GIORGIO CAPRONI

Tradução, por Aurora Bernardini, do prefácio de Giorgio Agamben para Res amissa, em Giorgio Caproni – Tutte le poesi (Milão: Garzanti, 1991), e de alguns poemas do mesmo autor.

 

Giorgio Agamben

 

No momento de sua morte, ocorrida no dia 22 de janeiro de 1990, Giorgio Caproni estava preparando uma coletânea de poemas que já havia anunciado em diversas ocasiões e a diferentes pessoas, tanto pública como privadamente. Eram conhecidos o título e o conteúdo desses escritos e, ainda, sua ligação com a coletânea anterior. Ao completar, pouco antes de 2 de janeiro de 1987 – se não exatamente nesse dia (data da carta de Gianni D’Elia, diretor da revista Lengua, que estava acompanhando a remessa da quarta e definitiva redação da coletânea) – o poema “Res amissa”, ele anotou no manuscrito: “Este poema será o tema de meu novo livro (se é que conseguirei fazê-lo), acompanhado de variações, tal como, no Conde de Kevenhüller [outra de suas coletâneas],o tema é a Besta (o Mal) em suas diferentes formas e metamorfoses. Todos nós recebemos de presente algo de precioso, que depois perdemos irrevogavelmente. (A Besta é o Mal. A res amissa [a coisa perdida]é o Bem.)”.

Porém, já no primeiro esboço do poema (não datado, mas certamente posterior ou contemporâneo aos primeiros dias de novembro de 1986, quando Caproni esteve em Colônia, e durante a estada na qual se dá o episódio que serve de movente ao poema), outra anotação, a princípio datilografada e depois continuada nervosamente à caneta, reza: “Todos (sem lembrar de quem)/ recebemos um dom precioso/ e tão ciosos o escondemos que não lembramos onde e até mesmo de que dom se trate – Res amissa, o contrário do Conde Centro, a perda”.

Mais tarde, numa entrevista a Domenico Astengo do Corriere Del Ticino, concedida em 11 de fevereiro de 1989), Caproni confirmou:

Um pequeno poema [“Generalizando”] que justamente, generalizando, tem a pretensão de ser um pouco a didascália, ou a concentração, de um livro no qual estou pensando e o qual gostaria de intitular, se conseguir finalizá-lo, de “Res amissa”. A idéia surgiu de um fato bastante banal, mas muito longo para contar aqui. Pode acontecer a qualquer um de guardar com tanto cuidado algo precioso a ponto de esquecer não apenas o lugar onde foi colocado, como a natureza exata de tal objeto. Trata-se de um tema, em sua aparente primariedade, bastante ambicioso, concordo com isso, especialmente pelas “variações” que pode gerar. Desta vez, entretanto, não se trata mais da caça à Besta, como no Conde de Kevenhüller, e sim da caça ao Bem perdido. Um Bem deixado completamente ad libitum do leitor, quem sabe até mesmo identificável, para um crente, com a Graça, visto que existe uma Graça passível de amissão. Com a Graça ou com algo do gênero. (De qualquer modo, este último caso não é o meu, acredito.)

A idéia para uma variação tão “ambiciosa” pode ter sido dada, para Caproni, tão-somente pelo verbete (conforme testemunha a anotação em um dos folhetos do manuscrito) de um dos dicionários que ele habitualmente consultava; o Palazzi (amissível, do latim amittere, “que se pode perder: graça amissível”). Tanto mais surpreendente é a rapidez com que esse lacônico lema basta para servir de introdução à reformulação de um árduo problema teológico e ético (com efeito, quem tiver tido a oportunidade de folhear um dos exemplares da Commedia que pertenceram a Caproni, cheios de marginalia e gastos de tanto terem sido manuseados, não terá dificuldade em imaginar quanta teologia poderia ser veiculada através deles, sem prejuízo de leituras ulteriores). De todo modo, o tema da amissibilidade da Graça já se encontra pela primeira vez em Agostinho, justamente um autor caro a Caproni. Agostinho, a propósito da disputa que o opõe a Pelágio em De natura et gratia. [Trata-se do mesmo tema a respeito do qual discute Kafka, nos anos da Grande Guerra, com seu amigo Felix Weltsch, autor de um livro sobre Liberdade e graça: “Quem era Pelágio? Sobre o pelagianismo já li muito, mas não me lembro de nada” (carta de Kafka a F. Weltsch, de dezembro de 1917)].

É conhecida a posição de Pelágio, uma das figuras mais íntegras entre as que a ortodoxia dogmática relegou às margens da tradição cristã: é característica inerente à natureza humana e dela inseparável (é a esse propósito que Agostinho cunha o adjetivo “inamissível” [“Quamquam inseparabilem habere possibilitatem id est, ut ita dicam, inamissibilem”. De natura et gratia, L. I., 59]) a possibilidade de não pecar (impeccantia), razão pela qual não seria necessária a intervenção de uma graça ulterior, por ser a natureza humana ela mesma obra da graça divina.

Com sua acuidade costumeira, Agostinho intui as conseqüências dessa doutrina e retrocede, assustado, diante delas: a impossibilidade de distinguir entre a natureza humana e uma graça tornada inamissível e, portanto, a ruína da própria noção de pecado.

É por isso que a Igreja condena o pelagianismo e sustenta, contra todas as correntes extremistas, em conjunção com a necessidade de intervenção da Graça, também seu caráter essencialmente “amissível”, isto é, sua perda através do pecado (Concílio de Trento, sessão VI, c. XV: “Se alguém afirmar que o homem, uma vez que tenha sido justificado, não pode mais pecar nem perder a Graça… anátema”).

A tese de Caproni é uma espécie de pelagianismo levado ao extremo: por ser um dom tão profundamente infundido na natureza humana, a Graça resta-lhe incognoscível para sempre, para sempre “res amissa”, para sempre inapropriável. Inamissível por já estar sempre perdida, e perdida por força de ser – tal como a vida, tal como uma natureza – demasiado intimamente possuída, demasiado “ciosamente (irrecuperavelmente) guardada”.

Por isso, ao explicar a Domenico Astengo o sentido do “espinho da saudade” no poema “Generalizando”, Caproni afirmou: “O conteúdo ou o objeto dessa saudade é a própria saudade”. O bem que é doado aqui não é algo conhecido e depois esquecido (o “depois” de “Generalizando” não remete a uma cronologia – ele é puramente lógico); ao contrário, o dom recebido é, desde o início e para sempre, incognoscível. O “dela” anafórico [“ne” em italiano] que abre “Res amissa” (“Dela não encontro traço”) permanece para sempre privado do termo anaforizado que poderia fornecer-lhe unicamente seu valor denotativo.

N.B.: O episódio que serve de pretexto para “Res amissa”remonta a novembro de 1986, quando Caproni se encontrava em Colônia, na Alemanha, na companhia da filha Silvana. Existe um estenograma desse pequeno incidente, que a filha também descreveu, com algumas diferenças, mas que, de qualquer maneira, inclui uma porta fechada e a intervenção de uma empregada do hotel para abri-la. O poeta atribuiu particular valor a esse poema e à arquitetura tipográfica do texto, visto não ter destruído o manuscrito e as variantes, tal como costumava fazer com seus outros poemas.

 

Res amissa

Dela não encontro traço.

……

Veio me ver a fim
(disso tenho certeza)
de dar-me de presente.

……

Dela não mais encontro traço.

……

Revejo ao findar
do dia o rosto minguado
brancoflautado…

A  manga
em renda…

A graça,
tão doce e germânica
no oferecer…
……
……

Um vento
de choque – um ar
quase silício enregela
agora o quarto…

(É lâmina
de faca?

Tormento
além do vidro e da madeira
– serrada – do postigo?)

……
……

Dela não vejo mais sinal.
Mais traço.

……
…..

Pergunto
à morgana…

Revejo
minguado o minguado rosto branco
flautodesaparecido…
Descerra
– remota – a alvorescente boca,
mas não fala.

(Não pode
– nada pode – dar resposta.)

……
…..

Não mais espero encontrá-la.

Com demasiado cuidado
(irrecuperavelmente) a guardei.

 

Generalizando

Todos recebemos um dom.
Depois, não mais lembramos
de quem nem do quê.
Apenas dele guardamos
– aguçado e sem remissão –
o espinho da saudade.

 

Ao identificar drasticamente na figura da res amissa graça e natureza, Caproni, num gesto característico, torna caducas as distinções categoriais nas quais se fundam a teologia e a ética ocidentais – ou melhor, ele as complica e as desloca para uma dimensão em que seu sentido muda de forma radical. Isso significa que, para o autor, seria possível repetir a boutade com que Benjamin definia sua relação com a teologia, comparando-a à do papel mata-borrão com a tinta: o papel está completamente impregnado dela, mas, se dependesse dele, não sobraria uma única gota de tinta.

A fórmula “teologia negativa” (contra cujo abuso o próprio poeta se protege) não é aqui nem útil nem adequada. O que vale salientar é o modo como a tradição da ateologia poética da modernidade (Caprone chama-a também de “patoteologia”) alcança na obra do poeta seu êxito extremo – seu colapso.

Dessa tradição – se é que se pode falar de tradição –, a poesia de Caproni representa algo como a estação de Astapovo [onde encontrou refúgio Tolstoi, ao morrer]: um ponto de parada casual, porém sem volta, de uma viagem a lugar nenhum, mas que, de qualquer maneira, foge de qualquer figura familiar do humano e do divino.

“Despedida do viajante cerimonioso”

  Amigos, creio seja vantagem
para mim, agora
começar a baixar a bagagem.
Mesmo sem saber bem a hora
da chegada, e nem sequer quais estações
vêm antes da minha,
sinais seguros me dizem
pelo que chegou-me aos ouvidos
desse lugar, que eu
terei logo que os deixar.

  Queiram desculpar
pelo  incômodo que trago.
Com vocês tive agrado
desde a partida, e sou-lhes
muito grato, acreditem,
pela excelente companhia.

  Queria ainda conversar
um bom tempo com vocês. Mas seja.
O lugar do traslado
o ignoro. Sinto
porém que terei de lembrá-los
muito, na nova sede,
enquanto meu olhar já vê
pela janela, além do fumo
úmido da cerração
que nos envolve, roxo,
o disco de minha estação.

Licença peço a vocês
sem poder-lhes calar
leve, uma consternação.
Tão belo era falarmos
Juntos, um frente ao outro:
tão belo misturar
os vultos (fumar
passando o cigarro)
e toda aquela falação
de nós (aquela invencionice
fácil, ao contar dos outros),
até poder confessar
quanto, mesmo espremidos,
jamais ousaríamos um instante
(por engano) confiar.

  (Desculpem. É uma mala pesada
mesmo se contém pouca coisa:
tanto que eu me pergunto por que
a trouxe, e qual
ajuda poderá me dar
depois, quando a tiver comigo.
Mas tenho que levá-la,
nem que seja para o uso.
Dêem-me licença, peço.
Pronto. Agora que ela está
no corredor sinto-me
mais à vontade. Queiram desculpar.)

Dizia que era bom
Estarmos juntos. Conversar.
Tivemos algum
contraste, é natural.
Da mesma forma – é normal
isso também – odiamo-nos
em mais do que um ponto, e contivemo-nos
apenas por cortesia.
Mas, o que importa? Seja
como for, volto
a dizer, de coração, obrigado
pela excelente companhia.

  Despeço-me do senhor, doutor,
e de sua fecunda doutrina.
Despeço-me de você, mocinha
magra, e de seu leve rubor
de recreação e de campina
no rosto, cuja cor
tão suave é tão leve incentivo.
Licença, ó militar
(ou marujo! Em terra
como no céu e no mar)
à paz e à guerra.
E ao senhor também, ó sacerdote,
licença, que me perguntou se eu
(brincava!) recebi como dote
acreditar no vero Deus.

Despeço-me da sabedoria
e despeço-me do amor.
Também da religião.
Cheguei a meu destino.

  Agora que mais forte sinto
o chiado do freio, deixo-vos
de verdade, amigos. Adeus.
Disso estou certo: eu
cheguei ao desespero
calmo, sem inquietação.

  Desço. Boa continuação.

 

. . . . . . . . . .

 

GIORGIO CAPRONI

Nacque a Livorno nel 1912, ma nel 1922 seguì la famiglia a Genova che divenne la sua città adottiva. Fece molti mestieri, di tutti i tipi. Dopo la Resistenza, alla quale aveva partecipato, tornò all’insegnamento e alle collaborazioni giornalistiche. Oltre che importante poeta, fu anche eccellente traduttore dal francese. Morì a Roma nel 1990. Opere principali: Come un’allegoria (1932-35) (Degli Orfini, 1936); Cronistoria (Vallecchi, 1945); Il seme del piangere (Garzanti, 1959); Il “terzo libro” e altre cose (Einaudi, 1968); Res amissa (Garzanti, 1991).