Wilson Simonal e a ditabranca

Para quem, como eu, não viu Simonal ao vivo e em ação, há de ser a primeira chance para chegar perto de entender o poder comunicativo de um cantor-entertainer-apresentador televisivo que condensava, em si, qualidades (e/ou cacoetes) de personagens tão variados quanto Frank Sinatra, Agostinho dos Santos, Sammy Davis Jr., Cyro Monteiro, Ray Charles, Lúcio Alves, Harry Belafonte, Dick Farney, Chris Montez, João Gilberto, Chacrinha, Hebe Camargo, Silvio Santos, Roberto Carlos, Elis Regina, Sergio Mendes, Jorge Ben etc. De quebra, é senha perturbadora e incômoda para a compreensão um pouquinho menos superficial de um Brasil ditatorial que ainda reluta em se extinguir por completo.

“O filme se chama Ninguém sabe o duro que dei, mas também poderia ser Ninguém sabe o mole que dei”, diz Claudio Manoel.

O Esquadrão da Morte no Rio e em São Paulo

A ação policial passou a incorporar a tortura, a execução e a prisão ilegal como técnicas comuns de atuação. Vários delegados de polícia passaram a extorquir inimigos do governo e, entre outros desmandos, aliar‑se às quadrilhas que circulavam em volto do jogo, do comércio ilegal, do tráfico de influência e da prostituição. Assim várias quadrilhas que contavam com proteção de policiais, delegados, políticos e servidores públicos eram uma realidade no Estado Novo. Além da prostituição, jogo, comércio ilegal, entre outras atividades escusas o consumo de drogas, como a cocaína, era utilizada pela elite. Durante o governo de Getúlio Vargas uma das funções do chefe de polícia era informar para o presidente quem da elite cheirava cocaína, tinha amante e frequentava bordel. Essas informações eram utilizadas como forma de controle político.

SIBILA DEBATE 64: Tales Ab´Sáber

Tales: Não acredito que o Brasil vivesse um verdadeiro momento revolucionário no pré-64. Apesar dos conflitos localizados e de grandes proporções em relação ao controle da distribuição da renda e da propriedade no Brasil, principalmente no Nordeste, o processo de demandas sociais se dava então de modo a produzir pressões cuja expressão era, e devia ser, as esferas institucional e legal do país. Noutras palavras, movimentos populares e progressistas de caráter abertamente públicos, como o das Ligas Camponesas de Pernambuco, apostaram fortemente na democracia brasileira de então como espaço digno da confiança para promover o debate e o desenvolvimento social.

SIBILA DEBATE 64: Marcos Napolitano

linkba
Napolitano: Tendo em vista o surto reacionário que estamos assistindo na opinião pública brasileira, alguma coisa está incomodando os setores conservadores.  O perigo é que alguns liberais, na sanha do antipetismo, estão indo cada vez mais para a direita, alimentando setores abertamente reacionários. O Brasil precisaria de um pacto republicano que construísse um ambiente político que combatesse e isolasse a opinião de extrema direita, não a deixando se transformar em alternativa real de poder.

SIBILA DEBATE 64: Urariano Mota

Urariano: Acredito que há um engano na relação, ou identidade, entre justiça e lei. A injustiça não se faz pela desobediência à lei. Imagine a escravidão no Brasil e o largo tempo em que foi legal. O problema é que a transição para a democracia no Brasil sempre foi, também, uma transação – um comércio, um acordo por cima. E mais, da distensão à democracia o processo não se fez de modo linear como em um fluxo de programa computacional. Assim, a Comissão da Verdade não veio como em outros países. E quando chegou, atravessou e atravessa até hoje obstáculos e boicotes e insultos inomináveis. Como compreender uma democracia que tem um Bolsonaro a debochar da busca de corpos de desaparecidos? Em que os oficiais nas escolas militares continuam a ser formados pela doutrina da guerra fria em pleno século XXI? E, no entanto, assim tem sido. Por fim, os erros na esquerda não são equivalentes ao terrorismo dos fascistas. Até hoje, o princípio de repúdio à tortura é cláusula não violada entre socialistas. Imagine a execução fria de presos desarmados, como se fez no Brasil. E ainda se faz até hoje contra os pobres e periféricos, pela polícia.

SIBILA DEBATE 64: Marcos Nobre

Nobre: Na década de 1960, contam-se nos dedos as pessoas e os grupos organizados que entendiam que a prioridade política deveria ser o fortalecimento das instituições desenhadas pela Constituição de 1946. A alternativa colocada era a de uma revolução socialista ou de um golpe de Estado militar. A disputa entre estes dois campos em nenhum momento se colocou em termos de um compromisso (mesmo que meramente tático para os dois lados, não importa) com a consolidação da ordem democrática inaugurada pela Constituição de 1946.

Memória dos anos negros

O que houve entre meu pai e o [Jacob] Gorender começa em 1949. O Gorender era da direção estadual do PCB e meu pai da direção regional, em Tupã. Pela participação de meu pai em uma mobilização de camponeses, ele passou a ser perseguido pelo DOPS − saiu na imprensa, na época, com a manchete na Folha da Manhã anunciando: “Incrementada a repressão ao comunismo em SP”, e o nome de meu pai era citado. Meu pai foi para a clandestinidade e por indicação de Gorender passou a compor a direção estadual do PCB.

SIBILA DEBATE 64: Carlos Guilherme Mota

CGM: A história do Brasil é marcada pela contrarrevolução preventiva permanente. No Brasil nunca se assistiu a uma revolução no sentido marxista do conceito (seguindo Honório Rodrigues). Todos os anos houve levantes, inclusive de escravos, mas revolução não. O fato é que em 1964 não havia condições reais para uma revolução, embora alguns setores da sociedade estivessem radicalizados. Creio que todos se equivocaram num ponto: o da potencialidade tremenda da Direita, dos segmentos conservadores de uma sociedade ainda marcada pelo passado colonial e imperial. A forças da esquerda foram apenas a ponta do iceberg acima da linha d’água. O Brasil era muito atrasado, muito, repetia Caio Prado Júnior nos anos 1970, antes de seu falecimento. Ainda é: veja o Maranhão de hoje, metáfora do País.

Regimes autoritários no Brasil republicano

O refinamento da historiografia brasileira nos últimos 30 anos tem permitido um entendimento mais sofisticado de alguns dos temas mais controvertidos da História do Brasil. Esse é o caso do Estado Novo (1937-1945) e do período dos governos militares (1964-1985), regimes autoritários do Brasil Republicano que ocuparam quase 1/3 da história brasileira no século XX, cuja comparação desejo propor neste momento.

Alguns dos aspectos do regime militar que tenho estudado, como a propaganda política, a censura, a repressão e os próprios militares ganham um alcance maior quando comparados com seus correlatos no Estado Novo, razão pela qual me parece oportuna essa comparação.

SIBILA DEBATE 64: Marco Villa

Villa: Nunca existiu uma “situação pré-revolucionária”. É uma leitura marxista do século XIX. Não se sustenta nos fatos. É pura construção ideológica. Deve-se recordar que o Brasil, desde os anos 1920, viveu um período de turbulência política. 1922, 1924, Coluna Prestes, 1930, 1932, 1935, 1937, 1938 e 1945 foram alguns dos momentos de abandono da política – no sentido do convencimento do adversário – e da priorização do combate, do embate, da guerra, da transformação do outro em inimigo. Em 1955, no mês de novembro, tivemos três presidentes da República. Na presidência JK ocorreram duas tentativas para derrubá-lo e, ainda, não se deve esquecer a grave crise de agosto de 1961. Em todos esses momentos, a “situação pré-revolucionária” foi absolutamente inexistente.