Sobre “Minuto de silêncio”, de Siegfried Lenz

Acaba de sair a novela Minuto de silêncio, do alemão Siegfried Lenz. Lenz nasceu em 1926, na cidade de Lick, hoje polonesa, na Prússia Oriental. A Alemanha perdeu, em 1945, essa província (estado), que lhe pertencia desde 1871, para a Lituânia, Polônia e para a então União Soviética. Acusado de se alistar no Partido Nazista em 1944, Lenz fugiu, depois da derrota de Hitler, para a Dinamarca, onde se tornou prisioneiro de guerra. Depois de solto, estudou inglês, filosofia e história literária em Hamburgo. Stella, a personagem central de Minuto de silêncio é, exatamente, uma professora de inglês em um vilarejo do Mar Báltico prussiano.

Lenz se associou, logo no início de sua carreira, ao Gruppe 47. Entre seus objetivos encontrava-se o de divulgar a nova literatura alemã do pós-guerra, o de combater a cultura nazista e o de pregar uma prosa realista, do aqui e agora – alguma coisa próxima ao neorrealismo italiano, acrescento. Entre seus membros, cito os mais conhecidos do público brasileiro: Günter Grass, Hans Magnus Enzesberg e Peter Weiss. É significativo que Lenz tenha sido amigo do poeta Paul Celan (1920-1970), com quem trocou mais de cem cartas entre 1952 e 1961. Uma poética seca, armada, reflexiva, cortante está na base da formação de sua prosa e pode ser verificada nesse Minuto de silêncio, sua mais recente publicação.

O livro é divulgado como uma história de amor entre um adolescente de 18 anos e sua professora de inglês, Stella; não deixa de sê-lo, entretanto é bem mais que isso. Prefiro chamá-lo de uma gramática do adeus, como o definiu o crítico Boyd Tonkin, do jornal inglês The Independent. Lenz se vale com precisão da técnica do flashback, por meio do qual, na verdade, mantém a atenção do leitor, que dificilmente consegue deixar sua “história” para depois. O flashback costuma ocorrer quando a personagem (no caso, o adolescente Christian) deseja lembrar fatos relevantes que ocorreram em um tempo anterior, mesmo que recentes, à narrativa. Um exemplo clássico do uso dessa técnica encontra-se em Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Stella sofre um acidente no navio Polarstern (Estrela do polo); o final da novela a remete para seu início, tornando-o circular. Christian, filho de um pescador, retira pedras do fundo do mar – é um pescador de pedras!

Os cenários de Minuto de silêncio são enxutos, minimalistas, sombrios: uma pensão na praia e uma pequena ilha (isolamento), onde – como nota Kristina Michaheles – Stella e Christian se aproximam amorosamente após a avaria em um barco no qual navegavam. O domínio narrativo de Lenz faz a história em si terminar, aduzo, igualmente em um acidente de navio. Ou seja, o livro, em termos formais, é todo paralelístico. O autor mostra como, na Prússia Oriental do pós-Guerra, a cultura anglo-americana começa a se tornar hegemônica. Aluno e professora discutem A revolução dos bichos, de George Orwell. E ela o admoesta: “A Revolução dos bichos é uma fábula aplicada, algo é dito por meio de outros, atrás das informações aparentes aparece uma verdade maior que poderíamos designar como a miséria da revolução”, ou então: “no momento em que se funda uma civilização começa a miséria. Ela começa com a formação de classes e a sede de poder do indivíduo”.

O final trágico da novela é antecipado de forma inusitada, em um diálogo de Christian com a personagem Sonja, com a presença de um retrato de Stella no ambiente: “A lupa foi passada de um para o outro, nossa busca foi bem sucedida, nós confirmamos o êxito: ‘Um besouro, Christian, um pequeno besouro!’. E eu acrescentei: ‘E uma mosca, ambos não prestaram a atenção quando a lágrima de resina caiu e agora vão ficar dentro do âmbar para sempre’”.

A relação amorosa do adolescente com sua professora se estabelece por meio da literatura e da reflexão – dado relevante a definir Minuto de silêncio para muito além das banalidades da prosa realista que se produz no Brasil de hoje. Sua sutileza o projeta em um nível de excelência pouco visto. Os truques de composição não matam o seu “mundo”. Essa “gramática do adeus” é igualmente a gramática do desencontro, do proibido, da impotência que vaza as pessoas após a Guerra. Há um jogo tenso e tramado entre as palavras inglesas “accident” e “misfortune”. Este é o fio condutor real de Minuto de silêncio – obra-prima à disposição do leitor brasileiro.

 

Minuto de silêncio é o primeiro título publicado no Brasil de Siegfried Lenz, um dos escritores mais importantes da literatura alemã contemporânea. Considerado pela crítica uma das obras que melhor condensam suas qualidades técnicas, o livro conta a história de amor entre Christian, um adolescente que vive numa cidade pesqueira no Mar Báltico, e Stella, sua professora de inglês no colégio.

EDITORA ROCCO LTDA.

 

Siegfried Lenz

Siegfried Lenz (born 17 March 1926) is a German writer, who has written novels and produced several collections of short stories, essays, and plays for radio and the theatre. He was awarded with the Goethe Prize in Frankfurt-am-Main on the 250th Anniversary of Johann Wolfgang von Goethe’s birth. Lenz and his wife, Liselotte, also exchanged over 100 letters with Paul Celan and his wife, Gisèle Lestrange, between 1952 and 1961.

 

Life

Siegfried Lenz was born in Lyck (Ełk), East Prussia, was a son of a customs officer. After his graduation exam in 1943, he was drafted into the navy.
According to documents released in June 2007, he may have joined the Nazi party on the 20th of April 1944. This was released with the names of several other well known German authors and persons, like Dieter Hildebrandt and Martin Walser. Shortly before the end of World War II, he defected to Denmark, but became a prisoner of war in Schleswig-Holstein.

After his release, he attended the University of Hamburg, where he studied philosophy, English, and Literary history. His studies were cut off early, however, as he became an intern for the daily paper Die Welt, and served as its editor from 1950 to 1951. It was there he met his future wife, Liselotte (d. 5 February 2006). They were married in 1949.

In 1951, Lenz took the money he had earned from his first novel, Habichte in der Luft, and financed a trip to Kenya. During his time there, he wrote about the Mau Mau Uprising in his history Lukas, sanftmütiger Knecht. Since 1951, Lenz worked as a freelance writer in Hamburg and was a member of the literature forum Group 47. Together with Günter Grass, he became engaged with the Social Democratic Party and aided the Ostpolitik of Willy Brandt. A champion of the movement, he was invited in 1970 to the signing of the German-Polish Treaty.

Since 2003, Lenz has been a visiting professor at the Düsseldorf Heinrich Heine University and a member of the organization for German orthography and proper speech.

 

Writing

Critic Gerhardt Csejka described Lenz as one of the German authors who saw it as his duty to help the German people “to pay off the enormous debts”, which “the Germans together with their honoured Führer had burdened themselves”. Lenz saw it as his obligation to “take preventive actions against any danger of a reoccurrence”.

 

Awards

In 1988 Lenz was awarded with the Peace Prize of the German Book Trade, a prize given annually at the Frankfurt Book Fair. The Goethe Prize of Frankfurt am Main (Goethepreis der Stadt Frankfurt) was given to Lenz in 2000. A year later, Lenz was honored with the highest decoration of Hamburg, the honorary citizenship. Since 2004 Lenz is also honorary citizen of Schleswig Holstein.