Caetano Veloso ataca de novo

É bastante provável que Caetano Veloso vá votar em Marina Silva porque ela é (embora disfarce) criacionista, ou seja, não acredita na evolução das espécies, em Charles Darwin. O CD Zii e Zie (2009) não fez sucesso. O filme Coração vagabundo (2009) idem. Veloso não produz nada digno de nota há – seguramente – duas décadas. Seu momento pós-tropicalista é desigual. Seu cancioneiro lírico-amoroso, basicamente heterossexual, é papai-mamãe, convencional: idealiza o amor e o trata com “raiva”, cinismo e/ou ironia, para posar de amante rejeitado pela musa ou “conquistador”, lirismo vazado, muitas vezes, em jargão da moda, que, em seu caso, substitui a própria ideia de letra, de lyrics. Enumero algumas canções nessa trilha: “Eu te amo”, “Vera gata”, “Dom de iludir”, “Ela e eu” e até “Queixa”, que, para narrar uma situação de amor aberto, usa “vocábulos” kitsch, metáforas horrendas: “Princesa, surpresa, você me arrasou/ Serpente, nem sente que me envenenou/ Senhora, e agora me diga aonde eu vou/ Senhora, serpente, princesa”. Sem falar, no caso, na assonância, musicalidade, de ouvido mouco. Veloso é abstratizante em suas letras – vago, para parecer profundo. Não há concretude de linguagem, exceto no curto período tropicalista. E, depois, aqui e acolá. Suas canções são musicalmente pobres, quadradas, sem a força primitiva das de um Jorge Ben Jor. Veloso é um anti-Sam Cooke, que fazia do simples e direto algo de extraordinário.

Como não faz mais sucesso de estima e nunca fez de massa, Veloso se vale da velha tática. Atacar alguém, para levar público ao show. Desta vez, foi Luiz Inácio Lula da Silva, chamado de “analfabeto” e “grosseiro e cafona” ao falar. Quis surfar em popularidade alheia. De fato, um dos maiores erros de Luiz Inácio Lula da Silva foi ter nomeado Gilberto Gil para ser seu ministro da Cultura e, depois, de ter “empossado” Juca Ferreira, o discípulo do autor de “Aquele abraço”. Ao ser indagado sobre a Lei Rouanet, do qual tem se beneficiado há década, Veloso se calou, saindo-se com essa: “Não sou muito bom nesse negócio”. Imagine se fosse. Dois exemplos recentes: a turnê do medíocre Zii e Zie foi autorizada a captar recursos milionários por Ferreira, contra parecer da comissão do MinC que examina os casos. Coração vagabundo foi igualmente em parte financiado por essa Lei.

Ou seja, ele foge do debate de assuntos culturais. Esconde sua cabeça, como sempre fez. A Lei Rouanet transformou a cultura em objeto de comunicação social de corporações: na verdade, acabou com a cultura, com o conceito de o Estado amparar a cultura e não estimulou a criação de um mercado, que é pujante no liberalismo anglo-americano, que Veloso, na mesma entrevista, declara-se admirador. A Lei Rouanet precisa ser revogada. Claude Lévi-Strauss define cultura: “Em sua acepção geral, cultura designa o enriquecimento esclarecido do juízo e da capacidade de distinção”. Veloso, como aponta Francisco Alambert, em nome da cultura, promoveu, desde os tempos do tropicalismo, a indistinção geral. O que no tropicalismo era, entretanto, abertura, tornou-se depois mero mecanismo de mercado, farsa.

Veloso incorporou do conceito de Lévi-Strauss o termo “enriquecimento esclarecido”. Por isso talvez admire políticos quatrocentões como o Aécio Neves, Ciro Gomes ou Mangabeira Unger – que eu nunca soube distinguir do Professor Pardal. Em virtude de seu “enriquecimento esclarecido” talvez critique a “vulgaridade” de Luiz Inácio Lula da Silva e a paulistanidade deste e de José Serra, o “italianinho” – ambos produtos da “decadente” USP. Diz, como sempre, barbaridades: “O Serra é o tipo do cara que, se tivesse ganho no lugar do Lula, em 2002, teria trazido mais problemas à economia brasileira. Ele teria feito um governo mais à esquerda e a economia talvez tivesse problemas que não está tendo porque o Lula fez a economia à direita”. E conclui do alto de sua “cátedra”: “O Lula foi mais realista do que o rei. Foi bom, a economia deslanchou”. O governo Lula tem problemas, falhas, mas Luiz Inácio Lula da Silva é o presidente mais forte que o Brasil teve depois de Getulio Vargas. É um mito, aqui e alhures, com uma trajetória política. O “literato” Sarney fala bem e, como Veloso sabe, proibiu o filme Je vous salue Marie, de Jean-Luc Godard, quando era “presidente”.

Não votarei em Marina Silva. Ela integrou o governo Lula por seis anos e, nesse período, não executou um projeto sequer de peso. Limitou-se a “bloquear” a ação alheia, segundo divulga. Suas opiniões são as de um cidadão comum, embora tenha sido ministra de Estado. Não se fez propositiva, não se impôs. Ela não é a soma de Lula da Silva e Barack Obama, como a “define” Veloso napoleonicamente. A senadora é evangélica. Missionária da Assembleia de Deus. Líder informal dessa bancada temática no Congresso. Uma Sarah Palin, “à esquerda”. No Partido Verde milita um Sarney. A bióloga Cláudia Magalhães denunciou (Época, 21 de maio de 2008) que, quando ministra, promovia rezas evangélicas em seu gabinete e discriminava outras religiões. Relata que ela ganhou uma carranca no Festival Ecocultural do São Francisco, em Brasília, e se recusou a receber o presente, deixando a festa. Magalhães conclui: “Foi quando eu comecei a ver que a fé dela esbarra em sua atuação política”. Magalhães informa que a ministra tinha “um pastor particular”, chamado Roberto Vieira, que recebia seus honorários pela UNESCO. A República foi proclamada há cem anos: religião não pode se confundir com Estado. A fé não deve “bloquear” a ciência, embora, com diz Gil, “ela não costume faiá”. O tema do resgate do meio ambiente – central para humanidade – não qualifica por si só Marina Silva a ser presidente do Brasil. Seria interessante que Veloso tivesse estudado “direito”, nos dois sentidos. Veloso é um personagem old fashion, que ainda se sente como “antena da raça”, que se atribui o papel de porta-voz da sociedade – parece viver congelado no espírito messiânico dos anos 1960, do qual foi, relativamente, beneficiário à revelia, como o tempo revelou. Enfim, como todos sabemos, Veloso – haja vista sua amizade com Juca Ferreira e com Gil – é chegado numa “igreja”. Cucurucucu, Palomaaaaa!