Notas sobre arte enquanto porcaria

  1. Uma vez que a arte é invocada, todos os que estão em volta são impelidos a manter sua civilidade, a comportar-se, a obedecer. Tomem seus lugares. Comportem-se.
  1. Seja como artefato material, entidade ou conceito verbal, chegamos a uma época em que a arte serve a uma função de patrulhamento. A arte é o contexto em que o conceito de patrulhamento circula entre os seus participantes. Cada elemento da arte patrulha os outros. Seja diante de um microfone, de um quadro, de um livro, de um autor, de um público, de uma câmera, a única comunicação da arte é “policie-se”. E supõe-se que você seja o detetive que encontra outros sentidos na arte e nunca encontra policiamento e crime. Você se policiará para nunca encontrar policiamento e crime.
  1. Em qualquer tempo, em qualquer lugar em que exista a arte, o corpo deve comportar-se bem. É para isso que os contextos da arte treinam os corpos humanos. A arte é uma educação para o seu autocontrole, para que você ingresse no domínio da arte. No domínio da arte os sentimentos agradáveis são-lhe proporcionados para que você experimente o policiamento como a experiência mais bonita.
  1. A função da Estética é a de sabotar o descontentamento individual e prevenir explosões coletivas violentas.
  1. A arte suaviza os sentidos. A arte prepara as pessoas a aceitarem qualquer tipo de mentira. A contemplação estética é contrainsurgência em forma de deleite.
  1. Policiamento é o conceito dominante da arte.
  1. Obras de arte são parte do aparato pacificador.
  1. As obras de arte são parte do aparato que visa a pacificar populações por meio da fantasia de uma mediação de civilização que ocorre graças às classes educadas. Isso é considerado uma utopia. As obras de arte são parte do aparato que visa a pacificar as classes educadas até elas ficarem reduzidas ao acordo entre si. Isso é considerado um triunfo. E o artista e o crítico fingem estar questionando alguma coisa.
  1. As obras de arte são procedimentos civilizacionais designados para minar as forças físicas revolucionárias.
  1. As obras de arte são circundadas por agentes liberais e neoliberais que conversam entre si que, consciente ou inconscientemente, concordam que a conversação seja algo grande e benéfico. Eles a chamam de “diálogo” e o têm em alta consideração, consideram-no um de seus valores mais preciosos, quando, na verdade, ficar falando por horas e horas sobre uma coisa ou outra apenas serve a seus próprios interesses, confere-lhes status e funções da alta-cultura, respeitabilidade, recursos e trabalho. O “diálogo” permite que haja tempo para que a máquina mortífera continue. A Arte e o Diálogo atrasam a decisão de aceitar a capitulação da civilização, por nós ou por outrem. A Arte e o Diálogo são contrarrevolucionários.
  1. A arte não irá mudar. A arte não mudará a arte. A arte não mudará o mundo. O mundo precisa destruir a arte. A transformação do mundo implicará a destruição de qualquer forma de arte. A autodestruição da arte não basta.

Notes on art’s crap

Heriberto Yépez

  1. Once art is invoked, every one around it becomes impelled to maintain civility. Behave. Obey. Take Your Place. Behave.
  1. Whether a material artifact, a verbal entity or a concept, we have arrived to an age where art serves a police function. Art is a context in which the concept of police circulates among its participants. Every element of art polices the others. Whether in front of a microphone, a painting, a book, an author, an audience, a camera, art sole communication is “Police Yourself”. And you are supposed to be the detective who finds another meanings in art and never find the police and the crime. You will police yourself to not ever find the police and the crime.
  1. Whenever, wherever, art exists, the body must behave well. This is what art contexts train human bodies to do. Art is an education to self-control yourself in order to enter art’s realm. In art’s realm pleasant feelings are provided for you to experience police as the most beautiful experience.
  1. The function of the Aesthetic is to sabotage individual discontent and prevent violent collective explosions.
  1. Art softens the senses. Art prepares persons to accept al sort of lies. Aesthetic contemplation is counter-insurgency in the form of delight.
  1. Police is the ruling concept of art.
  1. 7. Works of art are part of the pacification apparatus.
  1. Works of art are part of the apparatus to pacify populations through the fantasy of a civilizational mediation happening through the educated classes. They consider this a utopia. Works of art are part of the apparatus to pacify the educated classes until they are reduced into agreeing among themselves. They consider this a triumph. And the artist and the critic make believe themselves they are questioning something.
  1. Works of art are civilizational devices designed to undermine bodily revolutionary forces.
  1. Works of art are surrounded by liberal and neoliberal agents in conversation, who whether aware of this or not, agree that talking-about is a good or great thing. They call it “dialogue”, and they think very highly of it, they regard it as one of their most cherished values, when, in fact, talking hours and hours about this or that only serves their own interests, it grants them high-culture status and functions, respectability, resources and jobs. “Dialogue” gives time for the killing machinery to continue. Art and Dialogue delay the decision to accept the overthrowing of civilization by ourselves or others. Art and Dialogue are counter-revolutionary.
  1. Art will not change. Art will not change art. Art will not change the world. The world needs to destroy art. The transformation of the world will involve the destruction of every form of art. Art’s self-destruction is not enough.