Clarice Lispector e o complexo de vira-lata

Clarice Lispector

Mas há um Nelson Rodrigues insuperável: aquele que nos definiu como perseguidos pelo complexo de vira-lata. Complexo que se manifesta pela sensação de que não suportamos comparação, pois logo nos vemos como evidentemente inferiores. As provas da qualidade do achado são inúmeras. Recorro às que de imediato me vêm à cabeça. Em suas memórias, um autor hoje quase desconhecido, Gilberto Amado (1887-1969), recorda que, no começo de carreira diplomática, ao chegar ao hotel em que deveria se hospedar, em cidade holandesa, impressionou-se com a elegância dos porteiros. Tamanhos fraques e casacas cheias de tantos botões dourados lhe pareceram prova de que se defrontava com autoridades, ante as quais havia de prestar os sinais de consideração que aprendera estarem reservados a elas. Ao testemunho de décadas passadas acrescento um recentíssimo. Há poucas semanas, participava de uma reunião em que a palavra seria tomada por uns tantos especialistas nos critérios de qualificação adotados, pelas instituições federais, quanto às revistas acadêmicas. Impressionado com a suposição de que, conforme depreendia da exposição do maioral, uma publicação feita no estrangeiro rendia maior pontuação do que uma feita por aqui, perguntava-lhe se havia entendido direito. Muito afável, respondeu-me que sim. E a razão, acrescentava, era bastante simples: como as principais revistas científicas são publicadas fora e, geralmente, em inglês, o critério era inquestionável. Portanto, concluo agora, coleguinhas das mais diversas academias: não percam seu tempo aprendendo, por exemplo, a nova ortografia. Vão direto ao pote: passem a escrever em inglês.

A cena veio-me à lembrança quando há poucos dias, ao ligar a TV, deparei-me com um programa – não uma notícia – sobre uma recém-publicada biografia de Clarice Lispector. Dela já havia tomado conhecimento. Tanto o The New York Times como a The New York Review of Books publicaram longos e elogiosos artigos sobre a biografia. O artigo da segunda a chama de “esplendidamente pesquisada” e assinala que seu autor refizera o percurso de vida de Clarice, viajando pelos lugares onde ela havia estado. Ante tal cobertura, detalhada e capaz de satisfazer às questões dos mais diversos leitores, a matéria televisiva era uma obra-prima de chavões. Repetiam-se histórias duvidosas e anedotas conhecidas; que Clarice escrevia um português que nunca alguém escrevera, que ironizava ou se enfurecia contra os que falavam de sua obra de uma maneira tão “teórica” que ela própria não entendia. Pouco importava aos responsáveis pela matéria que um pouco antes tanto se reiterasse que ela dizia não entender a si mesma. Ora, se assim sucedia – por certo, compreenda-se, please, tal era sua complexidade íntima –, como haveria de entender o que estranhos dissessem sobre ela? Muito bem. Mas, afinal, onde nisso tudo está o complexo de vira-lata? Por certo, ele não está em que nossos jornalistas se rejubilem com o êxito da biografia de um escritor brasileiro. É tão raro que sejamos nomeados mais do que pela trinca “café – Carnaval – Pelé” que a notícia deverá ter vida longa. Nosso “vira-latismo” está no tratamento diferenciado dado a uma obra publicada no estrangeiro e escrita em inglês quanto à outra semelhante, que antes tinha saído em português. É bem o caso. Em 2008, a Edusp publicava, em edição graficamente preciosa, a Clarice fotobiografia de Nádia Gotlib. Seria injusto alegar que a obra não teve resenhas ou não tenha circulado ou não tenha sido reconhecida. Em suma, que não se tenha sabido dela. Mas nada semelhante ao que agora sucede com o jovem autor norte-americano – por certo, em vésperas de ser traduzido. Lembremo-nos então do critério de pontuação ressaltado pelo especialista em publicações acadêmicas. Nosso complexo de vira-lata não faz por menos: entre um produto escrito e editado no Brasil e outro, surgido em país de língua estrangeira, como duvidar do que merece maior reconhecimento? Não que se duvide do ganho para a cultura nacional, em que autor e/ou obras suas ganhem espaço além das fronteiras. Mas qual a significação efetiva desse espaço se, internamente, encaramos nosso interlocutor com desconfiança se nele não reconhecemos o repetidor de alguma coisa antes legitimada lá fora?