Rimbaud, os piratas e a prosa de ficção

rimbaudOs piratas somalianos mantêm em cativeiro, hoje, cerca de 260 pessoas e ocultam, ainda, em torno de dezesseis navios capturados. Já há algum tempo tornaram-se notícia internacional frequente e, agora, readquiriram dimensão “norte-americana”, com o resgate do capitão Richard Philips, do navio Maersk Alabama. Nos últimos três meses e meio, os piratas promoveram cerca de sessenta ataques às embarcações, sequestrando-as na costa de seu próprio país ou no golfo de Áden, que se situa no sul do Iêmen e no norte da Somália. O poeta francês Arthur Rimbaud (1854-1891) explorou o deserto da Somália nos anos de 1882-3, a serviço da empresa para a qual trabalhava, definindo-o em seus diários como “um fundo de vulcão”. Quase dez anos depois, residiria em Áden, pouco antes de morrer em Marselha. Áden é uma cidade portuária do Iêmen, na qual, em 1991, a Al Qaeda (até então uma desconhecida do grande público) explodiu o Gold Mirror Hotel, onde militares estadunidenses hospedavam-se, em trânsito, para executar a operação “Restore Hope” na Somália.

Li explicações em parte insuficientes, e até ingênuas, de Moisés Naím, no El País, sobre o assunto: a ausência de governo permitiu que potências estrangeiras roubassem, por meio de tecnologia avançada, a pesca dos somalianos, o que os deixou sem um de seus trabalhos, provocando o surgimento dos piratas. O problema da Somália, e de todos os países da região, é que ela é um pequeno país impotente. O historiador Eric Hobsbawm lembra que, nos últimos 35 anos, o Estado territorial perdeu o monopólio do uso de armas, que se espalhou entre grupos de interesses ilícitos variados.

mapaA Somália tornou-se “independente” da Inglaterra e da Itália em 1960 e, no começo dos anos 1970, seu governo aliou-se à extinta União Soviética. Os Estados Unidos, de Richard Nixon (governo de 1969 a 1974), estimularam a guerra ancestral entre os povos indígenas da área e, com apoio de certos países da Europa, derrubaram o ditador Siad Barre em 1974. É a velha premissa ianque que, como observa Hobsbawm, autoriza os Estados Unidos e a Otan, em nome do “imperialismo dos direitos humanos”, a avaliar que regimes bárbaros e ou tirânicos são insensíveis às mudanças internas, ou seja, só uma força externa pode extinguí-los, difundindo os valores da democracia ocidental. Note-se que os Estados Unidos fracassaram na operação “Restore Hope” e deixaram o país em 1993. A onu retirou-se de lá em 1995. Destaque-se que Abdulahi Yusuf Ahmed elegeu-se, em 2004, como presidente de um governo nacional de transição na cidade de Nairóbi, no Quênia, onde nasceu o pai de Barack Obama. Algo surrealista. A capital da Somália, Mogadíscio, estava sob o controle de povos indígenas. O país é, há séculos, governado de fato por chefes indígenas e, com a globalização econômica, sua pobreza acentuou-se, como a de inúmeros outros pequenos países impotentes: Portugal ou Montenegro, para mencionar dois exemplos europeus.

A desigualdade entre os Estados é um dos traços intencionais da globalização; o terrorismo, a pirataria e o novo protagonismo das máfias são uma de suas consequências ou o preço a pagar pela dominação econômica. As potências sabem, em tese, combater e eliminar esses grupos, todavia, eles operam muitas vezes sob suas ordens, como mercenários. Al Qaeda é útil à economia norte-americana e às suas políticas de dominação. Há países importantes e ou empresas mundiais por trás dos piratas da Somália, onde a expectativa de vida é de 48 anos e a mortalidade infantil muito elevada. Vem-me à tona a lição do ginásio: Dom Dinis, rei de Portugal, contratou o pirata Manuel Pessanha, no século xiv. Sua majestade ficava com os navios, as armas e 20% das riquezas. O Estado somaliano desapareceu exatamente em 1991 – ano da extinção da União Soviética –, para se transformar em uma terra de ninguém, como Guiné-Bissau, por exemplo, ambas ex-nações convenientes à China, à Alemanha, ao Japão e aos Estados Unidos. É evidente que há interesses também de transporte de petróleo.

A questão central é que a política perdeu seus atributos com a globalização e, em função disso, os “novos políticos” se apropriaram de narrativas da ficção subliterária (biografia, gênero, amantes) para se eleger (democracia eleitoral), governar e, sobretudo, expulsar a população da esfera pública, como anota José Vidal-Beneyto. O povo foi expulso da república. É significativo o casamento de Nicolas Sarkozy e Carla Bruni neste âmbito. O fato de Barack Obama ser negro e ter sido pobre não pode servir de parâmetro para a sua avaliação, e o fato de Luiz Inácio Lula da Silva ter sido operário não pode servir, igualmente, para seu julgamento pela história. Importa aferir se implementaram políticas que estimulam ou estimularão a recriação da esfera pública democrática, para o protagonismo dos movimentos sociais e não de si mesmos.

George Bush trouxe para a cena pública a narrativa religiosa – uma tópica privada – para justificar muitos de seus ataques à democracia e ao mundo As ideologias foram substituídas por uma só, o capitalismo tecnoburocrático “eficiente”, sem limites em seus propósitos, o que aumentou a desigualdade entre os Estados, enquanto entes democráticos ou mediadores justos das relações sociais, ou os fez desaparecer, como no caso da Somália – o que é estrategicamente útil para potências e corporações privadas.

piratas_somalianosA crise atual pode ser manipulada (o que deve estar ocorrendo) como mais um instrumento nesta perspectiva: empobrecer ainda mais os pobres. Lembro-me do filme La dolce vita de Federico Fellini, de 1960, no qual Marcello Mastroianni interpreta uma personagem que, na dúvida entre ser escritor ou colunista social, opta pelo jornalismo de alta sociedade. É por isso que é irrelevante a prosa de ficção escrita hoje no Brasil, inferior às narrativas apropriadas pela política ou pelos seus complementares: máfias, terroristas, piratas. Sob este aspecto, vale destacar a ascensão do documentário no cinema e das reportagens em livros como o de Roberto Saviano sobre a Camorra. Não há, como no caso do extraordinário poeta Rimbaud (que deixou de escrever aos dezessete anos para explorar a vida), um outro, ou o outro, pelo menos por ora.