Bonvicino decanta Bernstein

Não é comum em poesia a publicação de livros que realmente interessam, como é o caso aqui, de Histórias da guerra. Mas só para os que estão preparados para pôr em questão suas grandes e pequenas certezas mais preservadas. O trabalho de Charles Bernstein é desses capazes de efetivamente desestabilizar variados campos de práticas e criações, formas arraigadas de pensamento, ideias comuns naturalizadas, imagens corriqueiras, sentidos admitidos, sintaxes previsíveis, aberturas e desfechos notórios.

“Basta!”, como intitula o poeta um de seus textos aqui traduzidos. Uma múltipla negação à procura de novos territórios para a poesia e a crítica, para a presença do pensamento do poeta no espaço cultural, social e político. A responsabilidade radical com a invenção de novas formas em sintonia com o presente, o contemporâneo traduz-se uma variedade incrível de vozes, de respirações, cada uma delas um campo de implicações, inclusive literárias.

O conjunto de textos aqui reunidos, referente a diversas fases da atividade criativa do autor, dá bem a ideia dessa constante inquietação, não apenas na sucessão dos trabalhos, mas em cada um deles. Além dos poemas, o principal conjunto, há ainda uma entrevista e alguns trabalhos de Bernstein, esclarecedores de muitos de seus pontos de vista. Este também não é um livro “tradicional” de tradução. Há traduções, de Régis Bonvicino, em sentido comum, mas há também criações, trânsitos, transcrições sonoras, em um diálogo entre o poeta Régis Bonvicino e o poeta Charles Bernstein abrindo passagem para outras práticas textuais entre as Américas, sintonias entre horizontes.

Mas a poesia de Bernstein não concede nada, ou melhor, só concede sua trama a si própria. Como se vê no poema mais antigo aqui traduzido, com o poeta aos 26 anos. O excerto de “Decantando” leva à experiência de desrealizações em camadas, sucessivas sem sucessão, como exercício para purificar, eliminar o inútil, sem que sobretudo se chegue a uma imagem ou qualquer enredo, exceto o próprio movimento das linhas e suas quebras como configuração de algo que está sendo decomposto. Talvez a melhor “passagem” do poema seja “figmento”, entre “poliedro” e “limão”, o ponto mais cheio de ausência.

Outros poemas vão multiplicando esses efeitos de solapamento de modos de apresentação ou representação dos “materiais”, talvez supostas imagens de um real observado, incluindo a ruína das representações de algum eu, quando a persona poética se encontra
desprovida de inumeráveis subjetividades desejadas (por exemplo, em “Pegue então estes…”).

E isso em diversos tons, dos quais parece sobressair a conflitividade, e não alheia ao humor, como no poema citado.

“Histórias da guerra” é um título que expressa com feliz propriedade o que pode ser visto nesses poemas e textos. Um tempo e um cotidiano bélicos, em todos os planos, sem deixarmos de lado a linguagem e a poesia como campos minados. E a necessidade de fazer frente a um conjunto denso, diverso e milionário de resistências, fossilizações, na vida e na arte. Não há receita para conseguir parar o fluxo do óbvio, desnortear o automatismo; o que há é a possibilidade de realizar isto, como em “aqui. Esqueça.”, primeiro verso de “Poema”, pela força com que o situado é imediatamente suspenso, com maiúscula e ponto. Para alguns versos adiante se alcançar: “Não há mais paisagem.”, e com isso uma libertação para configurações de imagens momentâneas. Se há regra, é a da inquietação permanente, e “aguentar-se” é condição para se poder esboçar alguém ou alguma coisa.

Como são muitos os conflitos, é preciso adotar diversas estratégias e táticas. Viver no tempo presente significa estar de sobreaviso e preparado para um estado de coisas muito ramificado, num cotidiano que é especificamente nosso e a cada dia mais complexo. Tanto o pequeno mundo da relação entre os homens quanto o grande mundo da política se impõem à poesia de forma contundente, pelo menos para aquela comprometida a interrogar a problemática circunstância de viver e criar hoje. E esse compromisso passa, necessariamente, pela destruição de formas e modos que já não guardam mais nenhuma relação vital com a vida de agora.

Talvez o exemplo mais contundente neste livro dessa necessidade de novos padrões, novas formas de imaginação, que é tudo o que temos e a que podemos nos agarrar, seja o poema “Para ––––”, um luminoso tour de force em torno da possibilidade de constituirmos, e somente a partir de nós mesmos, as bases para outras efetivações de nossa condição humana, como a epígrafe deixa claro. Nele, o poeta lança mão de todos os meios para tentar reter algo, de tanto afeto, em meio à velocidade absoluta. “Tudo se move / como eu” é a tônica desse turbilhão. Mas esse movimento em alta velocidade não se constitui num fluxo harmônico, não apresenta uma orientação de sentido definida e muito menos se conclui, o que seria negar, em última instância, a própria orientação dessa poética que se recusa a delimitar e aprisionar o sentido. A última linha do poema é pura abertura para: “que, com”, como também se pode ver em outros poemas deste livro, como no verso final de “Baixa estação”. Mais ainda, o fluxo de linguagem em “Para ––––” não se concatena a partir das formas lógicas usuais, não se desdobra em relações de causa e efeito, não leva a um acúmulo produtivo e progressivo, mas à visão de um empilhamento sem hierarquias. A suspensão da conclusão de qualquer circunstância ou simulação é obtida pela sistemática ruptura da sintaxe e suas normas reconhecíveis, entrecortando uma respiração, um fôlego que funciona por emissões parciais. Trata-se de algo muito mais radical do que pode ser notado, por exemplo, nos procedimentos sintáticos da poética de cummings. O desabamento sucessivo de todas as linhas de “argumentação” que mal se insinuam, no entanto, é a própria condição de apresentação de todo um campo de situações, desejos, problemas, necessidades, sempre no sentido da busca de um diálogo a cada vez retomado, em um novo imaginário capaz de nos formular um mundo possível, menos confuso, menos complicado, mas que não se feche jamais em uma imagem, muito menos confortável ou apaziguadora.

O que se espera em meio a esse sufoco é alcançar “um lugar para viver” (como que a especificar a pergunta nos versos iniciais do poema: “O que é / lugar?”), mesmo que ou sobretudo provisório, um lugar onde possam caber, afinal, “eu” e “você”, sem intimidações, mitificações e condicionamentos, sem opressão, em que seja possível “segurar você”, em que um se torne a medida do outro para o advento de uma nova ética, e no qual a própria linguagem talvez não fosse mais necessária para certas circunstâncias (“se eu pudesse / não teria palavras”).

A procura de um lugar para viver é principalmente a exigência de preencher o espaço com outra linguagem, com algum grau de imunidade a todas as suas formas degeneradas, principalmente as opressoras. Com esses poemas estamos perante um exercício fundamental e também uma exigência realmente difícil de se cumprir: imaginar a poesia como o sinônimo mais próximo de liberdade.

E-book da E-Galáxia: confira http://blog.e-galaxia.com.br/historias-da-guerra-de-charles-bernstein/