Quatro poemas de Separação

sinto sua falta quando está longe,
mas de perto me falta espaço.
se a distância nos aproxima, algo
sempre nos separa quando estou
com ela – e nos liga depois da partida.
algo em mim resiste e fica do lado
de fora quando entro nela: procuro
aquilo que só existe quando ela vai
embora, deserto desejo que só me
assalta quando não a vejo.
na sua presença não sinto o que sua
falta provoca, a unidade que almejo
quando somos dois. se a sua ausência
me assalta, na sua presença minto.
e assim seguimos nessa novela,
equilíbrio precário, poema sem rima,
abraço que não toca. dança solitária
e sem cenário, soma sem resultado,
presente sem futuro, labirinto.
a pegada inesperada na areia
de uma praia deserta.
a porta que se fecha com violência
numa casa vazia,
sob a lua cheia.
o segredo que ninguém sonhava.
o telefone anotado num papel

Livro de Régis Bonvicino e Susan Bee

Criei o selo Global Books para editar poetas que considero importantes não só apenas em suas tradições, mas também em nível internacional. O nome Global Books encontra sua origem num estudo de livros de artistas da Collectif Génération, feito por Paul Van Capelleveen, conservador da Biblioteca Nacional da Holanda. Ao longo dos anos editei poetas como John Ashbery (Estados Unidos), Jean-Louis Baudry (França), Michel Deguy (França), Ann Lauterbach (Estados Unidos), Kenji Nakagami (Japão), Mónica de la Torre (México), John Yau (Estados Unidos) e Jean-Pierre Verheggen (Bélgica), entre outros tantos bastante significativos.

Apología de la droga

Como decía huidobro la vida se parece a un pasamontañas.
Como decía parra la vida se parece a un pasamontañas.
Como decía neruda la vida se parece a un pasamontañas.
La vida se parece a un pasamontañas, a decir de mistral.

Según díaz-casanueva, el hombre nace,
crece, se desarrolla, se vuelve fascista
y muere.
Según gómez-correa,
el hombre se descompone y regresa de la tumba,
para predicar la inexorabilidad del fascismo.

En la obra de zoilo escobar ya se podía entrever
el surgimiento de una sociedad delatora.
Asimismo la poesía de juan marín ya daba señas
de la insufrible sociedad delatora
en que actualmente vivimos.

Poemas de Yao Feng (chinês, inglês e português)

Chuva ao fim da tarde

As gotas da chuva batem no telhado, porta e janela, com tanta pressa, como crianças nuas rogando abrigo.

Como não sou rio, nem sou terra, nem o meu corpo cheio de buracos é um pedaço de esponja, em suma, não passo de um animal que apodrece depressa caso vivesse na água.

Com o vento agora intenso, os dedos da chuva tornam-se mais grossos, avessos ao tempo estiado, insistindo em agarrar-se às goteiras do telhado.

O suicídio de Amélia Rosseli

Amelia Rosselli( 1930-1996). Poeta italiana, filha de um teórico italiano do Socialismo liberal e de uma ativista inglesa ligada ao Labour party nasceu em Paris, onde os pais haviam-se exilado. Isso não impediu, entretanto, que as milícias fascistas matassem o pai e o tio, na França, em 1940. Após estudos literários e musicais realizados nos EUA e na Inglaterra, voltou com a mãe, à Itália, em 1940. Durante a década seguinte dedicou-se à tradução literária do inglês, a estudos de teoria musical e ensaística. Frequentou intelectuais romanos do Gruppo 63 (Nanni Balestrini e outros), inscreveu-se no PCI e, em 1963, começou a publicar seus versos e textos em prosa em várias revistas italianas, atraindo a atenção de Zanzotto, Raboni e Pasolini, entre outros poetas importantes. Escreveu também em francês e inglês, tendo traduzido grande parte da obra de Sylvia Plath, a quem admirava.
A morte da mãe, em 1949, causou-lhe profunda depressão. O mal de Parkinson que a atacou desde seus quarenta anos, e outras depressões, levaram-na ao suicídio em Roma, em 1996.

O pão dos insanos de Christine Lavant

Christine Lavant (1915-1973) é o pseudônimo de Christine Thonhauser (nome de casamento: Christine Habernig), uma poeta austríaca. Christine nasceu na aldeia de Großedling, no Vale do Lavant (Lavanttal), em uma família de origens humildes. Mais tarde, ela adotou como pseudônimo o nome desse vale.  Recém-nascida, Lavant sofreu de uma infecção nos gânglios linfáticos submandibular e cervical […]

Dois poemas

Ela participou, no entanto, durante a década de 1960, da aventura da revista Siècle à Mains, que ela fundou com Michel Couturier e Claude Royet-Journoud, o qual foi, até o fim, um de seus companheiros mais próximos de criação e de vida. Entre 1963 e 1970 saíram doze números da revista, em que podiam ser encontrados tanto Jean Daive e Alain Veinstein quanto o americano Louis Zukofsky, que ela traduziu (em Vingt poètes américains, Gallimard, 1980). O nome dela poderá ser encontrado, durante anos, no sumário de numerosas outras revistas, como Action Poétique, The American Poetry Review, Bulletin Orange Export Ltd, Cahiers de l’Herne, Change, Esprit ou Nioques. Publicou poucos livros, uns doze em quatro décadas, de Flammigère (Siècle à Mains, 1967; reed. Al Dante, 2006) a Figurations de l’image (Flammarion, 2004), passando por Figure vocative (Lettres de Casse, 1985; reed. Al Dante, 2006) ou Travail vertical et blanc (Spectres familiers, 1989). Quando, em 1971, saiu Etat (Mercure de France), Claude Royet-Journoud escreveu que Anne-Marie Albiach acabava de “mudar o rosto da poesia”.

Sextina: Altaforte

Tudo pros diabos! Todo este Sul já fede a paz.
Anda, cachorro bastardo, Papiols! À música!
Só sei que vivo se ouço espadas que ressoam.
Mas ah! Com os estandartes ouro e roxo e vair se opondo
Por cima de amplos campos encharcados de carmim
— Uiva meu peito então doido de júbilo.

Pablo Neruda em Rangum, Burma

O poema “Rangum” consta de Memorial de Isla Negra, publicado em 1964, por ocasião do sexagésimo aniversário de Pablo Neruda. Neruda escreveu, em parte, Residencia en la tierra, de 1935, em Rangum, então capital de Burma, onde viveu em 1927, na condição de cônsul chileno. Em seguida, como diplomata, oficiou no Ceilão, em Singapura e pôde conhecer o Oriente – tão fundamental para os melhores momentos de sua escritura. Na cidade de Rangum, com 23 anos, liga-se a uma prostituta, a qual nomeia como Josie Bliss, sem nunca revelar seu nome birmanês.

Rima 183

 

Mulher é coisa móvel por natura;

onde eu sei bem que um amoroso estado

no peito dela pouco tempo dura.