Ladrões de Bicicleta (Ladri di Biciclette)

Eixo temático: O desenvolvimento da técnica na sociedade do capital tende a aparecer como desenvolvimento tecnológico, com objetos complexos assumindo formas estranhadas, que sob certas circunstâncias sócio-históricas podem assumir alto potencial destrutivo. Na medida em que se amplia, o fetichismo da mercadoria imprime sua marca indelével na sociabilidade humana, constituindo formas complexas de fetichismo social, criando a aparência de uma tecnologia onipotente e malévola.
O fetiche da técnica através dos objetos tecnológicos tende a ocultar a verdadeira dominação do capital como relação social a serviço da reprodução hermafrodita da riqueza abstrata. Na medida em que a tecnologia assume novas formas materiais, instaurando novas técnicas de virtualização de base bioinformática de intenso cariz manipulatório, tal fetichismo da técnica alcança maior intensidade e amplitude, principalmente no plano do imaginário social.

Estado e mercado hoje

Os períodos nos quais o Estado teve papel central no desenvolvimento econômico sempre foram acompanhados por um ataque contra sua intervenção no dito bom funcionamento dos mercados. Foi assim durante todo o século XX. E tem sido assim mesmo após a recentíssima crise financeira de 2008 e a recessão econômica em nível global: depois de um breve período – logo após estourar a crise – durante o qual todos concordavam que o Estado tinha um papel chave na salvação dos Bancos Centrais e no impulso ao crescimento, graças ao estímulo econômico, de repente, passou a prevalecer a opinião dos que viam com alarme o aumento da dívida pública (considerada, de modo equivocado, como causa da crise, quando, ao contrário, é efeito dela, em virtude de menor arrecadação, devido aos salvamentos cada vez mais onerosos, e assim por diante). Isso significa que a austeridade voltou a ser o prato do dia, enquanto qualquer medida mais consistente de política econômica e industrial tornou-se tabu.

Letras e Humanidades

Ao falar da situação das áreas de Humanidades no contemporâneo, há duas situações em que não gostaria de incorrer.
Primeiro, gostaria de evitar ao máximo um discurso cuja eloquência combina o estilo lamurioso com o edificante para demonstrar a importância das Humanidades em geral e das Letras em particular. Quando se fala delas nesse estilo, como se elas fossem um grande Bem Perdido, logo me vem à cabeça a velha e batida fábula da raposa e as uvas. Na fábula, sem poder alcançar as uvas, a raposa acaba fazendo o discurso do desdém pelo que deseja – de modo que a sua célebre esperteza se reduz ao esforço de enganar a si mesma, enquanto pensa enganar os outros. No nosso caso, o auto-engano é o mesmo, mas em vez de simular desdém, fingimos que choramos pela infelicidade das uvas que não serão comidas por nós.
Em segundo lugar, também não quereria reproduzir diagnósticos abstratos a respeito da situação de crise no campo das Humanidades.

MORALIDADE E ESTADO DE DIREITO

A legitimidade carismática é um obstáculo ao desenvolvimento da democracia e da nítida percepção das instituições. Ela sacrifica o caráter abstrato da isonomia do Direito em nome das características personalíssimas de algum protagonista investido de dons salvíficos. Mas a racionalidade crítica e o deslumbramento com o carisma correm em sentidos opostos: a primeira requer a educação prolongada da cidadania e da opinião pública, o segundo, apenas uma manipulação eficaz dos afetos mais básicos.

Revendo o filme O Som ao redor

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Durante os créditos que são mostrados na abertura do longa de Kleber Mendonça Filho , O som ao redor, um filme que vi ontem no Film Festival de Los Angeles – é nos mostrada uma curta história visual da cidade brasileira do Recife, do estado de Pernambuco, no nordeste do Brasil. Os grandes edifícios coloniais, no meio do nada, parecem transformar em anões os trabalhadores nativos do campo, cujo trabalho pesado, obviamente, tornou rica esta parte do país, particularmente a dos senhores de engenhos.

Adeus, Macunaíma

Adeus, Macunaíma! Porque, afinal, ele está morto, e com ele deveria sucumbir essa condescendência tão tipicamente paulista, a que fez do “nenhum caráter” apanágio da malandragem mestiça, refúgio sentimental da brasilidade recôndita, narrativa apascentadora em face do extermínio antigo, moderno e contemporâneo dos povos da floresta. Que mais ilumina essa Ursa Maior melindrosa, além das covas rasas dos milhões de desterrados sem escrita, sem nome nem memória? Será mesmo uma rapsódia que o bardo Andrade quis solfejar, ou tudo não passou de uma pastoral turístico-aprendiz, uma visão triste-sorridente dos enredos dispostos por Koch-Grunberg, uma brincadeira para enganar o calor e salvar-se do spleen araraquarense?

Porque tudo se passa como se não passasse. E daí os folcloristas do pé-quebrado de hoje querem fazer desse folclorismo fantasista de antanho signo da identidade nacional-popular modernista. E juntam e rejuntam Mário de Andrade com Paulo Prado .

Nota sobre Frank Stella

O museu Whitney, em Nova York, produziu uma exposição retrospectiva das obras de Frank Stella, considerado um dos mais influentes artistas norte-americanos atuais. A mostra se encerrou em fevereiro de 2016. Suas criações teriam servido de inspiração para muitos dos pintores abstratos dos últimos cinquenta anos, como destaca o catálogo da exposição. No Brasil, seu discípulo mais conhecido é Nuno Ramos, que parece ter herdado de Stella suas concepções abstratas monumentais e também outras ideias sobre o fazer artístico. Segundo Stella, aprender a pintar consiste no ato de olhar outras pinturas e depois imitar “os processos intelectuais e emocionais” desses pintores. Sabe-se que Ramos costuma retomar, numa escala “monstruosa”, obras de outros criadores.

A guerra secreta da CIA contra a Cultura

O livro Who Paid the Piper: The CIA and the Cultural Cold War (London: Granta Books) de Francis Stonor Saunders conta em detalhes a maneira como a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) infiltrou-se e influenciou um grande número de organizações culturais por meio de seus agentes e de organizações filantrópicas associadas, como as Fundações Ford e Rockfeller. O livro revela ainda como a CIA no pós-guerra alistou muitos intelectuais na campanha para provar que o engajamento à esquerda é incompatível com a arte séria e o conhecimento.

A autora, Francis Stonor Saunders, detalha como e por que a CIA patrocinou congressos culturais, montou exibições de arte e organizou concertos. A Agência também publicou e produziu autores conhecidos que seguiam essa linha de Washington, patrocinou a arte abstrata e fez ataques à arte de conteúdo social. E, em todo o mundo, financiou publicações que atacavam o marxismo, o comunismo e as políticas revolucionárias.

Indústria editorial no Brasil

Toca o telefone, atendo e um tal de sr. Herrero me pergunta se posso recebê-lo. Explica que é representante de editoras espanholas e que gostaria de me conhecer pessoalmente.
Estamos em 1982, três anos após a constituição da minha empresa. Como todo bom vendedor, o sr. Herrero é simpático e comunicativo, vai apresentando os catálogos de dezenas de editoras. Oferece abertura de crédito imediato, 180 dias para pagar sem obrigação de assinar um contrato e/ou promissórias e acrescenta que, se tiver qualquer inconveniente no meio do caminho, tudo bem, o prazo pode ser estendido. Fácil, extremamente fácil. Nunca esquecerei. Ele escrevia só com caneta verde e se autoatribuía o título nobiliário de “Conde de Tinta Verde”.
Luz verde, portanto, para ampliar possibilidades de negócio e um conselho: “Vai para a Espanha. Tem uma feira profissional em setembro. O pessoal precisa conhecer o teu trabalho”.
Os vinte metros quadrados da Letraviva não cabiam em si. Abria-se um novo horizonte.