Eu gostaria

Eu gostaria
de nascer
em todos os países,
ter um passaporte
para todos eles,
botar
todos os ministérios do exterior
em pânico
ser todos os peixes
em todos os oceanos
e todos os cães
passeando pelas ruas do mundo.
Não quero me agachar
diante dos ídolos

Mata-borrão

si o sangue da
sombra não é sangue ni sombra,
si o cavalo do cavalo agora é sombra
desmaiada
o sombra brotada na suma sombra ostra, o som
da tromba saca o
celeste descontecer, afrouxa
o orvalho, e o remo corta em dois as cinzas
dos vivos e as cinzas dos sons, como
na páscoa dos continentes cortó o
Brazil e a Angola,
cortó as árvores da ciência e as árvores da
loucura
peregrinante, cortó o tubarão em dois espelhos
a tromba grande:
não agora.

O funeral bororo de Ana Mendieta

[Nós regamos e cobrimos com galhos o chão]
Duas palmas estão elétricas debatem-se freneticamente e
São atravessadas pelo galho seco de uma árvore
Altíssima que parece querer contê-las separando-as
A grama está baixa e limpa os
Galhos ao redor encharcados e pesados sentado

[E aguardamos]
Num degrau de madeira o jardineiro doudo
Bebe de uma latinha gelada cercado de [...]

Poemas de Annalisa Cima

O JOGO

é a única estrada
o inútil
está ao verdadeiro
e o verdadeiro
só existe de brincadeira.

A FORMA

A forma não tem imperfeições
não é participação nem parte:
cumpre-se. A forma a que olhas
nos conhece, contrapõe-se
à desagregação: já expiada
antes do fim.

Jussara Salazar repensa Jerome Rothenberg

as mães ziguezagueantes dos deuses

da ciência         o lunático ajustou estrelas

& farmácias

pais que deixaram as tendas do anarquismo

indefesas

os ossos árticos

viciados em saint-germain

como toneladas de tons

luz viva dos bulbos

afrodisia

Poemas

SÃO NUNCA DAS ALMAS O VISITADOR abra as janelas da casa
a pedra chora o perro ladra a mão esfola os dedos catam tempo e esmola os dedos matam juntam as sobras abrem a cova e quem cantou ontem silencia agora
SÃO NUNCA DAS ALMAS O VISITADOR abra as portas da casa
mas antes salga a entrada banha quem vai embora canta o pranto que devora a terra veste o manto da vida que nega
SÃO NUNCA DAS ALMAS O VISITADOR lave

Poemas

Em meio aos destroços do abrigo
não havia sinais de luta
e ninguém vestia uniforme
– fardas, camuflagens, emblemas.
Não eram presos nem reféns.
Sem vestígio algum de armamento
caseiro, rebelde, restrito
às forças regulares, nada
indicava beligerância.
Ou pacifistas, partisanos.
Não era base militar.
Foram, todas, balas perdidas.

Instruções para bem se matar

Forma realmente popular de se suicidar é por ingestão de veneno, principalmente entre as mulheres. A explicação para a popularidade do veneno está na antiguidade de sua utilização, no seu baixo custo e na sua farta distribuição. Já a circunstância de as mulheres o escolherem como modo preferencial de suicídio adviria de não demandar o emprego de força nem causar derramamento de sangue, além de estar associado aos apetrechos de cozinha e à arte da culinária.

Algunos cuentos

Cuando me sorprendió lo semejante a la estatua de la madrugada, intenté el borrador de lo que pudiera ser un limerick. He aquí este intento: Se dice que, el muy raro hombre, en 1936 estuvo / Verde humo aspiró, del vagón que no existió / Así como, también, se dijo que con veinte, cortinas rosadas, vivía / Pero nunca lo han visto –aunque dicen que en un Cine de barrio una vez lo vieron- a este hombre muy raro, muy raro, a quien alguien lo soñó- y esto sólo una vez-  amarrado, y sin salida,  dentro de aquella  sastrería..

CYNOSARGE 2.0

La primera regla en Cynosarge 2.0 es que no hay reglas en Cynosarge 2.0. La segunda regla en Cynosarge 2.0 es que uno debe ser consciente que no hay regla alguna en Cynosarge 2.0. La tercera regla está esculpida en el frontispicio de una nueva y posible virtud: Hay que desaprender. Para ello hay que tomar conciencia de uno mismo: “No sois vuestra cuenta corriente, no sois el coche que tenéis, no sois el contenido de vuestra cartera, sois la mierda cantante y danzante del mundo”.