A Imaginação Pataquérica

Tal como o título sugere, trata-se de um texto-provocação de Charles Bernstein (publicado pela Chicago University Press em 2016 no livro Pitch of Poetry) em que se abordam, através de ajustes/ataques (fits), textos poéticos que admitem conceitos contraditórios (antinomianismo) na interpretação/performance de sua formação (midrash). Os bent studies, ou estudos torcidos (como a colher que se dobra, do mágico – explica o autor), trazem à baila os protagonistas abaixo – dramatis personae verticais x horizontais: os que defendem , em última análise, a poesia inovadora contra os “classicalistas”, que a excluem das aulas e das antologias. A essa poesia inovadora Charles Bernstein atribui uma imaginação pataquérica – inspirando-se quiçá em Alfred Jarry, o pai da patafísica – um termo plurívoco, com uma porção de derivados.

Sibila, lugares contemporâneos da poesia: Raúl Zurita

Raúl Zurita é um poeta nascido em Santiago do Chile em 1950. Apesar de sua nacionalidade, a Itália é país significativo em sua vida, partindo de sua ascendência italiana pelo lado materno. Aprendeu italiano e espanhol simultaneamente, e a literatura de Dante Alighieri foi a primeira a impactar em sua sensibilidade artística. Teve uma infância difícil, porque pobre e órfão de pai logo ao nascer. Sua avó, que cuidou de sua criação, odiava o solo chileno e seus compatriotas italianos, que triunfavam enquanto ela enfrentava a miséria.

O occitano na França

O acontecimento que se situa na origem da decadência da língua occitana é a Cruzada contra os Albigenses, que começa no ano 1209 e que tinha como objetivo lutar contra a heresia Cátara. Esta Cruzada provocou a perda do poder dos senhores do Sul (occitano-falantes), que foram substituídos polos do norte (que falavam francês). A partir desse momento o francês começa lentamente a instalar-se entre as classes altas e a ser utilizado na administração e também na literatura. O occitano será a língua falada polo povo durante séculos mas será prescrita dos usos oficiais (oficialmente a partir da ordenança de Villers-Cotterêts de 1539, mas de facto desde muito antes) e da literatura culta. A partir da Revolução Francesa e sobretudo da Lei Ferry de 1801 de escolarização obrigatória acelera-se o processo de substituição também nos usos orais. O occitano e as outras línguas regionais da França vão ser proibidas nas escolas. A transmissão geracional da língua rompe-se de maneira maciça no primeiro quarto do século XX.

Um lugar sob o sol do além

Há algum tempo, escrevi um pequeno texto de apresentação na revista Cult sobre o filósofo e crítico russo-alemão Boris Groys (1947), pouco conhecido no Brasil. Como o tenho lido com muito interesse, pensei em estender a apresentação de seu pensamento aqui no seminário de psicanálise. Posso garantir que é dos mais originais entre a gente que, por ora, vive. A piada vai ficar clara mais adiante. Não por acaso Groys foi escolhido para escrever o catálogo da exposição The Air is on Fire, composta de desenhos, fotografias, pinturas e animações de David Lynch, exibida na Fondation Cartier pour l’art contemporain, em Paris, de 3 de março a 27 de maio de 2007.

Francesco Careri: Arquitetura e Poiesis

Em princípio, Careri não se considera nem arquiteto, nem artista, nem professor. Careri informa que se apresenta às populações nômades, aos emigrados e aos refugiados que se estabeleceram e ou passaram pela periferia de Roma, onde ele atuou com seu grupo denominado “Stalker” e, com suas sucessivas turmas peripatéticas de alunos, como poeta.

Sibila, lugares contemporâneos da poesia: Daniel Freidemberg

Dos anos 1970 a 80, integrou o Partido Comunista. Trabalhou como operário em fábricas, estudou Psicologia e Teatro. Em 1970, fundou a oficina literária Mario Jorge De Lellis, na Sociedad Argentina de Escritores, que passou a funcionar na Sociedad Argentina de Artistas Plásticos, a Galería Meridiana e a Casa Latinoamericana.
Em 1972, publicou Los que siguen, con Lucina Alvarez, Guillermo Boido, Guillermo Martínez Yantorno, Armando Najmanovich, Rubén Reches, Jorge Ricardo Aulicino e Manuel Ruano (Ediciones Noé). Integrou o grupo fundador da revista literária El Juguete Rabioso, dirigida por Jorge Aulicino e da qual foi editor. E em 1986 foi do grupo fundador da revista Diario de Poesía, tendo participado de seu conselho editorial até 2005. Dirige a coleção de poesia Musarisca, do Editorial Colihue (Buenos Aires).
Obra poética: Blues del que vuelve solo a casa, Buenos Aires, El Escarabajo de Oro, 1973; Diario en la crisis, Buenos Aires, Libros de Tierra Firme, 1986, 2ª edición: 1990;

A ÁSPERA BELEZA
DA POESIA QUE RENOVOU O MODERNISMO BRASILEIRO

A poeta paulista Orides Fontela (1940-1998) surgiu na cena literária brasileira da segunda metade do século XX por meio de alguns dos nomes mais influentes das críticas literária e acadêmica (a começar de Antonio Candido). E se revelaria, afinal, a poeta mais importante de sua geração, que reúne autores mais conhecidos, ou menos desconhecidos, como Hilda Hilst, Adélia Prado, Roberto Piva e Paulo Leminski. Entender os motivos da dissintonia entre sua importância e seu reconhecimento pode revelar algo ou muita coisa sobre o estado da poesia brasileira contemporânea, sua recepção pública e sua crítica.
Quando descoberta por Davi Arrigucci Jr. através de um poema publicado no jornal de sua cidade, São João da Boa Vista, em 1965 (o que pouco depois resultaria em seu primeiro livro, Transposição, coorganizado por ele), Orides Fontela, sem o saber, e à mais completa revelia de seus 25 anos, estava ou foi posta no centro do embate mais duro travado nas letras brasileiras desde as primeiras reações e rejeições ao Modernismo de 22.