Contra os poetas

Contra os poetas[1]

Witold Gombrowicz

Tradução de Clarisse Lyra e Rodrigo Lobo Damasceno

Seria mais razoável de minha parte não me meter em temas drásticos porque me encontro em desvantagem. Sou um forasteiro totalmente desconhecido, careço de autoridade e meu castelhano é uma criança de poucos anos que mal sabe falar. Não posso fazer frases potentes nem ágeis, nem distintas, nem finas, mas quem sabe se essa dieta obrigatória não será afinal boa para a saúde? Às vezes gostaria de mandar todos os escritores do mundo ao estrangeiro, fora de seu próprio idioma e fora de todo ornamento e filigranas verbais, para comprovar o que restaria deles então. Quando se carece de meios para realizar um estudo sutil, verbalmente bem amarrado, sobre, por exemplo, as rotas da poesia moderna, começa-se a meditar acerca dessas coisas de modo mais simples, quase elementar e, quem sabe, demasiado elementar.

Não há dúvida de que a tese desta nota: que os versos não agradam a quase ninguém e que o mundo da poesia versificada é um mundo fictício e falsificado, parecerá desesperadamente infantil; e, no entanto, confesso que os versos não me agradam e até me entediam um pouco. O interessante é que não sou um ignorante absoluto em questões artísticas, nem tampouco me falta sensibilidade poética; e quando a poesia aparece mesclada com outros elementos, mais crus e prosaicos, por exemplo nos dramas de Shakespeare, nas obras de Dostoievski, de Pascal, ou simplesmente no crepúsculo cotidiano, estremeço como qualquer mortal. O que dificilmente minha natureza aguenta é o extrato farmacêutico e depurado da poesia que se chama “poesia pura”, e sobretudo quando aparece versificada. O canto monótono desses versos, sempre elevado, me cansa, o ritmo e a rima me dão sono, me parece estranha, dentro do vocabulário poético, certa “pobreza dentro da nobreza” (rosas, amor, noite, lírios), e às vezes suspeito que todo esse modo de expressão e todo o grupo social que a ele se dedica padecem de algum defeito básico.

Eu mesmo acreditava no início que isso se devia a uma particular deficiência em minha “sensibilidade poética”, mas cada vez levo menos a sério os slogans que abusam de nossa credulidade. Não há coisa mais instrutiva que a experiência, e por isso comecei a realizar algumas bem curiosas: lia qualquer poema alterando intencionalmente sua ordem de maneira tal que se convertia em um absurdo e nenhum de meus ouvintes (finos e cultos, evidentemente, e fervorosos admiradores daquele poeta) advertia o engodo; ou, analisando de forma detalhada o texto de um poema mais extenso, comprovava com assombro que os “admiradores” sequer o haviam lido por inteiro. Como pode ser isso, então? Admirá-lo tanto e não lê-lo? Gozar tanto da “precisão matemática” das palavras e não perceber uma fundamental alteração na ordem da expressão? Mas o que acontece é que todo esse acúmulo de fictícios prazeres, admirações e deleites está baseado em um convênio de mútua discrição; quando alguém declara que adora a poesia de Valéry, é melhor não acossá-lo demasiadamente com indiscretas investigações, porque então se colocaria em evidência uma realidade tão diferente de tudo o que imaginamos, e tão sarcástica, que nos sentiríamos extremamente incomodados. Aquele que deixa por um momento as convenções do jogo artístico tropeça em seguida em um enorme monte de ficções e falsificações, tal qual um escolástico escapado dos princípios aristotélicos.

Encontrei-me, pois, cara a cara com o seguinte dilema: milhares de homens fazem versos; outros milhares demonstram por eles grande admiração; grandes gênios se expressam por meio do verso; desde tempos imemoriais o poeta e os versos são venerados; e, frente a essa montanha de glória – eu, com minha convicção de que a missa poética se efetua no vazio quase completo.

Valor, senhores! Em vez de fugir desse fato expressamente, tratemos de buscar suas causas como se fosse um fato como qualquer outro.

Por que não gosto da poesia pura? Pelas mesmas razões pelas quais não gosto do açúcar “puro”. O açúcar é ótimo quando o tomamos junto com o café, mas ninguém comeria um prato de açúcar: já seria demais. É o excesso o que cansa na poesia: excesso de poesia, excesso de palavras poéticas, excesso de metáforas, excesso de nobreza, excesso de depuração e de condensação que assemelham os versos a um produto químico.

Como chegamos a este grau de excesso? Quando um homem se expressa de forma natural, isto é, em prosa, sua fala abarca uma gama infinita de elementos que refletem sua natureza inteira; mas eis que então vêm os poetas e passam a eliminar gradualmente da fala humana todo elemento apoético; em vez de falar começam a cantar e de homens se convertem em bardos e vates, consagrando-se única e exclusivamente ao canto. Quando um trabalho semelhante de depuração e eliminação se mantém durante séculos, chega-se a uma síntese tão perfeita que não restam mais que algumas notas, e a monotonia tem que invadir forçosamente o campo do melhor poeta. O estilo se desumaniza; o poeta não toma como ponto de partida a sensibilidade do homem comum, mas a de outro poeta, uma sensibilidade “profissional”, e, entre os profissionais, se cria uma linguagem tão inacessível quanto a dos outros dialetos técnicos; e, subindo uns sobre os outros, formam uma pirâmide cuja ponta se perde no céu, enquanto nós ficamos embaixo um tanto confundidos. Mas o mais importante é que todos eles se tornam escravos de seu instrumento, porque essa forma é já tão rígida e precisa, sagrada e consagrada, que deixa de ser um meio de expressão; e podemos definir o poeta profissional como um ser que não pode expressar a si mesmo porque tem de expressar os versos.

Por mais que se diga que a arte é uma espécie de chave, que a arte da poesia consiste precisamente em alcançar uma infinidade de matizes com poucos elementos, tais e parecidos argumentos não ocultam o primordial fenômeno de que com a máquina do verbo poético ocorreu o mesmo que com todas as demais máquinas, pois, em vez de servir a seu dono, se converteu em um fim em si; e, francamente, uma reação contra esse estado de coisas parece ainda mais justificada aqui do que em outros campos porque aqui estamos no terreno do humanismo par excellence. Existem duas formas de humanismo básicas e diametralmente opostas: uma que poderíamos chamar “religiosa”, que coloca o homem de joelhos ante a obra cultural da humanidade, e outra, laica, que trata de recuperar a soberania do homem frente a seus deuses e suas musas. O abuso de qualquer uma destas duas formas tem que provocar uma reação e é certo que uma reação assim contra a poesia seria hoje totalmente justificada porque, de vez em quando, deve-se parar por um momento a produção cultural para ver se o que produzimos tem ainda alguma vinculação conosco. Possivelmente os que tiveram a oportunidade de ler algum texto artístico meu sentirão estranheza com o que digo, já que sou em aparência um autor tipicamente moderno, difícil, complicado e às vezes ainda – quem sabe – tedioso. Mas, tenha-se em conta, eu não aconselho ninguém a prescindir da perfeição já alcançada, antes considero que esta perfeição, esse aristocrático hermetismo da arte devem ser compensados de algum modo e que, por exemplo, quanto mais refinado é o artista, tanto mais deve levar em conta os homens menos refinados, e quanto mais idealista é, tanto mais deve ser realista. Este equilíbrio à base de compensações e antinomias é o fundamento de todo bom estilo, mas nos poemas não o encontramos, e tampouco se pode notar na prosa moderna influenciada pelo espírito da poesia. Livros como A morte de Virgílio de Herman Broch ou ainda o celebrado Ulisses de Joyce se mostram impossíveis de ler por serem demasiado “artísticos”. Tudo ali é perfeito, profundo, grandioso, elevado e, ao mesmo tempo, nada nos interessa porque seus autores não os escreveram para nós, mas para o Deus da arte.

Mas a poesia pura, além de constituir um estilo hermético e unilateral, constitui também um mundo hermético. E suas debilidades aparecem ainda mais cruas quando se contempla o mundo dos poetas em seu aspecto social. Os poetas escrevem para os poetas. São os poetas que prestam homenagens ao seu próprio trabalho e todo esse mundo se parece bastante com qualquer outro dos tantos e tantos mundos especializados e herméticos que dividem a sociedade contemporânea. Os enxadristas consideram o xadrez como o ápice da criação humana, têm suas hierarquias, falam de Capablanca como os poetas falam de Mallarmé e, mutuamente, prestam-se todas as homenagens. Mas o xadrez é um jogo, enquanto que a poesia é algo mais sério, e aquilo que resulta simpático nos enxadristas nos poetas é sinal de uma mesquinhez imperdoável. A primeira consequência desse isolamento social dos poetas é que o mundo poético todo se infla, e mesmo os criadores medíocres alcançam dimensões apocalípticas e, pelo mesmo motivo, problemas de pouca importância ganham uma transcendência que assusta. Faz algum tempo houve, entre os poetas, uma grande polêmica sobre a famosa questão das assonâncias, e parecia que o destino do universo dependia do fato de ser ou não possível rimar “espessura” e “sussurram”. É o que acontece quando o espírito de grêmio domina o espírito universal.

A segunda consequência é ainda mais desagradável: o poeta não sabe se defender dos seus inimigos. E assim vemos como, no terreno pessoal e social, se coloca em evidência a mesma estreiteza de estilo que mencionamos mais acima. O estilo não é senão uma atitude espiritual diante do mundo, mas existem vários, e o mundo de um sapateiro ou de um militar tem pouco a ver com o mundo dos versos; como os poetas vivem entre eles e entre eles formam seu estilo, tornam-se dolorosamente indefesos diante daqueles que não compartilham seus credos. A única coisa que são capazes de fazer, quando se veem atacados, é afirmar que a poesia é um dom dos deuses, indignar-se contra o profano ou lamentar-se pela barbárie dos nossos tempos, o que decerto se mostra bastante gratuito. O poeta se dirige apenas àquele que já está envolvido com a poesia, ou seja, àquele que já é poeta, mas isso é como se um padre desse seu sermão a outro padre. Mas quão mais importante é, para a nossa formação, o inimigo do que o amigo! Apenas frente ao inimigo podemos verificar plenamente nossa razão de ser e apenas ele procura a chave de nossos pontos fracos e nos põe o selo da universalidade. Por que, então, os poetas fogem do choque salvador? Ah, porque carecem de meios, de atitude, de estilo para enfrentá-lo. E por que lhes faltam esses meios? Ah, porque evitam o choque.

A mais séria dificuldade de ordem pessoal e social que o poeta deve enfrentar provém de que ele, considerando-se superior enquanto sacerdote da poesia, dirige-se a seus ouvintes de cima, mas os ouvintes nem sempre reconhecem seu direito à superioridade e não querem escutá-lo de baixo. Quanto maior o número de pessoas que põem em dúvida o valor dos poemas e desrespeitam o culto, mais delicada e próxima ao ridículo fica a atitude do vate. Mas, por outro lado, cresce também o número de poetas e, a todos os excessos da poesia já enumerados, é preciso acrescentar o excesso de bardos e o excesso de versos. Estas cifras ultrademocráticas minam, a partir de dentro, a aristocrática e orgulhosa atitude do mundo dos poetas, e nada mais comprometedor, nesse sentido, do que quando se veem a todos reunidos, por exemplo, em um congresso: uma multidão de seres excepcionais. Um artista verdadeiramente preocupado com a forma buscaria alguma saída desse beco, porque não restam dúvidas de que esses problemas, que em aparência são apenas pessoais, estão estritamente vinculados à arte, e a voz do poeta não soa bem, nem pode ser séria e convincente, enquanto ele mesmo é ridicularizado por tais contrastes.

Um artista criador e vital não vacilaria em mudar totalmente de atitude e, por exemplo, se dirigiria de baixo à gente: como aquele que pede o favor de ser reconhecido e aceito como o que canta, mas, ao mesmo tempo, sabe que aborrece. Poderia também proclamar publicamente essas antinomias e escrever seus versos sem estar satisfeito e desejando ser modificado e renovado pelo choque regenerador com os outros homens. Mas não é possível exigir tanto dos que dedicam toda a sua energia à “depuração” de sua rima. Os poetas seguem agarrando-se febrilmente a uma autoridade que não possuem e embriagando-se a si mesmos com a ilusão do poder. Que iludidos! De cada dez poemas, pelo menos um cantará o poder do Verbo e a elevada Missão do Poeta – o que demonstra justamente que o Verbo e a Missão estão em perigo… E os estudos ou resenhas sobre poesia proporcionam uma singular impressão: porque sua inteligência, sutileza e fineza estão em contraste com o tom que é ao mesmo tempo ingênuo e pretensioso. Os poetas ainda não compreenderam que não se pode falar de poesia em tom poético e por isso suas revistas estão cheias de poetizações sobre a poesia, quase sempre horripilantes por seu estéril malabarismo verbal. É a esses pecados mortais contra o estilo que os levam o temor que sentem da realidade e a necessidade de encontrar, a todo custo, uma afirmação do seu esmorecido prestígio.

A cegueira voluntária se nota também neste simplismo tremendo em que caem alguns homens, por outro lado muito inteligentes, quando se trata de sua sorte. Muitos poetas pretendem se salvar das dificuldades expostas acima declarando que eles escrevem apenas para si mesmos, para seu próprio gozo estético, ainda que, ao mesmo tempo, façam o possível para publicar suas obras. Outros buscam sua salvação no marxismo e afirmam com toda seriedade que o povo é capaz de assimilar seus refinados e difíceis poemas, produtos de séculos de cultura. Agora a maioria dos poetas crê firmemente na repercussão social dos versos e nos dirão surpresos: “Mas como pode você duvidar… Veja as multidões que assistem aos recitais poéticos. Quantas edições são publicadas! Quanto se escreve sobre a poesia e quão admirados são os que conduzem os povos pelo caminho da Beleza”.

Não lhes ocorre pensar que, num recital poético, é quase impossível assimilar um verso (porque não basta escutar um verso moderno uma só vez para entendê-lo), que milhares de livros são comprados para não serem jamais lidos, que os que escrevem sobre poesia nos jornais são poetas e que os povos admiram os seus poetas porque precisam de mitos. Não se dão conta de que, se as escolas não ensinassem às crianças o culto dos poetas, em suas tristes e tão formais aulas de língua nacional, e se esse culto não se mantivesse por inércia entre os adultos, ninguém, além de uns poucos aficionados, se interessaria por eles. Não querem ver que a suposta admiração ao canto versificado é, em realidade, o resultado de muitos fatores como a tradição, a imitação e ainda outros como o sentimento religioso ou o interesse esportivo (porque assistimos a um recital poético do mesmo modo que a uma missa – sem compreendê-lo – e apenas cumprindo um ato de presença frente a um rito; e porque nos interessa a corrida dos poetas em direção à glória como nos interessam as corridas de cavalos); não, esse complicado processo da reação das multidões se reduz para eles à fórmula: “o verso encanta porque é belo…”.

Que me desculpem os poetas. Eu não os ataco para molestá-los e com gosto farei homenagem aos altos valores pessoais de muitos deles; mas o cálice dos seus pecados já se encheu. É preciso abrir as janelas desta hermética casa e pôr seus habitantes ao ar fresco, é preciso sacudir a pesada, majestosa e rígida forma que os oprime. Pouco me importa que insultem a mim ou a minha nota. – Por acaso posso esperar que aceitem um julgamento que tira sua razão de ser? – E, além disso, minhas palavras estão destinadas à nova geração. O mundo se veria em situação desesperadora se a cada ano não entrasse um novo contingente de seres humanos, frescos, livres do passado, não comprometidos com ninguém nem com nada, não paralisados por postos, glórias, obrigações e responsabilidades, seres, enfim, não definidos pelo que já fizeram, e portanto livres para escolher.

Este é o Caderno de Leituras n.17. Outras publicações das Edições Chão da Feira estão disponíveis em: www.chaodafeira.com.


[1] Este ensaio foi lido por Gombrowicz em 28 de agosto de 1947 na livraria Fray Mocho, em Buenos Aires, na época de sua residência na Argentina. Em 1955, o texto foi publicado na revista Ciclón, de Havana. Entrementes, em 1951, Gombrowicz publica uma versão ampliada e retocada na revista polonesa Kultura, editada em Paris. O texto conhece, além desta, duas traduções para o português: uma feita em Portugal (“Contra os poetas”, Antígona, 1989) e uma mais recente, editada no número 12 da revista brasileira Serrote.