TRÊS E-MAILS PARA UM CRÍTICO

Em junho de 2011, troquei e-mails com um crítico pernambucano radicado no Rio de Janeiro, a quem, meses antes, havia enviado todos os meus livros. Reproduzo três e-mails nos quais, respondendo a algumas indagações muito lúcidas dele, procurei discorrer a respeito de tudo daquilo que eu mesmo, como autor, “encontro” nos meus textos, não certamente quando os leio (eu não os leio depois de publicados), mas quando “penso” neles: a série; o totem; a paisagem e o sex appeal vegetal; o inumano; a vitrine e o outdoor

 

1) Primeiro e-mail

Prezado …,

agradeço muitíssimo tuas impressões sobre os meus textos e poemas, que são ao mesmo tempo indagações. Elas significam muito para mim. Não sei se poderei dizer tudo o que desejaria dizer, depois de ler tuas
impressões, num único e-mail.

Prefiro pensar numa série de e-mails: dois ou três e-mails. Isso me tranquiliza.

Antes de mais nada um dado biográfico: antes de fazer Letras, fiz Engenharia Civil, mas não me formei porque entrei em atrito com os colegas e professores por causa do conceito de “urbanismo”, “paisagismo”, inexistente entre os engenheiros da minha turma.

Mas geometria linear e cálculo integral me interessaram muito, numa dada época. Hoje não mais. Mas os números são muito importantes para mim ainda hoje, fascina-me o conceito de série infinita.

Acredito que o meu livro Figurantes (2011), por exemplo, poderia continuar infinitamente: ou seja, documentaria todos os figurantes do mundo, um a um… Por isso a noção de número, sequência, contagem inesgotável é fundamental nesse livro.

Já o “comprimento” da paisagem, ou  a “medição” da paisagem, a tentativa de “enquadrar” a paisagem em centímetros, metros, quilômetros…, é algo de fundamental em Alongamento (2004)… O livro também poderia continuar infinitamente… O olho quer todo o tempo encontrar um “tamanho”… que escapa aos cálculos, às medições mais exaustivas.

Nos poemas de Totem & Sacrifício (2007), livro que só concebo duplo (em duas linguagens, espanhol e português, por isso “mais ou menos do que dois”), as frases estão numeradas e nitidamente desdobram-se, a primeira “origina” a segunda e as outras…  De novo aqui a minha aposta na série. (Embora essa “origem” seja suspeita, há justaposição, não causa e efeito, não creio em causa e efeito.)

(Um dos versos que mais me impressionaram até hoje foi aquele de Mallarmé: “O Azul, o Azul, o Azul, o Azul…”, “L’Azur! l’Azur! l’Azur! l’Azur!”. Eu acredito sinceramente que minha prosa e minha poesia teçam um comentário sobre essa derradeira compreensão de que é impossível nomear/medir o infinito (a paisagem), ou seja, o inumano.)

Como todo mundo, associo a poesia a números, a contagem de sílabas e a acentos, e são esses números que criam a simetria e a assimetria, ou a não simetria, que cada poética implica ou busca. Mas, ao mesmo tempo, imagino que essa regra é desvairada, o metro não acaba, ou o corte métrico continua cortando as séries infinitas, a proliferação irrefreável de medidas…

Gosto às vezes de fazer enumerações, de arrolar “coisas”, que é outra maneira de contar, de dispor o mundo infinito numa série. É o que faço, acredito, na minha homenagem a Lévi-Strauss (poema final de Totem &
Sacrifício
). Mas aí não só faço enumerações, como também adoto o conceito de “bricolagem”, que se torna fundamental por causa do tema. Ou seja, dos números abstratos passo à lógica do concreto. Isso é quase instintivo, é um impulso incontrolável num autor bastante contemplativo, como é o meu caso, e que concebe a escrita como um posto de observação. Nem ouso dizer que esse impulso é uma estética, uma arte. Às vezes, as palavras arte, poesia, literatura etc. me incomodam um bocado e deixam de ser importantes para mim. A minha divisa, oriunda da poesia japonesa, uma poesia fundamental para mim e que leio quase diariamente, poderia ser: busco o não poético, o não romântico, o não sentimental.

E nunca fiz a abominável poesia metalinguística dos modernistas, Deus me livre e guarde de cair nessa cilada; como bom blanchotiano, jamais defini a literatura. Tanto é verdade que me comove pouco a poesia dos poetas da minha geração que fazem metalinguagem à moda modernista e se acham (em todos os sentidos) realmente dentro do verso, dentro da poesia …

Minha poesia é um diário do olho e dos passos que percorrem um mundo em expansão, mas é um diário não sentimental, não romântico. Isso que vejo e sinto, e que é impossível de deter ou descrever, estrutura O sexo vegetal (2009). Nesse livro, o prefácio fala de outro livro, talvez. Há muitos livros aí, sobrepostos ou em dispersão, e não apenas dois, ou quatro. Uma série (vê bem) de livros, de des-composições.

Creio que esse é o meu nonsense. Agora, não sei se ao escrever desse modo posso dizer que esteja buscando palavras em liberdade. Muito pelo contrário: meus textos testemunham antes uma impossibilidade: a impossibilidade de estar fora da série, fora da medida… Isso é incompreensível – não poder deter a série, não encontrar nunca a medida –, mas nada disso impede que se adote a contemplação como modo de vida. Uma contemplação infinita, que busca (e encontra) humor no absurdo da série. Se me permites, vou te enviar em breve os originais de meu próximo livro, Enrique Flor, que retoma um breve episódio de Ulisses, de Joyce, fazendo-o florescer (se tanto) em português, ou seja, inserindo-o numa das minhas séries. Assim tento recontar, a meu modo, com humor e concisão, recorrendo todo o tempo à descrição precisa como método, a descendência brasileira desse músico português imaginário, que colocou uma planta ao lado de outra e logo se viu numa selva infinita, passando da Irlanda desmatada para um Brasil (quase) virgem… Bem, acredito que falei um pouco sobre números, enumerações, catálogos, mas isso é só, talvez,  um começo de conversa – precisarei de mais uns dois e-mails para falar do resto…

O resto é, por exemplo, o elogio do olho – “conto” com o olho, não só com os dedos, ou nos dedos, isso é crucial para mim. Conto comparando, conto enumerando, catalogando aquilo que olho e que tento também tocar com os dedos… Meus números, meus catálogos são inseparáveis do olhar. O olhar é o método? O princípio? Por isso, um dos meus textos inéditos, um livro sobre o sol que aumenta e esfria, se chama “Canto do olho”, mas isso é outra história.

Um abraço,
Sérgio.

2) Segundo e-mail

Prezado…,

como tuas observações cruciais estão me fazendo refletir bastante sobre o que já fiz e publiquei, queria aproveitar este segundo e-mail para falar de duas coisas que me são caras: a paisagem e a vitrine.

Quando comecei a escrever, escolhi esses dois polos. A paisagem sempre me permitiu uma absorção mais impessoal e atônita (mas não desesperada)  do fluxo contínuo das coisas e, eventualmente, dos seres (não exatamente humanos); a vitrine, lugar de liquidações e queimas de estoque anunciados, me facultou a elaboração de pequenos dramas, ou não dramas, pequenas “peças nô”. A vitrine é o meu “espelho”.

A vitrine está em Mais ou menos do que dois (2001), e está também em Alongamento, justamente nos textos “R-e-t-ó-r-i-c-a” e  “As costas de…”, por exemplo; aí a vitrine é algo de muito explícito, até demais.

Para mim a vitrine é exposição, pede o olhar, mas oferece em troca algo diverso da paisagem: oferece um teatro, uma dança, uma performance. A série evidentemente não está excluída, já que pode haver aí multiplicação, duplicações de manequins e acessórios, e até desfile (descrevi um desfile, ou vários desfiles, em Figurantes.)

O texto “R-e-t-ó-r-i-c-a” talvez quisesse imaginar o que Aristóteles teria a dizer desse outro “teatro”, dessa outra “tragédia”… O teatro mudo ou eloquente das vitrines.

As vitrines abundam em Figurantes, mas estão sem vidraças, sem vidros. (Esse tema é blanchotiano: o vidro, o vazio e a desorientação do ser que está além do vidro, sem o vidro…, de repente fora da vitrine que é o seu lugar costumeiro.)

Novamente a ideia de pequenas vitrines, com seu drama e seu décor, nem sempre no lugar, estrutura/desestrutura o livro O sexo vegetal, que, como disse no e-mail passado, repensa a noção de conjunto harmônico, ou de homogeneidade. A paisagem (natural ou não) me permite a dispersão (a não organização, o não enquadramento), pois infinita é a observação, infinita é a série, e isso me permite sentir o absurdo inumano que é a “serialização”, a seriação…, mas posso rir disso.

Ainda aprecio o começo do meu livro Mais ou menos do que dois, o primeiro que publiquei e que oferece ao leitor de imediato um índice onomástico, uma série (e um totem verbal longuíssimo), e, a seguir, um pequeno drama, um planeta numa vitrine, um planeta muito pequeno que se pode “percorrer” quase num instante.

Por causa da vitrine, às vezes sinto que descrevo performances, ou que proponho teatro ao leitor e a mim mesmo. Isso é importante para mim, isso de certo modo me permite contrapor à “superficialidade” da paisagem um pouco de “profundidade”, senão as séries absurdas deslizam sem parar e nada mais acontece…

Às vezes a vitrine é muito literal, outras não, fica mais sutil. É aí que eu erro e/ou acerto. Isso nunca será resolvido talvez.

Tentei dar à coisa outro andamento, outra dimensão, em “Retrato totêmico de Claude Lévi-Strauss”, onde coloquei o totem não apenas numa vitrine, mas num shopping center inteiro, ou numa cidade inteira… Esse poema, que é simultaneamente uma paisagem  e uma vitrine, ou um grande shopping center, fecha o livro Totem & Sacrifício.

Num próximo e-mail, que escreverei talvez à tarde (assim poderei refletir melhor sobre o tema),  gostaria de falar justamente do totem inumano (e de seus traços no poema: os riscos, o grafismo…). Falarei também do sexo vegetal, como tentativa de tirar o “drama”, a “profundidade” da esfera do sentimental, do patético, do lírico…

Um abraço,
Sérgio.

3) Terceiro e-mail

Prezado…,

no e-mail passado, em que falo das minhas vitrines e dos shoppings, esqueci de destacar o outdoor, que está muito presente nos meus poemas; basta ver Figurantes. Acho que a vitrine e o outdoor são faces da mesma moeda. São janelas.

Mas o tema agora, se me permites, é o totem e o vegetal, o totem vegetal, o pai vegetal, a mãe vegetal. O totem, tal como eu o imagino, é composto de muitas faces, de muitos detalhes: é a concretização mais estupenda da série, e não pode ser medido corretamente…

Sei, depois de ler Lévi-Strauss, que o totemismo é um sistema de classificação como outro qualquer.  Os diferentes povos usam plantas e bichos para nomear os clãs, separá-los, opô-los etc. O elemento místico não é necessário ou imprescindível. Isso não significa que não existam vínculos de toda ordem, inclusive afetivos e sexuais, com os totens fundadores. Com o pai ou a mãe totêmicos.

Desde o meu primeiro livro insinuo o totem nos poemas, um totem verbo-visual que, às vezes, deixa pequenos traços, pequenos rastros nas frases, assim: ////…

Tudo isso para evitar, como já disse, aquele sentimentalismo, aquele patético que a relação de filhos com pais humanos encerra.

Depois que Baudelaire tratou da alma dos objetos e Fechner da alma das plantas, propus, apoiado em Viveiros de Castro e Mario Perniola, e também em Lévi-Strauss e Walter Benjamin, o sexo vegetal, ou o sex appeal vegetal. Que é a minha versão pessoal do totemismo. Uma relação com o totem, o totem vegetal. Uma relação amorosa, sem Édipo. De identificação com o outro, ou de aceitação do outro ao nosso lado, mas como tudo é político, segundo Viveiros de Castro, o perspectivismo vegetal não é algo que não ofereça perigo aos humanos. Quem vê primeiro quem? Eis a questão básica.

Essa ideia eu retomo e desenvolvo em Enrique Flor, livro que a Iluminuras lançará em 2012 e no qual aparece a “floração” joyciana, a capacidade de as pessoas se identificarem com o totem vegetal a ponto de se confundirem com ele, ou virarem árvores, literalmente. Isso é o sex appeal vegetal totêmico em ação. (Manoel de Barros também já falou disso: tente ser uma árvore, ele nos aconselhou em seus melhores momentos.) E isso é curioso no caso de Joyce: a Irlanda, assim como Portugal, estava muito desmatada na virada do século, tal como descrita em Ulysses. Só havia 1% da mata nativa, os ingleses levaram com eles toda a madeira do país. (Na épica homérica,  a madeira significa poder, embarcação, conquista, independência.) No livro de Joyce, Enrique Flor sai de Portugal e vai à Irlanda, tocando um órgão que refloresce Dublin. No meu livro, ele vem ao Brasil e aqui realiza a sua grande obra musical, tocando um órgão que já é a floresta, a selva, e antecipando as experiências musicais de Messiaen e Cage.

No final de Figurantes, no epílogo, o totem está sendo construído, talvez de concreto. Não terá algo errado ali? Parece também uma tentativa de reerguer a Torre de Babel ou um shopping center. O totem deseja novamente parar na vitrine?

No final de O sexo vegetal coloquei o totem de Anish Kapoor, o artista indiano, que vi no Rio de Janeiro: um totem de vapor, de fumaça, longuíssimo. Madeira queimada, eternamente. Ou um calor que brota eternamente do chão, e que tem dedos, ou que é um longo dedo apenas, tocando o teto. Mas não um rosto. Um dedo para cima. O rosto do espectador também é destroçado, como descrevo no poema. Isso é a mais plena realização de uma identificação com um totem inumano, pós-humano. Sem romantismo nem sentimentalismo.

O totem como tronco, como traço, me leva às vezes a povoar meus poemas de traços (memória também dos grafites paulistanos – totens escritos em edifícios altos, que é o avesso ou o outro lado do concretismo),  riscos. Isso, tenho sentido, é a parte menos compreendida da minha poesia. Por ser talvez a menos eficaz, ou a mais ingênua. Mas está aí o totem paulistano: um edifício todo rabiscado que deixou de ser uma moradia ou um conjunto de escritórios comum.

Um abraço,
Sérgio.

Sobre Sérgio Medeiros

Poeta, tradutor e professor de literatura na UFSC. Seu poema longo, “Retrato totêmico de Claude Lévi-Strauss”, será publicado em outubro, nos EUA, na “Mandorla Magazine”, da Universidade de Illinois. Seu novo livro, “O sexo vegetal”, sairá no Brasil em breve.