A decadência do império Caetano

Pode-se avaliar o trabalho de um artista e, de resto, de qualquer sujeito, de duas maneiras — embora não necessariamente nessa ordem —, a saber: (a) numa, podemos confrontar suas realizações com as dos seus iguais, isto é, investigar o que oferece de singular relativamente ao estado de espírito do tempo em que se insere, mal ou bem; em outra (b), comparar, por exemplo, sua realização mais recente com o continuum de um projeto estético representado pelo conjunto de suas obras. Em se tratando do percurso musical de Caetano Veloso, cool e pop até o limite do narcísico e do autofágico, já se observa, há pelo menos umas duas décadas, que a qualidade de suas intervenções artísticas não se eleva mais, feito antes, acima do grosso da produção da música popular presente. De outra parte, ou de um ponto de vista nem tão pessimista, este fato talvez queira nos dizer que, felizmente, a “fila anda”, ou seja, que talvez existam experiências musicais mais interessantes no horizonte da nossa recepção e que, portanto, não merecem restar à sombra de medalhões que ainda tangem a lira, não obstante terem ultrapassado há algum tempo o marco dos cinqüent’anos.  No entanto, o mais preocupante não sei se para o ponto de vista do compositor baiano, é que com relação a ele comparado com ele mesmo, a situação beira a estagnação. Estamos diante, digamos assim, da “decadência do império caetano”. E a propósito do que até agora foi dito, em Zii e zie,mais recente disco do artista, tal realidade é incontornável.

Na primeira edição de O que é comunicação poética (1977), um pequeno grande livro escrito por Décio Pignatari, consta uma epígrafe — que não sei por que razão desaparece nas edições subseqüentes — do craque de futebol Ademir da Guia dizendo o seguinte: “Ninguém pode, em qualquer profissão, manter sempre o nível mais alto que consegue alcançar. Ninguém consegue isso, nem Pelé, nem Picasso, nem os melhores escritores, nem os melhores empregados ou patrões”. Talvez o mestre de todos os tempos da história do Palmeiras, consciente de que a carreira de um jogador de futebol é muito curta, já que o desempenho físico em que se baseia começa a decair mais cedo do que o intelectual estivesse um pouco amargurado e não vislumbrasse uma saída para o fato além da esperada resignação. De qualquer modo, mesmo que raros exemplos desmintam o aparente pessimismo deste depoimento, no nervo da questão reside uma crítica à presunção de um verão eterno da criação de que só alguns eleitos se beneficiariam. Com isso não estou defendendo que Caetano Veloso se resigne ou se acomode frente ao processo de declínio que começa a enfrentar, mas que, ao menos em homenagem à sua indigitada inteligência, não simule uma hiperestesia a cavaleiro como reação às poucas objeções que lhe são ofertadas — no contrapé da blindagem dos fãs e dos fast thinkers do entretenimento — enquanto caminha pisando (às vezes caindo) em astros, distraído.

A hipocrisia do CD Zii e Zie

O que interessa é seguinte: Zii e zie é um álbum inferior, por exemplo, a qualquer um dos quatro discos lançados pelo Los Hermanos, e olhando de modo mais retrospectivo, aos discos de Chico Science & Nação Zumbi, e aos que a banda lançou após a morte do compositor, e, ainda, está alguns furos abaixo do som do grupo Mundo Livre S/A e das composições de Fred Zero Quatro, que me parecem estética e politicamente mais vivas e envolventes do que as atuais canções do ex-tropicalista. Este é o drama da “decadência do império caetano”, o músico baiano, que quanto mais se ufana de sê-lo cada vez mais se parece com um falso carioca relax, consegue ser inferior tanto na comparação com ele mesmo, como quando confrontado com as outras sonoridades dos grupos e compositores surgidos nas últimas décadas.

Zii e zie (“tios e tias” em italiano) dá continuação ao encontro musical do provecto compositor (66 anos) com um grupo de jovens instrumentistas de formação roqueira iniciado em 2006 com o álbum . O trio que acompanha Caetano Veloso, formado pelo guitarrista Pedro Sá, pelo baterista Marcelo Callado e pelo baixista Ricardo Dias Gomes, de acordo com alguns críticos e ouvintes especializados, se filia ao “indie” rock (ou rock independente em inglês), estilo musical que caracteriza bandas que não são lançadas por grandes gravadoras. Em recente entrevista a uma emissora de televisão, ao ser indagado sobre esta, até certo ponto, surpreendente e esquisita parceria, Caetano, usando de toda a sua fleuma e esperteza de mulato fino baiano, argumentou que achava tal conjunção algo natural, pois de certa forma sua trajetória sempre fora “meio indie”, isto é, ele sempre se sentiu um artista independente. Só mesmo uma personalidade tão entranhada nos mecanismos do establishment do entretenimento cultural, ou seja, irrigando-o e por ele sendo irrigado, poderia dizer uma coisa dessas com a maior cara de pau, e em tom de altivez crítico-criativa. Trata-se de uma falácia. Caetano Veloso é tão independente quanto às artes visuais hoje, por exemplo, o são. Com efeito, as artes contemporâneas, em que pese à astúcia de suas “posições” pretensamente experimentais, seu parti pris convencional e convencidamente de vanguarda, nunca estiveram tão integradas às normas de consagração suportadas e representadas pelas instituições da academia, do museu e do curador-intérprete. Essa arte que se problematiza até a exaustão por meio de trocadilhos transitáveis e se perpetua só quando se deixa ver em documentários audiovisuais, vive a bem da verdade a expensas da chancela e da canonização covarde dessas instituições moribundas e de financiamentos públicos. A este propósito, recentemente a Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (Minc) decidiu que um projeto de turnê do indie Caetano, orçado em R$ 2 milhões, não precisaria de incentivo “por ser comercialmente viável”. Se na letra da canção “Falso Leblon”, do recente álbum, o cantor, dirigindo-se irônico-pomposamente ao Estado-Nação em transe, indaga: “O que faremos do Rio/ quando, enriquecendo,/ passarmos a dar/ as cartas, as coordenadas/ de um mundo melhor?”, poderíamos replicar perguntando: o que mais fará Caetano, premido por sua corte de produtores lobistas, se continuar dando as cartas e enricando por esses meios? Definitivamente, não precisamos mais comer Caetano.

A cidade do Rio como clichê

De volta à audição de Zii e zie. Alguns autores e roteiristas da teledramaturgia brasileira, e principalmente aqueles a serviço da TV Globo, seguem uma fórmula muito simples para garantir o sucesso imediato de qualquer novela ou minissérie. Basta reunir um grupo de personagens sem pai nem mãe, ricos e pobres, chatos e/ou politicamente (in)corretos, uns oriundos da favela, outros do asfalto e, finalmente, fazê-los circular pelos arredores do Leblon ou de Ipanema. Está feita a telenovela. Pois em Zii e zie, o mesmo quadro se descortina aos ouvidos do fruidor. Caetano Veloso continua a cantar “os deles e os delas da TV Globo”. O mar mordisca o glamour pasteurizado dos topônimos da capital fluminense. A “beleza dos versos” fica como que assegurada através da simples enumeração dos nomes-senhas de certos bairros e seu bestiário. Na canção “Sem cais”, parceria de Pedro Sá e Caetano Veloso, diz a letra: “Nome, bairro, amigo, amor/ de onde vem o parar o mar?/ (…)/ “Barra, Gávea e Arpoador/ deuses brancos de luz do mar/ deuses negros, um esplendor”. A levada funkeada, ao rés do pop formular, já pode ser oferecida como música tema de algum personagem da trama. Aliás, a letra contempla em metáfora resumida a variedade dos núcleos e dos grupos que constituem o microcosmo do folhetim, pois temos os “deuses brancos”, mas também os “deuses negros” cujos destinos são moderados pela audiência.

Em “A cor amarela”, o Rio revem soteropolitano. As banalidades e as milícias da baianidade atuam sobre a malícia oficialesca da letra êta, êta, êta: “Uma menina preta de biquíni amarelo/ na frente da onda/ que onda, que onda, que onda que dá/ que bunda, que bunda!/ (…)/ É o melhor que podia acontecer/ à cor amarela/ destacar-se entre o mar e o marrom/ da pela tesa dela”. Caetano é o organismo que quer repetir-se, perdurar. Mas o “menino do Rio” perdeu, não volta mais. O poeta da música popular de Pedro Almodóvar não passa agora de um vampiro do Rio; ele espicha o olho para a lusitana “menina da Ria” enquanto posa para a foto ao lado dela, ofertando-se como se fora mais cobiçável do que cobiçoso, galo galunfante: “Uma moça de lá do outro lado da poça/ numa aparição transatlântica/ me encheu de elegante alegria”. Sobre este Rio de Janeiro instalado num ponto eqüidistante entre a mentira e a veracidade, cada vez mais estetizado como cidade cenográfica do merchandising institucional e privado, o disco ainda nos oferece a bela melodia da canção “Lapa” cujo ponto forte do arranjo é a guitarra de Pedro Sá, contínua e minimal, acentuando o tempo forte da canção com acordes firmes que o guitarrista deixa soando. No Limbo dantesco, o poeta florentino dá refúgio aos seus iguais, pensadores, artistas e escritores de renome com quem palestra e se equipara talvez vaidosamente. De certo modo a Lapa de Caetano Veloso é um limbo, ou a transculturação do Pelourinho nesse gueto carioca. Ali ele topa com Guinga, Pedro Sá, o Circo Voador, o produtor musical Kassin, a PUC e “a gíria dos bandidos”; ali é onde tudo vai desaguar e se fundir, inclusive Lula e FH. É previsível, a Lapa-limbo de Caetano só podia cheirar a tropicalismo revisitado.

A cidade maravilha da beleza e do caos se desdobra exposta ao tempo e às intempéries, monumento ruinoso a fazer eco à tópica horaciana. Na canção “Lobão tem razão”, ouvimos a voz do cantor: “Chove devagar/ sobre o Redentor”. Exceto pelos seguintes versos da primeira estofe da letra: “Um crucificado deitado ao lado/ os nervos tremem no chão do quarto/ por onde o sêmen se espalhou”, que ainda têm alguma qualidade, esta é a música mais torpe do disco. Caetano Veloso simula umas pazes paupérrimas visando a encerrar ou a colocar em banho-maria a polêmica de gatos pardos que há uma penca de anos entreteve com o roqueiro e fanfarrão Lobão. Cheio de lances intertextuais e de jogos de palavras infelizes, o “poeta da canção” diz, por exemplo: “O homem é o próprio lobão do homem”; “Mais vale um lobão/ do que um leão” (aludindo ao seu signo solar); e, por fim, “O rock acertou”. A par disso, a melodia, além de meio abolerada, é monótona tal como a seqüência de rimas internas em ADO que ecoam no verso citado mais acima: “Um crucificado deitado ao lado”. Nem o solo de guitarra com timbre distorcido ao final, e a réstia de microfonia, voluta-chapa dos mestres do instrumento, conseguem fazer com que relevemos o déficit de qualidade da peça.

Nos eventos promocionais de lançamento do disco Zii e zie, o compositor revelou que a obra talvez tivesse algo a ver com uma ideia de “transambas”. Depois, os críticos começaram a dizer que Caetano “revisita a linguagem do samba”, que o samba “surge com uma roupagem rock”, que se trata, mutatis mutandis, de uma “releitura”, etc, etc. Mas não é nada disso. O estatuto da releitura abriga uma série de imposturas criativas. No máximo, o que Caetano Veloso nos apresenta é uma ordinária customização do samba, assim como o fazem, por exemplo, Seu Jorge, Marcelo Camelo e aquele baixo clero de imitadores de João Bosco. Aliás, a versão para o samba “Incompatibilidade de gênios”, dos velocistas Bosco e Blanc, é uma decepção, não só porque agora ela se arrasta e parece jamais chegar ao fim, abandonando o sincopado de sua álacre aceleração, onde os versos terminam em acentuação oxítona — a pancada do surdo —, mas também porque em nada lembra aquelas verdadeiras transposições para canções de Lennon e McCartney feitas pelo cantor no álbum Qualquer coisa (1975), um dos seus melhores trabalhos. Esta outra “For no one” inventada por Caetano, espécie de samba-canção jazzístico, se equipara em ousadia ao que fez Billy Paul com a música “Your Song” de Elton John e Taupin (composição de1970). O mestre da chamada black music ou do soul music da década de 1970 transferiu à obra dos músicos britânicos o fundamental acento motown — qualificativo por derivação metonímica que alude à Motown Records, a mais importante gravadora de artistas negros desde seu surgimento entre os anos 50/60 até a chegada da era do hip-hop. Quando tive a chance de ouvir a versão original de “Your Song”, e me disseram que era a mesma que a interpretação de Billy Paul havia consagrado, não acreditei.

Mas tentar modernizar o samba ou fazê-lo soar contemporâneo, não é o pior deslize de Zii e zie. O samba não envelhece, e a cada investida nessa direção de impor-lhe uma “dicção atual” sobram, não raro, apenas destroços de experimentos datados. Não há razão para “verter” o samba à maneira rock só porque este simboliza a fonte de toda vitalidade da cultura pop. Quem tiver a chance de ver e ouvir, por exemplo, Nelson Cavaquinho e sua voz de beberrão fumante, seu violão pesado, sua execução suja e à beira da distorção, talvez tenha a mesma impressão que eu tive: Nelson Cavaquinho é punk, não é necessário trespassar um alfinete nos sambas do gênio mangueirense para tentar conciliá-lo com o punk rock. Nelson Cavaquinho é hard.

Gogó de ouro

Porém, o que mais soa irritante em Zii e zie — uma desmedida, mais do que um deslize —, é a performance vocal de Caetano Veloso. Todas as interpretações das canções que integram o álbum nos fazem lembrar o modelo kitsch de “Cucurrucucu Paloma”, que o cantor-ator, pelas mãos de Pedro Almodóvar, levou às telas. Caetano vai além do tolerável no uso de falsetes e vibratos. O cantor baiano parece disposto a querer ombrear-se com Milton Nascimento no que diz respeito ao falsete, e com relação ao vibrato, tudo indica que seus rivais são Caubi Peixoto e Ângela Maria. Mas esses artistas não merecem um adversário enfadonho como o Caetano gogó-de-ouro. Todas as músicas de Zii e zie recebem o desauxílio oneroso desses volteios de voz que se imiscuem às guitarras e baixos cujos riffs e solos soam, o mais das vezes, à maneira dos Strokes e dos Los Hermanos. “Por quem?”, a música mais bela do disco, fica amassada e emasculada graças ao vício vocal de Caetano Veloso. A canção é repetida por três vezes, entre a primeira e a última, a melhor apresentação de sua estrutura fica a cargo do guitarrista Pedro Sá, que refaz, nota a nota, a sinuosa e lírica melodia apoiado num fraseado tênue de bateria. Infelizmente, no meio de tudo, exsurge de repente um harpejo alambicado de violão que serve de escada a esse falsete-clichê com que Caetano Veloso, mais uma vez, pretende vencer de modo erístico — isto é, tendo ou não razão —, seus críticos caretas.

 


Ronald Augusto poeta, músico, editor e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao rubro (1983), Puya (1987), Kanhamo (1987), Vá de valha (1992), Confissões Aplicadas (2004) e No assoalho duro (2007). Dá expediente nos blogs: http://poesia-pau.blogspot.com e http://poesiacoisanenhuma.blogspot.com