Marjorie Perloff fala da função da crítica

Marjorie Perloff nasceu Gabriele Mintz, em 1931, em uma família judia em Viena. Ante o terror nazista, sua família emigrou em 1938 quando Marjorie tinha seis anos e meio; foram primeiro para Zürich e depois para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Riverdale, Nova York. Após estudar no Oberlin College de 1949 a 1952, ela se formou no Barnard College em 1953; nesse ano, casou-se com Joseph K. Perloff, cardiologista e professor de medicina na Streisand/American Heart Association e pediatra emérito na UCLA. Perloff completou sua graduação na Catholic University of America em Washington, obtendo um M.A. em 1956 e um Ph. D (com uma dissertação sobre W.B. Yeats) em 1965.

Marjorie ministra cursos e escreve sobre poesia e poética dos séculos XX e XXI, ambas as artes anglo-americanas e de uma perspectiva comparatista, bem como sobre o intermedia e visuais. Ela é professora emérita de Inglês na Universidade de Stanford e Florença R. Scott, e professora emérita de Inglês na Universidade do Sul da Califórnia. É membro da Academia Americana de Artes e Ciências e da Sociedade Filosófica Americana.

Algumas publicações: Poetics in a New Key: Interviews and Essays (University of Chicago Press, 2014); Unoriginal Genius: Poetry by Other Means in the New Century (University of Chicago Press, 2010); Differentials: Poetry, Poetics, Pedagogy (University of Alabama Press, 2004); The Vienna Paradox: A Memoir (New Directions Books, 2004); The Futurist Moment: Avant-Garde, Avant Guerre, and the Language of Rupture, with a New Preface (University of Chicago Press, 2003); Poetry On and Off the Page: Essays for Emergent Occasions (Northwestern University Press, 1998); Frank O’Hara: Poet Among Painters (University of Chicago Press, 1998); The Dance of the Intellect: Studies in the Poetry of the Pound Tradition (Northwestern University Press, 1996); Wittgenstein’s Ladder: Poetic Language and the Strangeness of the Ordinary (University of Chicago Press, 1996); Radical Artifice: Writing Poetry in the Age of Media (University of Chicago Press, 1991); Poetic License: Studies in the Modernist and Postmodernist Lyric (Northwestern University Press, 1990).

Edições brasileiras de Perloff: O momento futurista: avant-garde, avant-guerre, e a linguagem da ruptura (Tradução de Sebastião Uchoa Leite. São Paulo: Edusp, 1993); A escada de Wittgenstein: a linguagem poética e o estranhamento do cotidiano (Tradução de Elizabeth Rocha Leite e Aurora Fornoni Bernardini. São Paulo: Edusp, 2008); O gênio não original (Tradução de Adriano Scandolara. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013).

A. LEITURA DE POESIA

Sibila: Você lê poesia?

Perloff: Sim.

Sibila: Que poesia você lê?

Perloff: Leio os livros mais recentes dos poetas que admiro, como Susan Howe e Charles Bernstein;  e de poetas mais jovens, como Craig Dworkin. Dúzias de livros chegam à minha mesa: a maioria deles eu descarto. Mas leio também poesia mais antiga – ou, melhor dizendo, releio, embora não sistematicamente. Digamos que eu abro um livro, Baudelaire, por exemplo, e leio um dos poemas favoritos.

Sibila: Você acha que a leitura de poesia tem algum efeito?

Perloff: Bem, prazer – certamente –, maior sofisticação linguística e admiração pelas belas maneiras de escrever.

B. ESCRITA DE POESIA

Sibila: O que você espera ao escrever crítica?

Perloff: Gosto de discutir os significados e os valores de certos poetas e, naturalmente, gosto de escolher os melhores. No passado, fui uma das primeiras pessoas que escreveram sobre John Cage, David Antin, os poetas da Language e mais recentemente Kenneth Goldsmith, de uma outra vertente. Isso dá um grande prazer!

Sibila: Qual o melhor efeito que você imagina para a prática da crítica?

Perloff: Penso que o crítico deva disseminar tanto o conhecimento como o valor – não apenas escrever orelhas para os(as) poetas favoritos. Informar é importante. Explicar o que é que funciona, comove e entusiasma.

Sibila: Você acha que a sua crítica tem interesse público?

Perloff: Bem, não o crítico de poesia, visto que poucos leem poesia, hoje em dia. Mas, ao mesmo tempo, o crítico de poesia que é, quem sabe, uma figura pública pode exercer certa influência.

C. PUBLICAÇÃO DE POESIA

Sibila: Qual o melhor suporte para a sua crítica?

Perloff: A universidade é geralmente o lugar onde o crítico está empregado. Mas há também jornalistas que são críticos e há mesmo freelancers. Entretanto, não se recebe pagamento por ser um crítico enquanto tal; isso faz parte de um trabalho maior.

Sibila: Qual o melhor resultado que você espera da publicação da sua crítica?

Perloff: Espero convencer pessoas com minhas opiniões e espero modificar alguns juízos sobre este ou aquele poeta. Espero poder iniciar um diálogo que venha a ser útil.

Sibila: Qual o melhor leitor de seu livro de crítica?

Perloff: Muitas vezes alunos ou ex-alunos meus respondem à minha crítica da forma mais útil, pois eles realmente refletem e ligam para ela.

Sibila: O que você mais gostaria que acontecesse após a publicação da sua crítica?

Perloff: Gostaria que as pessoas publicassem suas respostas, e isso, muitas vezes, é o que ocorre. Recebo respostas do mundo inteiro e frequentemente do estrangeiro! Quando alguém completamente de fora escreve uma carta de apreciação é particularmente gratificante. E, com os e-mails e as mídias sociais, isso costuma acontecer!

A. READING POETRY

Sibila: Do you read poetry?

Perloff: Yes.

Sibila: What kind of poetry do you read?

Perloff: I read the most recent books by poets I admire like Susan Howe and Charles Bernstein and younger poets like Craig Dworkin.  Dozens of new books come across my desk: I throw most out.  But I also read of course earlier poetry – or I should say reread, although not systematically. I open a book, say, Baudelaire, and read a particular favorite.

Sibila: Do you think that reading poetry would produce any effect?

Perloff: Well, certainly pleasure, greater linguistic sophistication, and admiration for fine ways of writing.  

B.  WRITING POETRY

Sibila: What do you expect from being a critic of poetry? 

Perloff: I like discuss the meanings and values of particular poets and of course I like to pick the winners.  In the past, I was one of the first people to write about John Cage, David Antin, the Language poets, Kenneth Goldsmith.  So that feels good!

Sibila: In your opinion, which is the best effect one can get from practicing poetry and or critic?

Perloff: I think the critic must disseminate both knowledge and value – not just write blurbs for his or her favorite poets. To convey information is important. To explain what it is that works, that is moving and exciting.

Sibila: Do you think your critic  has any public value?

Perloff: Well, not the poetry critic since few people read poetry today. At the same time the poetry critic who is also perhaps a public figure can have an influence.

C. PUBLISHING POETRY

Sibila: Which is the best support for your critic? 

Perloff: The university is usually the employer for the critic but there are also journalist-critics and even freelancers. But one doesn’t get paid for being a critic as such; it is part of a larger job.

Sibila: Which is the best result you expect from the publishing of your critic?

Perloff: I hope to persuade people of my opinions and hope to change some minds about this or that poet.  I hope I can begin a dialogue that will be useful. 

Sibila: Who is the best reader of your critic?

Perloff: Often my students or former students respond most usefully because they really think things over and really care.

Sibila: What would you most like to happen after the publication of your critic?

Perloff: I would like people to respond in print and often that happens. I get a lot of response and from all over the world and often from strangers!  Having a total stranger write you a fan letter is especially gratifying. And with email and social media, that does happen!

Lugares contemporâneos da poesia

Concepção do projeto: Alcir Pécora e Régis Bonvicino

Texto introdutório: Alcir Pécora

Realização: Régis Bonvicino, com a colaboração de Aurora Bernardini e Charles Bernstein

Há reiterados momentos do contemporâneo em que a prática da poesia se parece exatamente apenas uma prática, uma empiria, uma rotina. Faz-se poesia porque poesia é feita. Edita-se poesia porque livros de poesia são editados e foram editados. Por que não continuar editando-os?

Mas qual o significado da arte, quando a arte se reduz a empiria, procedimento habitual que não problematiza os seus meios? Que deixa de inventar os seus próprios fins? Que não desconfia de sua forma conhecida, nem arrisca um lance contra si, inconformada?

Para tentar saber o que pensam a respeito da poesia que produzem alguns dos mais destacados poetas estrangeiros em ação hoje, a revista Sibila propôs-lhes algumas perguntas simples, primitivas até – silly questions! –, cujo escopo principal é deixar de tomar como naturais ou óbvios os automatismos da prática.

Trata-se de saber dos poetas, da maneira mais direta possível, o que ainda os move a ler, a escrever e a lançar um livro de poesia – ou, mais genericamente, a publicar poesia, seja qual for o suporte.

A condição de, por ora, ouvir apenas os estrangeiros é estratégica aqui. Convém evitar respostas que possam ser neutralizadas a priori por posicionamentos desconfiados de vizinhança.

Leitura de poesia, esforço de poesia e publicação de poesia: nada disso é compulsório, nada disso se explica de antemão. Tudo o que se faz, nesse domínio, é fruto de exigência apenas imaginária. Nada obriga, a não ser a obrigação que se inventa para si. A revista Sibila quer saber que invenção é essa. Ou seja: o que os poetas ainda podem imaginar para a prática que os define como poetas.

Contemporary places for poetry

There are plenty of moments in our current life when the practice of poetry seems exactly a practice, something empirical, a kind of routine. One makes poetry because poetry has been made. One publishes poetry because books of poetry are published and were published, why not going on publishing them?

But what meaning does art have when art is reduced to empiricism, the habitual procedure which doesn’t discuss its means? Which doesn’t any longer make up its own aims? Which is not suspicious of its usual form, nor runs the risk of a move against itself, unresigned?

Trying to know what some of the most distinguished foreign poets in action today think about their own poetry, Sibila proposed some very simple questions, some naïve questions – silly questions! –, whose principal aim is no longer to consider as natural (as obvious) the automatisms of the poetical practice.

Sibila asks the poets to tell in the more direct way what still moves them to read, to write, to publish a book of poetry – or, more generically, to publish poetry, in whatever support.

The choice, for the moment, to listen only to foreign poets’ voice is a strategic one. It’s better to avoid answers which would be neutralized a priori, due to suspicious neighbourly attitudes.

Reading poetry, straining to write poetry, publishing poetry: not at all compulsory, all this, not at all explainable in advance. Everything you do in this domain is the result of mere imaginary exacting. Nothing obliges you, unless the obligation you invent yourself, for yourself. Sibila wants to know what kind of invention is that. Id est: what poets may still make up for the practice which defines them as poets.