institucionais (museus, galerias, críticos, exposições, historiadores…). Hoje há duas estratégias curadoriais opostas que se confrontam. A primeira tende a atribuir a qualificação de “artistas” a todos os que assim se autodefinem: por exemplo, em Saatchi, em 2006, abriu-se uma sessão open-access onde, via internet, qualquer artista podia criar uma sua página pessoal que continha seu currículo e um número limitado de obras, sem ser submetido a nenhum juízo ou avaliação. Essa empresa, conhecida como Your Gallery, envolveu mais de 60 mil artistas e constituiu um evento midiático de grande relevo.