Lucio Costa – pensamento filosófico (três textos)

Desenvolvimento Científico e Tecnológico como parte da natureza

Teoria das Resultantes Convergentes

O desenvolvimento científico e tecnológico não se contrapõe à natureza, de que é, na verdade, a face oculta – com todas as suas potencialidades virtuais – revelada através do intelecto do homem, vale dizer, através da própria natureza no seu estado de lucidez e de consciência. O homem é, então, o elo racional entre dois abismos, o micro e o macrocosmos, ambos fenômenos naturais, cujos produtos “elaborados” são a contrapartida do fenômeno natural “palpável”

Assim temos, de um lado, a natureza ao alcance dos sentidos, ao alcance da mão, e, do outro, a natureza ao alcance do intelecto e da tecnologia. O intelecto e a consciência do homem são a quintessência da natureza tomada como um todo. Razão porque tudo se liga e entrosa – imanentemente ou transcendentalmente – e o desenvolvimento científico e tecnológico, quando livre de seguir sua própria tendência em busca de uma conclusão normal, não pode ser “contra” o homem, uma vez que ele é a peça chave desse processo, no qual o drama da vida se insere. Naturalmente, intervenções constantes, devidas a toda espécie de interesses – econômicos, comerciais, políticos, ideológicos – atuam no sentido de afastar o desenvolvimento científico e tecnológico do seu curso natural. Mas não se podem manter, indefinidamente, tais desvios: o homem é trazido de volta, como que atraído por uma “imponderável” força de gravidade que o faz perder então, gradualmente, aqueles impulsos centrífugos, e aceitar, como por consenso, a resultante de uma imposição científico-tecnológica intrínseca.

Se, confundido pelas múltiplas contradições decorrentes desses desvios da normalidade racional, científica e tecnológica, o homem tenta deter-se a meio caminho, o resultado é o caos. Este é, precisamente, o estado em que os negócios do mundo – e o próprio mundo – hoje se encontram.

Não se deve, contudo, desesperar. É justamente quando a perplexidade atinge seu climax que, por efeito do que talvez se pudesse chamar Teoria das Resultantes Convergentes, novas perspectivas se abrem de repente em meio à configuração intrincada e ilógica dos acontecimentos, e tudo parece, de novo, fácil e claro. O desenvolvimento científico e tecnológico e a ecologia, inteligentemente confrontados, são sempre compatíveis.

O desenvolvimento científico e tecnológico não é o oposto da natureza, mas a própria natureza que, através do seu estado lúcido, que somos nós, revela o lado oculto, virtual.

Pg. 404
Legenda da ilustração:

Depois de tantos séculos de figuração como crucificado “vencido”, o Aleijadinho foi o único artista, e crente, que ousou figurá-lo de cabeça erguida, encarando a Eternidade de frente.

Pg. 405

O crente e o que descrê

Recado a S.S. o Papa

 

Alceu Amoroso Lima

Cabe lembrar, agora que ele morreu, a sua clara e lúcida intuição daquilo que é, de fato, a chave do momento social e econômico que o mundo vive: dada a fabulosa capacidade atual de produzir e distribuir em massa bens de consumo, o que dantes não ocorria, impõe-se que o religioso (transcendência) e o ateu (imanência) caminhem lado a lado, na mesma direção, até que se resolva o impasse do já agora imoral confronto dos poucos que tudo possuem com a multidão dos que nada têm.

Corrigida a disparidade – seja qual for a ideologia em causa –, o que descrê já se dará por satisfeito, ao passo que o crente prosseguirá porque sua meta está além, noutro plano, na aceitação em estado de graça do Mistério tal como expresso na “Santíssima Trindade”, – o Pai, o Filho e o Espírito Santo. O Espírito santo é imune a toda razão que não seja a da própria fé, já que se basta como Razão Maior, – primeira e final.

Assim, a constelação de igrejas e capelas que há vinte séculos se constroem pelo mundo não se alicerça tão só nos profundos baldrames de pedra, mas, principalmente, na solidez imaterial de uma idéia inteiriça – inconsútil – o Espírito Santo, simbolicamente figurado como “pomba e resplendor” .

Pg. 407
Legenda da ilustração:

MIGUEL ANGELO
“A criação”

Elucubração

Do “nenhum ser” – nec entem (pas un être) – ao ser.

“O universo é uma esfera cujo centro está em toda parte e a circunferência em parte alguma.”

 

O “nenhum ser” é absoluto, o “não ser” é relativo. A transformação da pura energia em matéria – a chamada poeira cósmica – e sua progressiva, acidentada e propiciadora consolidação até o lento evoluir – de mutação em mutação – do “nenhum ser” ao ser individuado, lúcido, consciente, teria mesmo de ocorrer independentemente da interferência externa ou não de um Criador – transcendência – pois que de outra forma , convém insistir, seria como se, para sempre, nada existisse.

Geralmente nos extasiamos diante do beija-flor, da borboleta, da rosa ou dos ínfimos organismos do microcosmos, como incríveis manifestações da natureza, quando afinal o apuro dela somos nós mesmos, esse fabuloso mecanismo de que resultou – intransferível – a lucidez e a consciência de cada indivíduo como pessoa.

Assim, ao encararmos o céu na escuridão da noite estrelada, não nos cabe a generalizada sensação da nossa própria insignificância, ou de nos sentirmos como simples vermes diante daquela imensidão sem fim nem princípio, quando na verdade somos, de fato, o coroamento, o “aboutissement” de tudo isso.

Esse espaço infinito não podendo ser estático, e havendo “correntes”, a espiral – energia – foi uma simples decorrência, e, assim, o mundo começou.

 

Não existe mistério.

O mistério é uma invenção do homem perplexo e inconformado – desencantado – diante do fato de ser ele apenas – vagabundo, gênio ou santo – e nada mais, o remate da Evolução.

Inconformado desencanto que é, porém, precisamente, o que o engrandece e dignifica.