DE CRÁPULA A HERÓI

O caminho cumprido por Emanuele Bardone, o protagonista de De crápula a herói, é muito mais complexo que o simplismo dos dois extremos presentes no título brasileiro do filme. Sua construção parece justamente atacar a ideia de que possam existir tipos com características tão estritas. Impossível não ver aqui também um caminho cumprido por Rossellini, de Roma cidade aberta para cá. Se quinze anos antes a guerra figurava como eliminadora das ambiguidades, ela agora passa a ser a própria fonte delas. Numa oposição entre a população oprimida por uma ocupação e a força militar ocupante e opressora, não restava muita dúvida de que lado ficar. Em De crápula a herói os lados continuam os mesmos, mas Bardone é a figura que transita entre as partes. Nem tão identificado com o sofrimento do povo italiano dominado, nem muito menos entusiasta do poder alemão, ele vai se moldando a partir da contingência, e não se furta a usar o artifício que for preciso para se sair melhor da situação em que se meteu. Um personagem, a princípio, quase antirrosselliniano.

Um retrato da miséria em Myanmar

Jet Ni continua ainda na indústria de turismo. Continua inclinando-se respeitosamente aos turistas junto à porta do Mingalar Hotel que, se você lembrar, se encontra no remendo de terra que pertencia, outrora, ao pai camponês de Jet Ni. Agora, em nome do espírito de reconciliação, Jet Ni não irá lamentar que seu pai tenha comido fertilizante e tenha morrido, depois de longa agonia, após haver perdido nossa terra em prol do turismo, três anos atrás.
Mesmo assim, Jet Ni seria negligente se não lhe contasse o que aconteceu com seu tio Myint Aung, do grupo de vilas de Kunlon, perto de Taung Gyi, a capital do Estado de Shan, no Myanmar oriental.
Myint Aung encharcou-se de gasolina e ateou fogo a si próprio em protesto contra o roubo de mais de 5 mil acres da terra de sua fazenda, na sua região, por parte do Comando Oriental das Forças Armadas de Myanmar.

Sibila, lugares contemporâneos da poesia/Brasil: Ademir Demarchi

Ademir Demarchi nasceu em Maringá-PR, em 7 de abril de 1960 e reside em Santos-SP. Formado em Letras, tem doutorado em Literatura. Editou as revistas de poesia BABEL (2000-2004) e Babel Poética (2010-2012, projeto premiado em primeiro lugar entre outros 170 pelo Ministério da Cultura para mapeamento da poesia contemporânea); editou também o selo Sereia […]

Ladrões de Bicicleta (Ladri di Biciclette)

Eixo temático: O desenvolvimento da técnica na sociedade do capital tende a aparecer como desenvolvimento tecnológico, com objetos complexos assumindo formas estranhadas, que sob certas circunstâncias sócio-históricas podem assumir alto potencial destrutivo. Na medida em que se amplia, o fetichismo da mercadoria imprime sua marca indelével na sociabilidade humana, constituindo formas complexas de fetichismo social, criando a aparência de uma tecnologia onipotente e malévola.
O fetiche da técnica através dos objetos tecnológicos tende a ocultar a verdadeira dominação do capital como relação social a serviço da reprodução hermafrodita da riqueza abstrata. Na medida em que a tecnologia assume novas formas materiais, instaurando novas técnicas de virtualização de base bioinformática de intenso cariz manipulatório, tal fetichismo da técnica alcança maior intensidade e amplitude, principalmente no plano do imaginário social.

Estado e mercado hoje

Os períodos nos quais o Estado teve papel central no desenvolvimento econômico sempre foram acompanhados por um ataque contra sua intervenção no dito bom funcionamento dos mercados. Foi assim durante todo o século XX. E tem sido assim mesmo após a recentíssima crise financeira de 2008 e a recessão econômica em nível global: depois de um breve período – logo após estourar a crise – durante o qual todos concordavam que o Estado tinha um papel chave na salvação dos Bancos Centrais e no impulso ao crescimento, graças ao estímulo econômico, de repente, passou a prevalecer a opinião dos que viam com alarme o aumento da dívida pública (considerada, de modo equivocado, como causa da crise, quando, ao contrário, é efeito dela, em virtude de menor arrecadação, devido aos salvamentos cada vez mais onerosos, e assim por diante). Isso significa que a austeridade voltou a ser o prato do dia, enquanto qualquer medida mais consistente de política econômica e industrial tornou-se tabu.

Letras e Humanidades

Ao falar da situação das áreas de Humanidades no contemporâneo, há duas situações em que não gostaria de incorrer.
Primeiro, gostaria de evitar ao máximo um discurso cuja eloquência combina o estilo lamurioso com o edificante para demonstrar a importância das Humanidades em geral e das Letras em particular. Quando se fala delas nesse estilo, como se elas fossem um grande Bem Perdido, logo me vem à cabeça a velha e batida fábula da raposa e as uvas. Na fábula, sem poder alcançar as uvas, a raposa acaba fazendo o discurso do desdém pelo que deseja – de modo que a sua célebre esperteza se reduz ao esforço de enganar a si mesma, enquanto pensa enganar os outros. No nosso caso, o auto-engano é o mesmo, mas em vez de simular desdém, fingimos que choramos pela infelicidade das uvas que não serão comidas por nós.
Em segundo lugar, também não quereria reproduzir diagnósticos abstratos a respeito da situação de crise no campo das Humanidades.

MORALIDADE E ESTADO DE DIREITO

A legitimidade carismática é um obstáculo ao desenvolvimento da democracia e da nítida percepção das instituições. Ela sacrifica o caráter abstrato da isonomia do Direito em nome das características personalíssimas de algum protagonista investido de dons salvíficos. Mas a racionalidade crítica e o deslumbramento com o carisma correm em sentidos opostos: a primeira requer a educação prolongada da cidadania e da opinião pública, o segundo, apenas uma manipulação eficaz dos afetos mais básicos.

Revendo o filme O Som ao redor

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Durante os créditos que são mostrados na abertura do longa de Kleber Mendonça Filho , O som ao redor, um filme que vi ontem no Film Festival de Los Angeles – é nos mostrada uma curta história visual da cidade brasileira do Recife, do estado de Pernambuco, no nordeste do Brasil. Os grandes edifícios coloniais, no meio do nada, parecem transformar em anões os trabalhadores nativos do campo, cujo trabalho pesado, obviamente, tornou rica esta parte do país, particularmente a dos senhores de engenhos.