O Deus farsante e o ídolo providencial

A necessidade brasileira de esquecer os problemas agudos do país, difíceis de encarar, ou pelo menos de suavizá-los com uma cota de despreocupação e alegria, fez com que o futebol se tornasse a felicidade do povo. Pobres e ricos param de pensar para se encantar com ele. E os grandes jogadores convertem-se numa espécie de irmãos da gente, que detestamos ou amamos na medida em que nos frustram ou nos proporcionam o prazer de um espetáculo de 90 minutos, prolongado indefinidamente nas conversas e mesmo na solidão da lembrança.

SIBILA DEBATE 64: Rodrigo Patto

A sensação entre as direitas era que seus adversários ganharam muito terreno com Goulart, e que poderiam convencê-lo a criar um regime forte para implantar mudanças sociais mais rapidamente. Sabia-se que o comunismo propriamente dito tinha escasso apoio popular, mas temia-se o que embaixador Lincoln Gordon chamou de “subversão por cima”, ou seja, a influência da esquerda exercida desde o Estado. Embora o exagero na avaliação do perigo “comunista” possa ter sido proposital no caso de alguns agentes, para criar clima favorável ao golpe, ainda assim penso que a motivação maior era de natureza política (afastar um governo comprometido com as esquerdas, expurgar o “perigo”), o que se comprova pelas ações posteriores da ditadura.

A estreia de Plínio Marcos sob o signo de Pagu

Durante as décadas de 1950 e 1960, além de conhecida nacionalmente, Pagu exerceria uma importante influência no panorama cultural da cidade. Ao mesmo tempo em que escrevia para A Tribuna de Santos, promovia festivais e espetáculos, fomentando grupos amadores e a fundação do Teatro de Vanguarda (TEV). Graças a Pagu, Santos teve a oportunidade de assistir, pela primeira vez no país, Fando e Lis, de Fernando Arrabal, traduzida por ela em 1958 – ano em seria também encenada Barrela. Pagu e Plínio Marcos teriam se conhecido em 1957, quando ele aparece como ator do GETI: “em 1957, esta distinta senhora (Pagu), então com 47 anos, adentrou os bastidores do Circo Pavilhão Teatro Liberdade procurando o palhaço Frajola; queria que o rapaz trabalhasse com ela”. Com a atuação de Plínio Marcos em Pluft, ele passa a frequentar um grupo de intelectuais, pintores e músicos do círculo de Pagu e Geraldo Ferraz.

Sibila documento:
“A tortura, como ato ilícito absoluto, faz nascer uma relação jurídica”

A sentença reproduzida a seguir (juiz Gustavo Santini Teodoro, São Paulo, 7 de outubro de 2008) é um documento histórico exemplar, que Sibila publica com a dupla intenção de divulgá-lo e de oferecer a oportunidade de se tomar contato com a discussão jurídica como feita no país em relação a um fato histórico incontornável. Quando, em 1979, aprova-se a “Lei de Anistia”, ela iguala guerrilheiros (que lutaram com táticas de guerrilha contra o exército) e terroristas (que cometeram atentados, inclusive a bomba), torturadores a serviço do Estado (civis, policiais e militares) e cidadãos torturados (quer tivessem atuação em organizações clandestinas, no movimento estudantil ou na imprensa). Nos países da América Latina que passaram por ditaduras militares nos anos 1970, nenhum votou uma anistia tão “geral e irrestrita”, ou, se o fez, voltou atrás, como a Argentina.

SIBILA DEBATE 64: Daniel Aarão Reis

Reis: Penso que a avaliação de J. Gorender é acertada. A conjuntura entre 1961 e 1964 foi, sem dúvida, a mais quente da história republicana brasileira. O programa das reformas de base, caso implementado, viraria o país pelo avesso. A universalização do voto, incluindo os analfabetos, colocaria simplesmente a metade da população adulta, até então excluída, no jogo político. A reforma agrária faria desmoronar o poder do latifúndio no campo, onde ainda habitava quase a metade da população brasileira. A reforma das relações com o capital internacional minaria uma das bases mais importantes de sustentação do poder das classes dominantes. Por outro lado, cabe enfatizar que, pela primeira vez na história republicana, de forma organizada, lideranças populares começavam, de fato, a participar, e intensamente, da vida política.

Wilson Simonal e a ditabranca

Para quem, como eu, não viu Simonal ao vivo e em ação, há de ser a primeira chance para chegar perto de entender o poder comunicativo de um cantor-entertainer-apresentador televisivo que condensava, em si, qualidades (e/ou cacoetes) de personagens tão variados quanto Frank Sinatra, Agostinho dos Santos, Sammy Davis Jr., Cyro Monteiro, Ray Charles, Lúcio Alves, Harry Belafonte, Dick Farney, Chris Montez, João Gilberto, Chacrinha, Hebe Camargo, Silvio Santos, Roberto Carlos, Elis Regina, Sergio Mendes, Jorge Ben etc. De quebra, é senha perturbadora e incômoda para a compreensão um pouquinho menos superficial de um Brasil ditatorial que ainda reluta em se extinguir por completo.

“O filme se chama Ninguém sabe o duro que dei, mas também poderia ser Ninguém sabe o mole que dei”, diz Claudio Manoel.

O Esquadrão da Morte no Rio e em São Paulo

A ação policial passou a incorporar a tortura, a execução e a prisão ilegal como técnicas comuns de atuação. Vários delegados de polícia passaram a extorquir inimigos do governo e, entre outros desmandos, aliar‑se às quadrilhas que circulavam em volto do jogo, do comércio ilegal, do tráfico de influência e da prostituição. Assim várias quadrilhas que contavam com proteção de policiais, delegados, políticos e servidores públicos eram uma realidade no Estado Novo. Além da prostituição, jogo, comércio ilegal, entre outras atividades escusas o consumo de drogas, como a cocaína, era utilizada pela elite. Durante o governo de Getúlio Vargas uma das funções do chefe de polícia era informar para o presidente quem da elite cheirava cocaína, tinha amante e frequentava bordel. Essas informações eram utilizadas como forma de controle político.

SIBILA DEBATE 64: Tales Ab´Sáber

Tales: Não acredito que o Brasil vivesse um verdadeiro momento revolucionário no pré-64. Apesar dos conflitos localizados e de grandes proporções em relação ao controle da distribuição da renda e da propriedade no Brasil, principalmente no Nordeste, o processo de demandas sociais se dava então de modo a produzir pressões cuja expressão era, e devia ser, as esferas institucional e legal do país. Noutras palavras, movimentos populares e progressistas de caráter abertamente públicos, como o das Ligas Camponesas de Pernambuco, apostaram fortemente na democracia brasileira de então como espaço digno da confiança para promover o debate e o desenvolvimento social.

SIBILA DEBATE 64: Marcos Napolitano

Napolitano: Tendo em vista o surto reacionário que estamos assistindo na opinião pública brasileira, alguma coisa está incomodando os setores conservadores.  O perigo é que alguns liberais, na sanha do antipetismo, estão indo cada vez mais para a direita, alimentando setores abertamente reacionários. O Brasil precisaria de um pacto republicano que construísse um ambiente político que combatesse e isolasse a opinião de extrema direita, não a deixando se transformar em alternativa real de poder.

SIBILA DEBATE 64: Urariano Mota

Urariano: Acredito que há um engano na relação, ou identidade, entre justiça e lei. A injustiça não se faz pela desobediência à lei. Imagine a escravidão no Brasil e o largo tempo em que foi legal. O problema é que a transição para a democracia no Brasil sempre foi, também, uma transação – um comércio, um acordo por cima. E mais, da distensão à democracia o processo não se fez de modo linear como em um fluxo de programa computacional. Assim, a Comissão da Verdade não veio como em outros países. E quando chegou, atravessou e atravessa até hoje obstáculos e boicotes e insultos inomináveis. Como compreender uma democracia que tem um Bolsonaro a debochar da busca de corpos de desaparecidos? Em que os oficiais nas escolas militares continuam a ser formados pela doutrina da guerra fria em pleno século XXI? E, no entanto, assim tem sido. Por fim, os erros na esquerda não são equivalentes ao terrorismo dos fascistas. Até hoje, o princípio de repúdio à tortura é cláusula não violada entre socialistas. Imagine a execução fria de presos desarmados, como se fez no Brasil. E ainda se faz até hoje contra os pobres e periféricos, pela polícia.