A poética das redes sociais

Segunda-feira

A Poesia tomou sua forma no interior das Tradições.`
Agora, as Redes têm, praticamente, substituído as Tradições.
As Tradições se formaram entre os Vivos e os Mortos.
As Redes se formam entre os Vivos.
A ausência dos mortos confere às Redes qualidades que não são deste mundo.
Escrever nas Redes é diferente de escrever nas Tradições. Essa distinção é crucial.
Compreender a poesia, hoje, significa compreender a copresença de elementos da tradição e de elementos da rede no interior da forma estética.
A leitura deve sua mutação às Redes. Hoje é impossível a leitura tradicional. A leitura tradicional é hoje uma língua morta.
Pelo monitor das Redes, a poesia tradicional parece pedir por uma “Leitura Profunda”.
Quando você deseja entender o que é “Leitura Profunda”, você vai entrando cada vez mais profundamente no buraco negro.
Mesmo a crítica do século XIX parece estar próxima das Redes.
Conflitos que surgem na poesia no começo do século XXI consistem na dialética entre Tradições e Redes.
Pelo fato de estar intensamente implicada em se comunicar com o sagrado, o morto, o ausente e a censura, a poesia tradicional se configurou como uma forma de comunicação não estandardizada.
A poesia tradicional definiu-se eventualmente como não comunicação. Tradicional, aqui, significa não comum, transdicional.
Nas Redes, a poesia frequentemente também resiste a ser comunicação, mas não pode evitar de tornar-se feedback.
O que é produzido entre o Vivo e o Morto, nas Tradições, pode destruir a troca no interior das Redes.
Quando a Tradição se demora na História, a História ri histericamente para ela. Isso é a Rede.
Precisamos do que é Morto para provocar uma revolução em nossa sociedade de redes. Mas as sociedades em rede podem imaginar o Morto apenas sob a forma de zumbi.
Se pensarmos as formas das Redes em termos do pensamento Tradicional, irão surgir imagens apocalípticas e agências morais.
Os leitores de fundo tradicional acham que os poetas das redes são superficiais. Os leitores das redes acham que os poetas de fundo tradicional são obsoletos.
Os poetas tradicionais tendem a possuir um vocabulário romântico e imagens pré-industriais. Os poetas da rede favorecem a teoria e as imagens técnicas.
Nas Tradições, a Natureza e Deus são agências não humanas fortes. Tecnologias são agências não humanas fortes nas Redes Sociais.
A invasão do Espírito fragmentou a Forma Tradicional.
Hoje, o Capital é a invasão regular da Forma.

Terça-feira

Os palimpsestos de Hölderlin representam um conflito entre o arrebatamento individual e a prefiguração das redes de escritura maquinal.
Os heterônimos de Pessoa foram um experimento para que uma pessoa sozinha se tornasse uma máquina. Pessoa foi uma rede social.
O Dadaísmo não ignorou a tradição, mas abriu caminho para que uma poética das Redes erodisse a das Tradições.
Os manifestos de Breton queriam fazer do Surrealismo parte de uma linhagem. O Surrealismo foi uma tentativa de Retorno à Tradição.
Enquanto poeta-pensador da Tradição, Heidegger ficou escandalizado com o nascimento das Redes. Wittgenstein, 50%
A poesia de Lorca é tradicional: ela surge quando aparece o Duende. A poética de Beckett depende do fato de Godot nunca aparecer.
O Concretismo brasileiro foi a primeira poiesis baseada nas redes. A foto canônica dos Irmãos Campos & Pignatari captura essa fase.
Celan e Jabès foram os últimos poetas plenos da Tradição, do outro lado do Atlântico. Neruda foi tanto tradicional quanto comunista.
Tanto a poesia Beat quanto o Barroco latino-americano ainda eram poéticas baseadas na Tradição.
A Etnopoética de Rothenberg foi demasiado baseada na Tradição para a mentalidade da Language Poetry baseada nas Redes, que se espalhou rapidamente.
A Language Poetry foi o primeiro movimento de poesia em inglês a assumir posturas baseadas nas Redes como seu centro.
A dialética Rede x Tradição não é linear. A Ecopoética, por exemplo, recentrou os elementos tradicionais em sua forma estética.
Parece, porém, que nossa época prefere formas com elementos-rede mais fortes. Provavelmente é por isso que o Conceitualismo ganha da poesia Flarf.
Agora, tanto a Bay Area Neo Marxista quanto a Poética Mongrel implicam poéticas baseadas nas Redes, com forte presença de elementos tradicionais que reemergem.
O Pós-Conceitualismo desenvolveu-se na poiesis que domina as Redes Sociais. Mas a implosão da escrita Conceitual reforça suas moléculas tradicionais.
Bolaño lida tanto com os Poetas Selvagens que procuram romanticamente a Tradição Perdida, quanto com os Detetives que sabem como trabalha o Sistema.
Nosso interesse nas velhas media e na materialidade mostra o desejo de recontatar a Tradição. Mas nós revisitamos o Livro procurando suas Redes.
O inglês mantém os poetas norte-americanos dentro da Tradição Nacional. Suas Redes desaceleram onde outras línguas gerem outras Redes.
O poder da Rede nos poetas da Language Poetry deteriorou-se, agora. Eles estão sendo impelidos fora da rede (e dentro de uma Tradição).
A Tradução está atualmente lutando contra seu próprio conflito interno; traduzir para a rede ou traduzir para a tradição?

Quarta-feira

A presença da Tradição na poesia é mais forte do que na arte porque a voz e o som reanimam a dança entre o morto e o vivente.
A internet torna possível a rede; a performance mantém incorporada a tradição.
A visão da aura acontece juntamente com um suspiro. O fim da aura dá espaço às redes. Este suspiro secreto faz com que sobreviva a tradição.
Nas redes, a memória coletiva é transformada em arquivos. A relação privilegiada que as redes têm com o passado é de curadoria.
No movimento “Make It New”, It significava Tradição para seus aspirantes, ao mesmo tempo que significava “Obra de arte” para os participantes das redes.
A comunicação com os antepassados mantém vivas as tradições. Os que não têm conexão com o ancestral só podem recorrer às redes.
Redes mortas poderiam tornar-se virtualmente tradições em potencial.
Porém, se redes mortas não tiverem membros sábios ou visionários, elas estarão espiritualmente condenadas.
É um risco manter a ordem ideológica colonial: O Sul Tradicional e o Norte em Rede.
Um poeta puramente tradicional ou puramente em rede será um poeta unidimensional. Mais do que uma das crises, hoje, se deve a isso.
A mudança na forma estética não virá apenas do conflito Tradição x Rede. Ambas já sabem como chegar à estase.
As tradições (em sua maior parte) são diacrônicas e as redes – sincrônicas. O fato de uma delas chegar a controlar o eixo de sua contraparte empobrece a poesia.
Forças horizontais fluem pelas Redes. Já as forças verticais preferem os canais da Tradição.
Foucault superestimou o poder das redes porque ele escreveu em uma época de tradições em eclipse.
O último Foucault via-se na tradição da Fenomenologia do Espírito.
As Redes e as Tradições gostam de se destruir umas às outras. E nós ainda somos seus esquizo-amantes.
A violência vertical da tradição é o contrapoder essencial do permanente mecanismo das redes de re-formar.
As Tradições Dominantes e as Redes Dominantes são leucotrópicas. A Revolução precisa de redes e tradições não leucotrópicas para detonar, explodir e fazer insurgir.
O “Êxtase de Santa Teresa” de Bernini mostra como a Tradição intervém na poiesis histórica. Pode igualmente mostrar como a Revolução finalmente acontecerá.

Quinta-feira

Nas redes você escreve para o presente, com outros que você conhece. Nas tradições, você escreve para o passado, sem conhecer o futuro.
Hoje, se você quer pertencer ao nosso tempo, você tem que escrever nas redes. Se você quiser pertencer a outros tempos, você terá que encontrar sua tradição.
As máquinas-imagem das Redes x as experiências-alucinação das Tradições.
As drogas conectaram os escritores Modernos às tradições residuais.
As tradições te embriagam. As redes te introduzem.
A internet poderá eventualmente morrer. Os que conseguirem conectar-se a ela depois de morta terão experimentado a Tradição da internet.

Sexta-feira

Cristo assumiu o controle da maior parte das Tradições. O Capitalismo assumiu o controle da maioria das Redes.
As Redes estão melhor equipadas do que as Tradições para os tempos de guerra. Mudanças na poética contemporânea referem-se todas à resiliência civil.
As Redes da poesia aceleram e interrompem fluxos de linguagem dinâmica dissensual. As Redes são, ao mesmo tempo, os migrantes e os guardiães dos portões.
A maioria dos implicados nas redes procuram uma mudança neoliberal.
Tudo o que circula pelas redes é transformado em capital e informação. Nada mais.
Nas redes neoliberais literárias, os membros creditam ideias àqueles que possuem crédito suficiente para trocá-lo com eles.
A apropriação não é apenas uma técnica para produzir um trabalho, ela é também uma regra para manter as redes estéticas neoliberais indo em frente.
Não há mais formas de vanguarda. As formas são configuradas hoje em dia pelo ato ou pelo prazer de competir. As redes neoliberais constituem o Market-Garde.
Uma rede compete com outra. E todas as redes competem umas com as outras. A competição fez nossas redes.