O novo livro de Júlio Castañon Guimarães

O poeta mineiro Júlio Castañon Guimarães, 66 anos, vem construindo, já há bastante tempo, uma obra sólida que inclui não só livros de poemas, mas também de ensaios (estudos sobre Murilo Mendes e Bandeira, por ex.) e de traduções (de Mallarmé e Valéry, entre outros). Sua última publicação é uma cuidada plaquete tipográfico-artesanal com um poema longo: “Em viagem – uns estudos” (BH, Tipografia do Zé, 2017) – com 250 exemplares. Paralelamente, lançou ainda um minilivro – “Se dispersão” (RJ, Megamíni, 2017) –, edição de apenas “50 exemplares numerados” –, com outro poema também de certa extensão. Seguem algumas observações sobre “Em viagem”, poema que nos chamou mais atenção.  

De saída, é curioso o título do livro de Castañon por se aproximar do título do último livro do poeta paraense, radicado em Viena, Age da Carvalho (aliás, a nosso ver, o melhor livro dele): “Ainda: em viagem” (Belém, Ed. UFPA, 2015). Mas, é claro, trata-se de poéticas inteiramente diferentes. E o livro de Castañon traz ainda o subtítulo “uns estudos”, um pormenor significativo para a leitura (e o entendimento) dos 13 blocos que compõem o longo poema.

Neste “Em viagem” Castañon dá sequência a uma exploração específica da linguagem – marca da sua pessoal e madura dicção. Há uma espécie de “travo” da linguagem, com interrupções, cortes (abruptos ou não) no verso ou linha, incompletudes, suspensões etc. que vão configurando uma poética de lacunas, a ser percorrida pelo leitor – “em viagem” pelo texto.

São estudos mesmo (num sentido que se aproxima do musical – Chopin, Debussy etc. – ou do plástico, a partir dos processos empregados por diversos artistas). “Exercícios” verbais de expressão, onde se tenciona signo (verbal) e semântica, signo e sentido. De resto, um procedimento coerente com outras séries anteriores de textos de Castañon, onde há também essa exploração: “práticas” (de extravio); “ensaios, figuras”; “segmentos”…

A viagem – com suas inquietações e perspectivas – se configura em linguagem, forma de grafar experiências no campo do sensível (como no fragmento oito, que aqui destacamos: “sem ninguém à espera/sem de quem se despedir”). Há um “trânsito” do texto (para lugares, línguas etc.) que o poeta flagra e anota, com instabilidade, incerteza, numa forma algo provisória (lembre-se aqui Cabral: “um poema é o que há de mais instável”). Este flagrar na sua poesia se apresenta ao leitor como “obstáculo” mesmo, entre o claro e o escuro – tendendo para o abstrato; como sentido e não sentido: “a fala da fala/se a sílaba nada diz/ou equívoca desdiz”.  Mas, talvez paradoxalmente, tudo isso é grafado em poesia com certa concretude e exatidão verbal.

As escolhas vocabulares já dizem a que veio o poema. Entre elas, algumas palavras que inclusive rimam e se repetem – viagem, imagem, passagem, paisagem e “margens”, por ex.; ou ainda: “seguir, perseguir, fluir”. Palavras que qualificam e definem o rumo do texto. Ou seja, a viagem. Palavras-poeira? “A poeira de uma estrada/perdida na imagem de mim” – que “recobre tudo”; que recobre, inclusive, o texto.

Neste livro raro – que como outros livros de Castañon, não se dá “à primeira vista” ao leitor, solicitando atenção máxima e releitura –, as frases (versos) formam ou sugerem um trajeto (“um trajeto adiante/refere-se talvez/a roteiros passados”) ou um percurso (“relações como as de/persistência um percurso/com a sequência de seu tempo”), numa configuração ou design verbal-vertical (aliás, a forma da edição explicita isso), onde nos perdemos e nos achamos. Onde ler é “seguir viagem”. Onde ver é também viajar e “pode ter a ver/com mapas/ou pode ter a ver/com idas e vindas no tempo”.

Enfim, este “Em viagem – uns estudos” traz o verbo poético em movimento, “em estado de estudo”, com suas inquietações e instabilidades, próprias desses nossos tempos tensos, onde parece não haver mais centro, nem certezas, inclusive para a poesia.

DOIS FRAGMENTOS

2

às inquietações de uma viagem
correspondem inevitáveis:
desordens vocabulares
uns tantos objetos perdidos
a par de aqui ali
tropeços solavancos

6

na cena tão rápida
que quase imóvel
que quase só a passagem
que quase só a janela
condensa-se uma viagem