Los dias contados

monjes locos
limosneros poseídos
ciegos embrutecidos, lisiados cínicos,
salen al paso
en la avenida
piden monedas aventando su mal aliento en la cara
de los cuerdos,
deformados por los días tronando
un vaso de plástico en la acera cicatrizada
por los pasos,
acosan escaparates y taxistas,
se mean en postes fálicos
e hidrantes estupefactos,
cruzan la calle desnudos enseñando la quemadura extensa,
tocan a secretarias semana inglesa y horas extras,
molestan a estudiantes a punto de titularse

25 anos do massacre na praça da Paz Celestial, Beijing

Talvez seja o momento final
mas não deixei nenhum testamento à minha mãe
senão uma caneta.
Não sou nada herói
numa época isenta de heróis
só quero ser um homem.

O horizonte tranquilo
divide as fileiras dos vivos e dos mortos.
Prefiro optar pelo céu
a me ajoelhar no chão
para não aumentar a altura dos executores
que vão bloquear o vento de liberdade.

A polissemia da guerra e da poesia de Zhen Li

Zhen Li é um poeta contemporâneo de Taiwan que faz uso dos recursos gráficos dos caracteres chineses para criar poemas visuais. Em “Sinfonia da guerra”, que também possui versão em vídeo, Zhen Li trabalha com quatro caracteres (兵, 乒, 乓, 丘) para criar uma representação de uma batalha em três etapas: antes, durante e depois da batalha. O primeiro caractere (兵), que aparece na primeira parte, significa “soldado”, e é usado para representar os dois exércitos alinhados para a batalha. O segundo e o terceiro caracteres (乒, 乓), que aparecem na segunda parte do poema, são caracteres onomatopaicos (“bing” e “bang”), e são usados ​​para representar o momento da batalha em si.

Outro Brasil Modernista: Blaise Cendrars por Pagu

O poeta e romancista franco-suíço Blaise Cendrars (1887-1961) foi uma figura marcante do modernismo brasileiro. Cendrars visitou o Brasil sete vezes ao longo dos anos, a primeira em 1924, quando permaneceu por nove meses, entrando em contato, de um lado, com a elite modernista (Mário e Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral), e, de outro, com a cultura popular (o sambista Donga, com quem frequentava as favelas cariocas) e as cidades históricas mineiras (despertando nos primeiros o interesse pelos segundos, e assim “modernizando” o modernismo brasileiro, ao ajudar a livrá-lo, ao menos em parte, de seu europeísmo). Cendrars escreveu vários poemas com temas brasileiros (e modernistas), muitos dos quais seriam traduzidos para o português por Patrícia Galvão, a Pagu, um dos principais nomes do modernismo paulistano. Esse verdadeiro curto circuito modernista franco-brasileiro é aqui reproduzido, talvez pela primeira vez.

Pagu Meu Totem

Pagu num 14 de junho de 1910. Ela nasce. Quer dizer Patrícia Rehder Galvão nascida em São João da Boa Vista, sob o signo dos gêmeos. Pagu criança. Pagu a dez anos (de roupa vermelha), o ano em que Picabia publica em Berlim seu Manifesto Canibal: O homem que tem dinheiro é um homem honrado. A honra se compra e vende como o cu. O cu, o cu, representa a vida como as batatas fritas, e vocês todos que são sérios vão se sentir pior que bosta de vaca.

Pagu un 14 juin 1910. Elle nait. Pagu c’est à dire Patricia Rehder Galvao née à Sao Joao de Boa Vista, au Brésil, sous le signe des gémeaux. Pagu enfant. Pagu à dix ans (robe rouge) l’année où Picabia publie à Berlin son Manifeste Cannibale: L’homme qui a de l’argent est un homme honorable. L’honneur se vend et s’achète comme le cul. Le cul, le cul représente la vie comme les pommes frites, et vous tous qui êtes sérieux, vous sentirez plus mauvais que la merde de vache.

Menino Experimental

O menino experimental come as nádegas da avó e atira os ossos ao cachorro.

O menino experimental futuro inquisidor devora o livro e soletra o serrote.

O menino experimental não anda nas nuvens. Sabe escolher seus objetos. Adora a corda, o revólver, a tesoura, o martelo, o serrote, a torquês. Dança com eles. Conversa-os.

Nova poesia canadense: Aaron Vidaver

Ok, desde que chegue, o mercado prefere a cor dourada com um centro único, que dure todo o inverno.

Porque o mercado prefere frutas em forma de pera, as plantas fêmeas são normalmente retiradas logo da produção com um matiz laranja.

O tempo da colheita pode ser determinado pela aparência que o mercado prefere. A aparência de fevereiro parece a mais desejável.

Em todo caso, a abstração é geralmente considerada monopólio do Ocidente. E o mercado prefere ver obras chinesas que parecem ter vindo da China.

O mercado prefere outras opções – madeira.

Ao longo dos anos, os analistas financeiros têm sugerido que o mercado prefere republicanos na Casa Branca.

3 poemas de Daniil Kharms

E o peixe cintila na água gelada,
E a casa aparece de longe minguada,
E late o cachorro de guarda ao rebanho,
E roda o Petróv aos pés da montanha,
E bate a bandeira na casa pequena,
E cresce no rego a verdura perene,
E o pó se prateia em cada enfieira,
E as moscas voando com toda a zoeira,
E as moças se aquecem ao sol do verão […]

И рыбка мелькает в прохладной реке,
И маленький домик стоит вдалеке,
И лает собака на стадо коров,
И под гору мчится в тележке Петров,
И вьется на домике маленький флаг,
И зреет на нивах питательный злак,
И пыль серебрится на каждом листе,
И мухи со свистом летают везде,
И девушки, греясь, на солнце лежат […]

A segunda vinda

Girando e girando em seu grande círculo
O falcão não escuta o falcoeiro.
Tudo se parte, o centro não sustenta.
Mera anarquia avança sobre o mundo,
Marés sujas de sangue em toda parte
Os ritos da inocência sufocados.
Os melhores sem suas convicções,
Os piores com as mais fortes paixões.

Turning and turning in the widening gyre
The falcon cannot hear the falconer;
Things fall apart; the centre cannot hold;
Mere anarchy is loosed upon the world,
The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere
The ceremony of innocence is drowned;
The best lack all convictions, while the worst
Are full of passionate intensity.

No Dia da Eleição

Eu ouço o gemido da democracia, no dia da eleição.
As ruas estão cheias de promessas falsas, no dia da eleição.
Os canalhas votam, os santos votam, no dia da eleição.
Os mortos disparam sua fúria, no dia da eleição.

I hear democracy weep, on election day.
The streets are filled with brokered promise, on election day.
The miscreant’s vote the same as saint’s, on election day.
The dead unleash their fury, on election day.