Ferreira Gullar e Augusto de Campos, retaguardistas

Resumidamente, falarei das escritas retaguardistas, destacando quatro artistas. Três deles, Pierre Ménard, Ferreira Gullar e Augusto de Campos, dispensam apresentação, mas o quarto, Kenneth Goldsmith, ainda é pouco divulgado e discutido no Brasil. Como essa lista de autores deixa entrever, a retaguarda dos séculos XX e XXI é o meu tópico principal.

Não pretendo, contudo, repetir a indagação: “O pós-modernismo é uma retaguarda?”, já feita por Henri Garric, num dos ensaios do livro Les arrière-gardes au XXe siècle, organizado por William Marx. Mas gostaria de apresentar o conceito de retaguarda estética, associando-o, tanto quanto possível, ao de pós-modernismo. Porém, alerto, o conceito de retaguarda poderá ir de encontro a certo pós-modernismo decadente. Nesse sentido, a retaguarda contesta os aspectos tradicionalistas do pós-moderno.

Feita essa ressalva, é possível afirmar que a retaguarda veio à tona e se afirmou no período que corresponde à era pós-moderna. E já posso adiantar que, para mim, a retaguarda não se confunde simplesmente com os movimentos retrógrados, sendo, ao contrário, coisa bem diversa, muito mais rica e ambígua, e, como já afirmou William Marx, é de invenção recente. Ou, nas palavras de Marjorie Perlojff, “When an avant-garde movement is no longer a novelty, it is the role of the arrière-garde to complete the mission, to ensure its success”. [1]

Baudelaire, todos sabemos, ironizou e condenou as metáforas militares, abusivamente usadas na sua época, a época moderna, da qual ele foi ao mesmo tempo o cantor e o crítico. Em Meu coração desnudado, por exemplo, composto de uma série de notas escritas em papéis soltos, que foram reunidas e publicadas postumamente, ele afirma:

“[39] Do amor, da predileção dos franceses pelas metáforas militares. Aqui, toda
metáfora vem com bigode.
Literatura militante.
Manter o avanço.
Levantar a bandeira.
Manter a bandeira levantada.
No corpo a corpo.
Um dos veteranos.

Todas essas gloriosas expressões são geralmente aplicadas aos fanfarrões e aos desocupados de botequim.

[40] Metáforas francesas
Os poetas de combate.
Os literatos de vanguarda.
Essa inclinação pelas metáforas militares denota não espíritos militares, mas
espíritos feitos para a disciplina, isto é, para a conformidade, espíritos que nascem
domesticados, espíritos belgas, que só conseguem pensar em grupo.”[2]

Nessa crítica que o moderno Baudelaire faz à modernidade, aos espíritos que nascem domesticados, espíritos feitos para a disciplina, o poeta ironiza o apego dos franceses às metáforas militares, mencionando a vanguarda, mas nenhuma palavra diz a respeito da retaguarda. A noção de batalha ou guerra, no campo da cultura, não é exclusiva do século XIX, o século de Baudelaire. O uso da palavra vanguarda, no sentido figurado, nos levaria certamente ao final do século XVI, ou ao início do século XVII. No século XIX, passou a designar um grupo inovador no campo das ideias ou das artes, e foi nesse mesmo sentido figurado que ela foi utilizada no século XX pelos movimentos estéticos que assumiram a posição mais avançada na luta contra a tradição, a posição de ultramodernos, no campo social e artístico.

A noção de retaguarda não teve, nos dois últimos séculos, emprego relevante no discurso crítico e filosófico, podendo, por isso, ser considerada de invenção recente, como já comentei. No seu emprego normal, ou militar, o termo retaguarda não possui conotação negativa, como enfatizou William Marx. É preciso ressaltar isso, antes de prosseguir, a fim de que o papel da retaguarda, no campo de batalha, que é o de proteger o movimento da tropa, seja por nós melhor compreendido. William Marx é muito claro, quando afirma:

Étrangement, le terme d’arrière-garde resta lui-même à l’arrièe-garde de l’évolution que subissait celui d’arrière-garde. On notera d’abord que, dans son sens propre, arrière-garde ne contient aucune des connotations négatives qui s’attachent au sens figuré: l’arrière-garde est une composante normale de toute armée; son rôle, essentiel, consiste à couvrir les arrières et, dans l’histoire militaire, on constate que les meilleurs généraux sont affectés à son commandement. [3]

A retaguarda é importante, ou muito importante, num momento de retirada, de retrocesso. Talvez valesse a pena, talvez não fosse em vão, nesta discussão da arte pós-vanguardista, ou retaguardista, transcrever um breve relato de uma das mais sangrentas guerras do século XIX, a do Paraguai. Segundo o Visconde de Taunay (1843-99), no livro A Retirada da Laguna, após invadir o país vizinho pelo norte, uma paupérrima e pequena coluna do exército brasileiro foi obrigada a retornar para o território nacional, cruzando de volta a fronteira, constituída pelo rio Apa:

Cumprido este dever, pusemo-nos a caminho, agora na formação de marcha recentemente adotada. O corpo de caçadores, ainda na vanguarda, recebeu uma peça de artilharia; o 17º Batalhão dos voluntários de Minas compunha, também com um canhão, a retaguarda; no centro, o 20º Batalhão e o 21º, cada qual com sua peça, escoltavam à direita e à esquerda a bagagem, flanqueada por duas filas de carretas puxadas por bois. O conjunto desta massa móvel configurava um grande quadrado que, em cada face, tinha diante de si outro quadrado menor: disposição judiciosa para nos proteger contra as cargas de cavalaria, visto que as quatro frentes podiam ser varridas pelo fogo cruzado de nossa infantaria; para garantir ainda mais a segurança, linhas de atiradores circundavam todo o corpo de exército. [4]

Essa minuciosa descrição de uma formatura do exército em retirada tem a utilidade de revelar, ou mostrar nitidamente, o quanto a vanguarda e a retaguarda estão inextricavelmente ligadas uma à outra. A vanguarda não pode jamais marchar sem uma retaguarda atuante e perfeitamente constituída. Também é possível, como Taunay o faz, enfatizar essa ligação e adicionar ao grande quadrado outros quadrados menores, a fim de compor, aparentemente, uma vanguarda da vanguarda e uma retaguarda da retaguarda, radicalizando, a meu ver, o papel de uma e de outra. Isso é necessário nos momentos de crise, na hora do desastre iminente, quando a batalha está quase perdida. No seu sentido militar, então, a retaguarda não é de maneira nenhuma a face oculta da vanguarda, visto ser tão importante quanto ela. Porém, no sentido figurado, tem-se falado, ou é possível falar, que a retaguarda é a face oculta das revoluções modernistas; e, de fato, a retaguarda foi apresentada, no discurso crítico das últimas décadas, como o lado desconhecido ou ignorado das vanguardas históricas.

A observação de que não há retaguarda senão em relação a uma vanguarda é mais do que justa; e desejaria explorar as consequências dessa óbvia constatação, estreitando meu diálogo com William Marx e Marjorie Perloff, dois estudiosos que contemporaneamente consagraram o termo retaguarda, o qual estou também utilizando aqui, a fim de refletir, à minha maneira, sobre o modernismo e o pós-modernismo. Das observações de ambos gostaria de trazer à tona, agora, estas constatações: do ponto de vista estético, nem toda vanguarda determina necessariamente sua retaguarda; ademais, existe uma ambiguidade essencial à noção de retaguarda, daí ela poder também ser percebida por alguns como um insulto, como uma declaração ou confirmação de uma tendência retrógrada no campo artístico.

Mas, como já alertei, não emprego aqui o termo nesse sentido pejorativo ou negativo, e, ao chamar Pierre Ménard, por exemplo, de retaguardista, de maneira alguma desejo insultá-lo. William Marx fez a esse respeito uma afirmação que me interessa: no sentido figurado, a retaguarda aparece como um movimento que se converteu tardiamente à estética da vanguarda. [5] O quadrado descrito pelo Visconde de Taunay, na citação acima, não seria apenas espacial, mas também temporal. A retaguarda não estaria apenas atrás da vanguarda, mas em outro tempo, um tempo futuro. A vanguarda e a retaguarda não estão no mesmo tempo, tampouco no mesmo espaço. A retaguarda, em relação à vanguarda, seria o livro por vir, a arte por vir. A retaguarda é sempre anacrônica, mas afirmar isso não é insultar ou desvalorizar a retaguarda; o anacronismo, aqui, é inerente à ambiguidade que enriquece o termo e que relativiza, em consequência, a noção moderna de tempo linear, contínuo. O tempo pós-moderno se expande em muitas direções e torna o anacronismo (sobreposição de tempos diversos) um procedimento necessário, que nada tem a ver com movimento estético reacionário.

O caso de Pierre Ménard pode ser muito esclarecedor e merece ser citado agora. Reproduzo o que diz William Marx desse curioso personagem:

C’est pourquoi personne n’est plus avant-gardiste que le personnage borgésien de Pierre Ménard, dont le projet de recréer mot pour mot Don Quixotte en plein XXe. Siècle aurait semblé a priori incarner si bien l’arrière-garde; Borges démontre cependant qu’écrit  au XXe. Siècle, le roman de Cervantes signifie tout autre chose qu’au Siècle d’or.    [6]

O autor da frase deseja chamar a atenção para o sentido novo que toda retaguarda produz, mesmo que, à primeira vista, ela possa parecer apenas retrógrada. Pierre Ménard é tão retaguardista, o seu impulso criador é tão absolutamente (e absurdamente) retaguardista, que isso o torna, depois, o mais vanguardista dos escritores do século XX. O próprio William Marx propôs uma fórmula elucidativa, que me permito reproduzir:

Une avant-garde peut cacher une arrière-garde. Mais l’inverse est vrai aussi: en toute arrière-garde se dissimule une avant-garde en puissance. Ce sont les deux faces d’une même réalité. [7]

Se a retaguarda continua a vanguarda e se ambas se completam uma à outra, como a frase acima nos deixa entrever, talvez um bom exemplo disso nos possa ser dado por Marjorie Perloff, na sua análise do concretismo brasileiro.[8]  Ela se pergunta por que a poesia experimental de um país periférico feito o Brasil tomou como referência, nos anos 1950, as obras de autores vanguardistas distantes do contexto cultural local, como Ezra Pound e James Joyce, sendo que o primeiro, na época, era sobretudo uma figura controversa e combatida, ainda longe de se tornar autor canônico, o que viria a acontecer, no entanto, nas décadas posteriores.

Se a poesia concreta renovou procedimentos da vanguarda histórica, como o Futurismo, por exemplo, ela poderia sem dúvida ser lida como uma retaguarda, sem nenhuma intenção polêmica ou insultuosa de minha parte. Citando Antoine Compangon, que colabora no volume de ensaios organizado por William Marx, a estudiosa norte-americana afirma que o papel da retaguarda é salvar o que está ameaçado: os procedimentos de vanguarda.  Isso corresponde, a meu ver, ao trabalho de resgate e divulgação no Brasil da obra de Pound, hoje definitivamente (ou ilusoriamente) já incorporada ao nosso repertório, e isso devemos sem dúvida à posição resolutamente retaguardista dos irmãos Campos e de Décio Pignatari, nos áureos tempos do concretismo nacional e internacional. A posição retaguardista, que é a de recuperar e ressignificar, mostra claramente que a vanguarda nunca foi de fato absorvida pela cultura estabelecida.

Sabemos que o poeta Ferreira Gullar rompeu com o concretismo, sob o pretexto de que os autores de São Paulo estariam propondo, em seus manifestos, o advento de uma poesia matemática, ou abstrata demais. O fato é que surgiram, nos anos 1960, duas retaguardas, uma carioca, intuitiva, representada por Gullar, e outra paulista, ou paulistana, cerebral, representada por Augusto de Campos, uma empenhada em combater a outra. Isso se prolonga até os nossos dias. A vanguarda de Gullar não é a mesma de Augusto, por isso eles se situam hoje em retaguardas distintas, as quais, muitas vezes, se colocam em posições opostas e se enfrentam ferozmente nessa guerra poética particular, cada poeta retaguardista tentando salvar o procedimento de vanguarda que lhe é mais congenial. E será assim enquanto os dois estiverem em lados opostos do campo de batalha. Não sei qual dos dois exércitos se retirará primeiro…

Perloff comenta, porém, que a retaguarda trata as propostas da vanguarda do início do século XX com um respeito que beira a veneração. [9] Mas ela também opina que a retaguarda é mais do que isso, ou seja, não é um simples “revival” ou “renascimento” de um modelo vanguardista. Acredito, como Perloff, que a retaguarda seja muito mais produtiva, muito mais ativa do que passiva ou simplesmente nostálgica. A retaguarda não repete o passado, ela é anacrônica ou múltipla, faz, digamos, Tchaikovsky, Stravinsky e Rachmaninov conviverem bem na mesma (não) melodia. A vanguarda da retaguarda, tal como eu a entendo, não volta à cena contemporânea como “farsa”, como cópia insossa da vanguarda canonizada: configura-se, antes, como um complexo projeto de recuperação, recriação e, finalmente, de invenção. A retaguarda não é só recuperação. A vanguarda da retaguarda implica também invenções, descobertas.

A proposta do poeta norte-americano Kenneth Goldsmith pode ser elucidativa. [10] Ao posicionar-se contemporaneamente contra a expressão, “against expression”, Goldsmith enveredou pela escrita conceitual e, levando essa noção ao seu limite, não pretende inventar nada, nem tampouco ser lido. Um “found text” qualquer, um texto encontrado, quando oferecido como poema ou prosa a um leitor incauto, poderá ser considerado por este terrivelmente tedioso, ou mesmo, ou sobretudo, de leitura impossível. Goldsmith, em seus “found texts”, em sua escrita conceitual, assume alegremente esse desafio. Seria um escritor não criativo, um dos gênios sem originalidade (um “unoriginal genius”) do século XXI.

Não se trata de mera boutade dadaísta. Goldsmith, em pleno século XXI, em plena era pós-moderna, aparentemente estaria retomando, na sua luta contra a expressão, na sua luta contra a “primeira pessoa” lírica, um projeto de vanguarda histórica muito sério, ou seja, aquele que constitui o cerne mais radical da obra de Walter Benjamin, Passagens (1927-1940).[11]  Novamente, não se trataria de repetição nostálgica ou inócua, mas de outra coisa bem diferente, muito mais ativa do que passiva. Bastaria recordar agora a obra de Pierre Ménard, a mais significativa do século XX. Assim como Walter Benjamin, Ménard também é um precursor de Goldsmith, o gênio sem (aparentemente) originalidade. Sua obra Day (2003), por exemplo, é a reprodução completa de uma edição do jornal The New York Times, enquanto Soliloquy (2001) é a transcrição de todas as palavras que o autor disse durante uma semana. Mas essas transcrições longe estão de serem mecânicas. Como diria Borges, com magnífica ironia, tudo, tanto o jornal quanto as palavras não editadas do dia-a-dia, se torna infinitivamente mais rico nos livros de Goldsmith, um poeta autenticamente retaguardista que pretende reescrever, no século XXI, e em Nova York, a obra Passagens, de Walter Benjamin, essa colagem imensa que se apropriou de textos alheios, montou-os em certa sequência e os desfamiliarizou, como apontou Perloff, enriquecendo-os de muitas maneiras. Essa história cotidiana da modernidade, a partir de Paris do século XIX, dará lugar, agora, à história cotidiana da pós-modernidade, se ainda quisermos utilizar esse termo.

A retaguarda, como disse, é a face oculta do modernismo radical, inventivo. Hoje, a retaguarda é uma das faces aceitas ou reconhecidas do pós-modernismo, sem dúvida uma face que, mais do que as outras, menos lhe pertence. Quero dizer que o pós-modernismo, ou que certo pós-modernismo, que não é o meu, evidentemente, mas sim aquele que aboliu o conceito de ruptura das vanguardas históricas, talvez não possa aceitar, talvez não possa tolerar hoje a irrequieta vanguarda da retaguarda, ou seja, uma retaguarda que não seja simplesmente retrógrada.

Não poderia agora, para concluir, senão citar um fragmento da entrevista de Roland Barthes a Jean Thibaudeau, à qual remetem Antoine Compagnon e Marjorie Perloff, em seus respectivos textos sobre a retaguarda já mencionados. Barthes afirma:

Digamos que, no estado transitório da produção atual, os papéis estão simplesmente embaralhados, mas ainda não foram abolidos: de minha parte, não me considero um crítico, mas sim um romancista, scriptor, não do romance, é verdade, mas do ‘romanesco’: Mitologias, Império dos Signos são romances sem história, Sobre Racine e S/Z são romances sobre histórias, Michelet é uma parabiografia etc. Por isso eu poderia dizer que minha própria proposta histórica (sempre é preciso interrogar-se a respeito) é estar na retaguarda da vanguarda: ser de vanguarda é saber o que está morto; ser de retaguarda é amá-lo ainda; amo o romanesco, mas sei que o romance está morto; esse é, acredito, o lugar exato do que escrevo. [12]

Muitos ainda amam a vanguarda histórica, mesmo sabendo que ela está morta. Pois ser de retaguarda é amá-la ainda.

(Este texto, sob o título “Retaguarda e retaguardistas, ontem e hoje”, foi lido no Congresso Internacional da Abralic, realizado em Curitiba no último mês de julho.)

Sobre Sérgio Medeiros

Poeta, tradutor e professor de literatura na UFSC. Seu poema longo, “Retrato totêmico de Claude Lévi-Strauss”, será publicado em outubro, nos EUA, na “Mandorla Magazine”, da Universidade de Illinois. Seu novo livro, “O sexo vegetal”, sairá no Brasil em breve.