Age de Carvalho: um normal e limitado ás da poesia

É impressionante como a série de bolso da coleção “Ás de colete” da Cosacnaify, cuja coordenação é de responsabilidade do poeta Carlito Azevedo, conseguiu agrupar ao longo dos últimos anos cerca de uma, duas dezenas de poetas que alcançam escrever todos com uma idêntica sensaboria poeticamente correta. De ordinário demonstram notável adestramento técnico, em que pese o mesmo ser pueril; praticam esse movimento inconcluso que parte de um “repetir para aprender” e não chega sequer a roçar as margens de um “aprender para criar”; aplicam-se em uma escrita minuciosa, feita à medida da acuidade de scholars, e cumprida a medo, porque o que está em causa é a ratificação do continuum dessa recente tradição da competência e das consagrações recíprocas a que eles mais se submetem do que problematizam. De resto, esses poetas encaixam seus ombros dentro de uma moldura a que fazem jus por obra de seu obediente comportamento. Feito esponjas, eles se empapam com os estímulos sobre sua sensibilidade que se avolumam em progressão geométrica e produzem a mórbida agudez dos seus sentidos e sons que, infelizmente, vão acabar em livros como esse de que me ocupo.

À semelhança dos seus pares, Age de Carvalho, que volta à coleção com o volume intitulado Trans, adoece do embotamento da percepção pelo marrento requinte que ostenta. Ao menos aparentemente, o alto grau informacional atingido por esse fazer poético, congenial a um alardeado pós-tudo e ao risco-oportunidade de repetição ou de inovação que o ronda, “otimiza” a tal ponto seu faro experimentado e cult, que ele só consegue levar a efeito, agora, a forma mais insípida de poesia e desembestar em textos que indicam certa densidade intransitiva que, por seu turno, flertam com uma fleuma fashion rica em tons pastéis. Trata-se de uma espécie de “poesia de homem branco” em um banquete após uma expedição de conquista. Não se pretende aqui reivindicar uma “poesia melhor”; aliás, Age de Carvalho, apenas mais um entre esses ases da poesia, já há alguns anos vem mostrando do que é capaz e até onde pode chegar. Fico intrigado apenas com a absoluta raridade de esbarrar, nesse meio de que o supracitado faz parte, com uma poesia não emasculada.

A preposição latina trans designa “além de, para lá de”, “depois de”, acepções que, desgraçadamente, o livrinho de Age de Carvalho parece não abarcar, pois ele patina dentro dos limites do contemporaneamente tolerável. Ou seja, o autor reúne em Trans poemas vertidos em uma opacidade de discurso mais irritante do que intransitiva, porque inercial; espécie de hermetismo soft que se deteriora na forma de um esforçado e forçado esgarçamento verbal truncado nesse tom paratático a ponto de render-se ao espevitado. E aqui não parecerá estranho me reportar a Horácio que, na Epistola ad Pisones, censura essa espécie de linguagem pela qual se alcança uma obscuridade reificada que faz lembrar os oráculos de Delfos. O poeta tenta todos os estilemas do verbal e do tipográfico legados pelas vanguardas das décadas de 1950/60, mas essas referências restam como uma depauperada promessa daquilo de que Age de Carvalho é privado por ser um poeta rigorosamente normal e limitado. Assim, o amparo do expressionismo no uso dos símbolos gráficos decai mais em aquiescência moderada ao “modal de vanguarda”, do que se eleva em tensão pansemiótica de risco que permitisse à fatura do poema, se fora o caso, novos ensaios e desfechos. Fique esta pequena amostra:

o rasto da lancha brilhante,
vésper-voadora,
deixando para trás
a frase grega no fragm., resto
que apontava

] um loureiro, quando [

A linguagem de Trans, que em tais momentos sugere palidamente à nossa lembrança as tortografias cummingsianas, se soma a essa dissipação total em formação que, contemporaneamente, diz respeito ao fragmento enquanto nosso “sentimento de mundo”. A fragmentação discursiva assume a forma de uma divisa compositiva e acaba por se tornar constitutiva da perplexidade do poeta contemporâneo bem como de sua busca de soluções exasperadas de linguagem. Entretanto, o que Trans nos faculta são banalidades pretensiosas, prosaísmo frásico menos kitsch do que chique-brega, feito este trecho que submeto à apreciação do leitor:

Kyoko-chan encomenda
a primavera
enquanto Takako,
grata-hospitaleira,
põe a mesa
em Charlottenburg-
Wilmersdorf,
março pingando ainda
dos galhos
nus,

lá fora.

O virtuosismo poético de Trans é como a corda estendida à flor do chão mimetizando o caminho a ser percorrido com vistas a conquistar a glória tão sonhada; no entanto, essa corda kafkiana parece mais determinada a fazer o clown-equilibrista tropeçar e cair do que chegar ao termo dela. Diante de muitos poemas de mais esse conjunto da coleção “Ás de colete”, chego à conclusão de que o mais sensato seria o poeta enfiar a corda do virtuosismo no próprio pescoço. Um poema como o que segue indica isso, dele oferto apenas dois momentos ao leitor:

Abril ainda, des-
maio, o mês
de nascer: lembras,

(…)
uma estrela
livre-perdida entre ervas,
ardia, ar-
dia no centro
da cozinha,
(…)

Desentranhar “maio” de dentro da palavra “desmaio” é de um primarismo paronomástico quase ofensivo, esse tipo de efeito calha bem no trabalho de consciência de linguagem que se exige ao iniciante quando introduzido, por exemplo, numa oficina de criação poética. Age de Carvalho, não contente com o vexame de induzir o leitor a perceber esse “sutil jogo” fraturando a palavra em duas ao quebrar o verso na primeira sílaba do substantivo (“des-”, que também se refere ao prefixo latino indicativo de oposição, negação ou falta), numa sorte de enjambement claudicante, reprisa logo abaixo, mais precisamente na terceira estrofe do poema, o mesmo efeito. Assim, o leitor, antes ignorante a respeito do fato de que em poesia coincidências e desdobramentos fônicos estão na raiz da “função poética”, esse pobre leitor, pode enfim entesourar em sua mente que o verbo “arder” no pretérito imperfeito, quer na primeira, quer na terceira pessoa do singular, leva em sua desinência o substantivo “dia”. Mas ainda resta esse “ar-”, produzido pelo corte, escansão de poeta tatibitate e gago com que somos logrados à maneira do pregão do ambulante “leve um e ganhe dois”, pois o verbo “arder” se presta àquele tipo de vocábulo que a uma só vez diz duas coisas. O leitor não tem escolha, ele é forçado a notar as palavras saindo de dentro das palavras. Age de Carvalho se comporta como o aprendiz de prestidigitador que se compraz consigo mesmo repetindo ad nauseum o truque de tirar pela boca as cartas de um baralho.

 

Primarismo

Outro arranjo faceiro de linguagem que o poeta reprisa com mais afetação que apuro em Trans é o palíndromo. Para conferir: na página 31, segunda estrofe: “o/ sol, los!”, e, mais adiante, na página 57, o poema que dá título ao livro diz assim: “És es-/ se Se,” e termina com esse arranjo, menos verso que senha: “pós-OP”. Mas há variações diluídas sobre o mesmo tema, por exemplo, mais atrás, na página 15, lê-se: “Se és/ esse/ homem, levanta.”; Age de Carvalho ainda se diverte com outros efeitos bizarros sem justificativa funcional a não ser a do desejo de atrair a admiração dos seus pares para o seu pífio parnasianismo pós-utópico, eclético-experimental.

A noção de uma poesia como partitura mental talvez desse conta do que acontece em Trans. Age de Carvalho põe em relação poemas que só servem à leitura silenciosa, à viva voz sabem a ruídos aquém-cagianos ou a um cantar que semitona. Para Jorge Luis Borges: “Quando lemos versos que são realmente bons e admiráveis, tendemos a lê-los em voz alta. Um verso bom não pode ser lido em voz baixa ou em silêncio. Se isso for possível, então, o verso não vale a pena, pois um verso sempre exige sua pronúncia. O verso nos faz lembrar que antes de arte escrita foi uma arte oral: o verso nos lembra que inicialmente foi um canto”.

Se antes a poesia não distinguia entre cantar e contar, hoje a poesia contemporânea, e Trans é bastante representativo desse dilema, graças a essa demissão por imperícia do verso, calou tanto o canto, quanto a possibilidade de aproveitamento consistente de certos valores da prosa. Inclusive na prosa, a sensação nada pernóstica de que qualquer texto em sua materialidade estética não é senão um som e uma pausa, faz sentido.

A acomodação a essa poesia escrita (isto é, sem apetite para a música do verso, seja livre, seja metrificado, de estrutura mais visível do que sonora), a par da derrocada do mundo heroico, sepultou a poesia do canto e do conto. O espaço público, solidário e consensual, reflui para a imprecisão fraturada e farta da subjetividade lírica atual. Hoje, um leitor mudo encena a sua tragédia no quadrículo resumido da página manuscrita ou impressa. O sermão cede a vez à confissão: empilhamento de eventos mnemônicos, coisas, versos encardidos do alheio, fragmentos de objetos imantados de emoção exibicionista. Tautologias, serialismo, coleções de ninharias resgatadas ao inferno biográfico do poeta:

(…)
velo-feroz sob o consternado céu
co-estrelado por
sinal, aviso e advento,
aeroportos, nascimentos, cidades visitadas,
a mandíbula de Deus
desenterrada em Jacarta
entre jasmins,
vozes perdidas, entes, amigos mortos
(…)

Um dos desconfortos da poesia escrita encontra-se no seu rebuscamento (em potência) resolvido em lacunas, um discurso que em seus melhores momentos, a contrapelo de sua impertinente escassez sígnica, convida o leitor-fruidor a fazer uma série de operações interpretativas; refinadas abstrações sensório-emotivo-intelectivas calcadas sobre uma negatividade extrema de linguagem. Mas isso acontece só com os melhores. Em Trans, no entanto, a elipse é perdulária, os poemas mais revogam que evocam enquanto figuram, in absentia ou quase esotericamente, os lugares-comuns dos seus sentidos: “O vazio/ cheio da tua vida/ aqui/ tem o seu lugar”.

Age de Carvalho pretende praticar uma linguagem filha dessa “música sem-versista” (Décio Pignatari) que, teoricamente, substitui o versilibrismo. Mas, exceto dentro dos limites bem demarcados da Poesia Concreta, essa poesia sem-versista ainda não disse a que veio. Por meio de uma reiteração simplificada, as potências do verso livre são rebaixadas, se transformam numa mancha de fundo, desaparecem nesse curioso modelo poético sem-versista sem canto nem conto, e que o ambiente trata de irrigar através de variações parentais sempre mais pioradas ou regressivas.

Uma anedota paralela. Há pouco, o escritor e tradutor Donaldo Schüler, resenhando a obra Hinos homéricos – tradução, notas e estudos (Unesp), ao deparar com a afirmação do organizador Wilson Alves Ribeiro Jr de que os tradutores tentaram reproduzir o texto “sem qualquer pretensão poética”, isto é, vertendo os originais gregos em versos livres devido à dificuldade da tradução, contra-argumentou do seguinte modo: “…se não houve pretensão poética não há verso livre. Verso livre não é qualquer coisa nem coisa qualquer. Verso livre tem metro, tem vigor, tem sonoridade. Poetas nossos criaram versos livres de alta categoria. Versos de Fernando Pessoa e Drummond, ágeis, inventivos e livres, ascendem à categoria dos intraduzíveis”.

De volta a Trans. A impressão que se tem ao ler toda essa maquinaria pós-qualquer-coisa, lance de prosa que degenera em verso fraturado, é contraditória: ao novo paleográfico amaneirado, sobre o qual se equilibram com esforço as imagens de Age de Carvalho, junta-se o sentimento de coisa desarrumada, caótica, quase informe. Os colchetes delimitando, seccionando trechos da página (sempre mallarmaica) em branco; os sintagmas e locuções em outras línguas (o prosaico sem sal sob a máscara do idioma alheio: liebe dich); as palavras-montagens; a erupção retrô do advérbio demonstrativo “ei-lo” ou a concessão ao paternalismo infantil na observação dos filhos jogando vídeo-game; um título como este, por exemplo, “Uni-, Multiverso”, enfim, todos esses andaimes deixados pelo poeta junto aos poemas são responsáveis por uma sensação árdua de artificialismo e falsidade.

 


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