Impressões de um brasileiro em Nova Délhi

A Índia é refratária ao turismo. A palavra surgiu entre os românticos, no começo do século XIX, e, como é óbvio, vem de tour, movimentar-se para ver o diferente. Turismo necessariamente envolve uma estrutura de alteridade, distante no espaço, que inevitavelmente separa sujeito de objeto. A prática turística por excelência é o sight-seeing. A pobreza indiana não se deixa contemplar, não permite que seja tornada objeto – não apenas por causa da comunicação da dor de tantos miseráveis, aquilo que nos faz sofrer vicariamente, mas também pelas insistentes, perseverantes, infindáveis interpelações por dinheiro. Na Índia, você não consegue ter a ilusão de que é uma boa pessoa. Aqui você se vê implicado em uma estrutura de culpabilidade da qual não há saída. A Índia é uma escola para o Brasil.

A perda da experiência da formação na universidade contemporânea

O que pode significar “uma educação para a contradição e para a resistência”? De acordo com o que vimos acerca do hiper-realismo, as pessoas são encorajadas a uma aquiescência total ao que existe, como se fosse antinatural ou utópico ou insensato opor-se àquilo que se impõe como realidade. Essa atitude naturalista perante as coisas é tão difundida porque corresponde a um dogmatismo que nem sequer é fruto de crenças fortes, mas simplesmente desempenha uma função acomodadora. Ao hiper-realismo corresponde portanto algo como uma vontade de unicamente afirmar, no sentido de corroborar sempre a realidade. É a atrofia da capacidade crítica, certamente, mas devemos compreendê-la não apenas como empobrecimento existencial e cultural mas também do ponto de vista das condições objetivas, isto é, do clima de “consenso” naturalista que rechaça qualquer atitude de contestação e de crítica assim que elas ameaçam aparecer.

Chile, país de críticos

“Chile, país de poetas”, es el título del prólogo escrito por Pedro Pablo Rosso para el libro que reúne las ponencias y conversaciones del Congreso Internacional de Poesía “Chile mira a sus poetas”. En este texto, el traductor de Montale y ex-rector de la Universidad Católica, insiste en el cliché: “¿A qué se debe esta propensión poética de los chilenos? ¿a nuestra ubicación remota? ¿a la belleza de nuestros paisajes? ¿a la influencia de las fuerzas telúricas?

China: a festa lunar

Conta o folclore chinês que ainda existe outra divindade relacionada à lua, o Velho da Lua, Yuelao 月老, guardião do Livro das Bodas, em que está traçado o destino de toda a gente; o Velho carrega um saco repleto de cordões vermelhos, utilizados para amarrar os tornozelos dos casais. Acredita-se que, enquanto os cordões estiverem atados, o casamento é predestinado e indissolúvel.

Reza outra lenda que no reino de Qi, período dos Reinos Combatentes (475-221 a.C.), existiu uma rapariga muito feia chamada Wu Yan que, desde pequena, era muito devota à Lua. Quando cresceu, foi admitida como concubina ao palácio imperial, mas nunca foi escolhida pelo rei. Na noite do décimo quinto dia do oitavo mês lunar, quando apreciava a Lua, foi vista pelo príncipe que logo se encantou e mais tarde casaram, e ela tornou-se rainha. Desde então, muitas moças fazem oferendas à deusa da Lua, pedindo beleza e brancura.

O Deus farsante e o ídolo providencial

A necessidade brasileira de esquecer os problemas agudos do país, difíceis de encarar, ou pelo menos de suavizá-los com uma cota de despreocupação e alegria, fez com que o futebol se tornasse a felicidade do povo. Pobres e ricos param de pensar para se encantar com ele. E os grandes jogadores convertem-se numa espécie de irmãos da gente, que detestamos ou amamos na medida em que nos frustram ou nos proporcionam o prazer de um espetáculo de 90 minutos, prolongado indefinidamente nas conversas e mesmo na solidão da lembrança.

SIBILA DEBATE 64: Rodrigo Patto

A sensação entre as direitas era que seus adversários ganharam muito terreno com Goulart, e que poderiam convencê-lo a criar um regime forte para implantar mudanças sociais mais rapidamente. Sabia-se que o comunismo propriamente dito tinha escasso apoio popular, mas temia-se o que embaixador Lincoln Gordon chamou de “subversão por cima”, ou seja, a influência da esquerda exercida desde o Estado. Embora o exagero na avaliação do perigo “comunista” possa ter sido proposital no caso de alguns agentes, para criar clima favorável ao golpe, ainda assim penso que a motivação maior era de natureza política (afastar um governo comprometido com as esquerdas, expurgar o “perigo”), o que se comprova pelas ações posteriores da ditadura.

A estreia de Plínio Marcos sob o signo de Pagu

Durante as décadas de 1950 e 1960, além de conhecida nacionalmente, Pagu exerceria uma importante influência no panorama cultural da cidade. Ao mesmo tempo em que escrevia para A Tribuna de Santos, promovia festivais e espetáculos, fomentando grupos amadores e a fundação do Teatro de Vanguarda (TEV). Graças a Pagu, Santos teve a oportunidade de assistir, pela primeira vez no país, Fando e Lis, de Fernando Arrabal, traduzida por ela em 1958 – ano em seria também encenada Barrela. Pagu e Plínio Marcos teriam se conhecido em 1957, quando ele aparece como ator do GETI: “em 1957, esta distinta senhora (Pagu), então com 47 anos, adentrou os bastidores do Circo Pavilhão Teatro Liberdade procurando o palhaço Frajola; queria que o rapaz trabalhasse com ela”. Com a atuação de Plínio Marcos em Pluft, ele passa a frequentar um grupo de intelectuais, pintores e músicos do círculo de Pagu e Geraldo Ferraz.

Sibila documento:
“A tortura, como ato ilícito absoluto, faz nascer uma relação jurídica”

A sentença reproduzida a seguir (juiz Gustavo Santini Teodoro, São Paulo, 7 de outubro de 2008) é um documento histórico exemplar, que Sibila publica com a dupla intenção de divulgá-lo e de oferecer a oportunidade de se tomar contato com a discussão jurídica como feita no país em relação a um fato histórico incontornável. Quando, em 1979, aprova-se a “Lei de Anistia”, ela iguala guerrilheiros (que lutaram com táticas de guerrilha contra o exército) e terroristas (que cometeram atentados, inclusive a bomba), torturadores a serviço do Estado (civis, policiais e militares) e cidadãos torturados (quer tivessem atuação em organizações clandestinas, no movimento estudantil ou na imprensa). Nos países da América Latina que passaram por ditaduras militares nos anos 1970, nenhum votou uma anistia tão “geral e irrestrita”, ou, se o fez, voltou atrás, como a Argentina.

SIBILA DEBATE 64: Daniel Aarão Reis

Reis: Penso que a avaliação de J. Gorender é acertada. A conjuntura entre 1961 e 1964 foi, sem dúvida, a mais quente da história republicana brasileira. O programa das reformas de base, caso implementado, viraria o país pelo avesso. A universalização do voto, incluindo os analfabetos, colocaria simplesmente a metade da população adulta, até então excluída, no jogo político. A reforma agrária faria desmoronar o poder do latifúndio no campo, onde ainda habitava quase a metade da população brasileira. A reforma das relações com o capital internacional minaria uma das bases mais importantes de sustentação do poder das classes dominantes. Por outro lado, cabe enfatizar que, pela primeira vez na história republicana, de forma organizada, lideranças populares começavam, de fato, a participar, e intensamente, da vida política.

Wilson Simonal e a ditabranca

Para quem, como eu, não viu Simonal ao vivo e em ação, há de ser a primeira chance para chegar perto de entender o poder comunicativo de um cantor-entertainer-apresentador televisivo que condensava, em si, qualidades (e/ou cacoetes) de personagens tão variados quanto Frank Sinatra, Agostinho dos Santos, Sammy Davis Jr., Cyro Monteiro, Ray Charles, Lúcio Alves, Harry Belafonte, Dick Farney, Chris Montez, João Gilberto, Chacrinha, Hebe Camargo, Silvio Santos, Roberto Carlos, Elis Regina, Sergio Mendes, Jorge Ben etc. De quebra, é senha perturbadora e incômoda para a compreensão um pouquinho menos superficial de um Brasil ditatorial que ainda reluta em se extinguir por completo.

“O filme se chama Ninguém sabe o duro que dei, mas também poderia ser Ninguém sabe o mole que dei”, diz Claudio Manoel.