William J. Kennedy: O grande jogo de Billy Phelan

Jornalista, ficcionista, roteirista, dramaturgo, professor de escrita criativa na Universidade de Albany, William J. Kennedy (1928) é também autor do conhecido “ciclo de Albany”, um conjunto de sete romances ambientados em diferentes épocas da cidade onde nasceu. Cinco deles acompanham diferentes personagens da família Phelan, como “O grande jogo de Billy Phelan” (1978), que é o segundo romance do ciclo – e não o primeiro, como dá a entender equivocadamente o banner de propaganda a envolver o livro.

O romance guarda o clima soturno de um filme noir, adequado ao período subsequente à Grande Depressão, que até 1940 mantinha grandes contingentes desempregados. Concentra-se nos eventos passados entre a madrugada de uma quinta-feira de outubro de 1938 e a madrugada do domingo seguinte, ou, mais exatamente, entre a fabulosa partida de boliche na qual Billy faz 299 pontos, de 300 possíveis, e o fim do sequestro do filho de um dos McCall, a poderosa família irlandesa que controlava tanto o partido democrata como o submundo da cidade.

Perambulando entre os dois polos em contato permanente – as várias partidas emocionantes travadas na vagabundagem e as trapaças tramadas entre os McCall, os democratas e a Igreja católica, os quais se preparavam para tomar o controle do partido trabalhista dos socialistas –, está o cinquentão Martin Daugherty, jornalista do Times-Union, onde também trabalhou o próprio Kennedy.

É Martin a personagem mais complexa do romance, responsável por interpretar a vitória individual de Billy também como uma vitória da generosidade, da lealdade e do caráter – vale dizer, do jogo limpo –, sobre todos os infortúnios que se abatem sobre a existência, em larga medida herdados de contingências ancestrais. A solução seria apenas simplista e ingênua não fosse, antes, uma forma de evidenciar os caminhos dolorosos pelos quais a ordem política e social, como a ordem paterna e divina, escolhe aleatoriamente os seus cordeiros sacrificiais, aqueles que vão pagar com a vida as contas deixadas em aberto pelos outros.

Esta imagem adequada às dívidas do bar como para as da alma serve bem para mostrar que, em meio à ação narrativa por vezes empolgante, o fundo do romance de Kennedy mantém parentesco com a obra de outro ilustre filho de Albany, o teólogo Henry James, Snr., pai do célebre novelista. Algumas das melhores páginas do romance são aquelas nas quais Martin, movido por sua atração sexual culpada pela amante do pai, tem visões antecipatórias, catastróficas, de um “menino-animal”, um Isaac-cordeiro, pronto a ser abatido por Abraão, em nome da fé ou de um fado inexplicável a que simplesmente obedece, aturdido.

Para Kennedy, o sacrifício do inocente, a traição entre pai e filho, em posições cambiantes, é exemplar da vida social, porque assim como “estamos todos em conluio contra o próximo”, também vibramos as piores sentenças contra as nossas fraquezas, quando são elas o que há de mais humano, e, portanto, de mais digno de perdão em nós. Não à toa, Saul Bellow disse se comover com o enorme sentido de “compaixão do frágil” que havia na obra de Kennedy.

 

Autor: William Kennedy
Tradução: Sergio Flaksman