11 de setembro: a cultura brasileira é inferior à americana

Régis Bonvicino: Houve consequências dos atentados de 11 de setembro de 2001 no que se refere ao Brasil?
Marco Antonio Villa: Para o Brasil teve pouca consequência. Mas, em termos de política externa sul-americana, foi importante. Como os EUA concentraram seus interesses e atenções no Oriente Médio, “sobrou” um espaço vazio na América do Sul. E não há, em política, espaço que fique vazio nem por um segundo. O vazio foi ocupado pelo Brasil (mesmo encontrando resistências da Argentina e, principalmente, da Venezuela). As medidas antiterroristas não tiveram qualquer efeito. Mesmo nos aeroportos, a revista é “teatro”. Ninguém imagina (ainda bem!) que seja possível algum atentado terrorista no Brasil (aqui Bin Laden virou máscara de carnaval). As nossas fronteiras continuaram despoliciadas exatamente como antes do 11 de setembro. O nosso principal adversário não é o terrorismo, mas o tráfico de drogas.

RB: O 11 de setembro estimulou o imaginário da criminalidade comum no Brasil?
MAV: Não creio. A criminalidade local tem um movimento próprio, singular. Tornou-se mais especializada, seguindo o ritmo das mudanças tecnológicas. Mas nada além disso. Aqui não temos crime organizado tout court. Há quadrilhas que buscam apenas operar de forma mais organizada. Não é possível compará-las, no entanto, com as quadrilhas que operam nos EUA. A criminalidade nativa só ganhou importância devido à ineficiência e à corrupção públicas, cada vez maiores.

RB: Há alguma semelhança palpável entre cultura americana e brasileira?
MAV: Não. Temos formação muito distinta. Algum paralelo é possível estabelecer com um ou outro país da Europa ocidental.

RB: Você acha que o Brasil tem uma cultura insular em razão da língua portuguesa e ou em razão de outras causas?
MAV: A língua dificulta. Afinal, o português sobrevive graças à importância cultural e econômica do Brasil. As antigas colônias portuguesas na África, a cada dia, se afastam do português como língua nacional. Em Timor Leste ocorre o mesmo processo. Não deve ser acidental. Mas a pergunta é mais complexa. É chato dizer, mas a cultura brasileira (e latino-americana) é muito inferior à chinesa, japonesa, francesa, americana, inglesa etc.

RB: O Brasil é hoje basicamente um exportador de matérias-primas. Como ficam as teorias antropofágicas de Oswald de Andrade, ao propor a devoração das ideias do colonizador e a reposição de suas influências como um produto original, próprio, brasileiro, em escala internacional? Essa tópica não lhe parece ingênua e datada?
MAV: A música popular deve ser a única área onde temos importância internacional no campo cultural (mesmo assim, uma influência limitada, relativa). Sem querer ser chato, considero o modernismo de 1922 uma invenção da crítica literária paulista. A imagem da antropofagia cultural é inteligente, porém inócua. Todas as culturas desenvolveram (e desenvolvem) esse mecanismo de “antropofagia”.

RB: Você concorda que exportamos apenas futebol, MPB e carnaval, em termos culturais? Por quê?
MAV: É verdade. Para mudar teria de existir uma forte presença do Estado “exportando” nossos produtos culturais (como na tradução dos nossos escritores, por exemplo). E sobretudo uma produção cultural de melhor qualidade. Sinceramente, acho que temos muitos espaços culturais e pouca produção cultural de qualidade. O país não tem compromisso com a cultura.

RB: Como vê o mundo dez anos depois dos atentados?
MAV: É muito mais complexo. Na verdade, a complexidade aumentou com o fim da Guerra Fria. Até aquele momento – e durante quase quatro décadas – o mundo estava dividido em duas partes. Qualquer conflito tinha de se encaixar de um lado ou do outro. E a pronta ação das superpotências emprestavam certo equilíbrio àqueles conflitos. Era a barbárie sob controle. Hoje temos a barbárie incontrolável e fortemente marcada pelo fundamentalismo de todos os naipes. O mundo ficou muito mais tenso e com enorme dificuldade para encontrar soluções localizadas nas áreas em conflito. Mas as mudanças econômicas continuaram. A China foi assumindo um protagonismo, a cada ano, maior (e foi, dos grandes países, o que menos perdeu nesta década – basta ver o custo das guerras travadas pelos EUA e comparar com os gastos militares dos chineses).