30ª Bienal de São Paulo

Um dos cartazes de divulgação do evento

A edição de um dos eventos mais ambiciosos das artes visuais vem acontecendo desde 7 de setembro e se estenderá até 9 de dezembro. São 61 anos desde a inauguração e, apesar de uma história conturbada, nestes últimos anos a Fundação Bienal atravessa um momento de grande fôlego após uma significante reestruturação financeira, o que possibilitou inclusive outros eventos organizados pela instituição como a grande exposição “Em nome dos artistas” da coleção Astrup Fearley, realizada no final do ano passado. Esta fase está garantindo que a Bienal tome conta da cidade com obras em outras instituições, como a FAAP, Capela do Morumbi, MASP, e que algumas destas obras posteriormente sigam em circuito para outras cidades através de uma parceria com o SESC.

Para a organização desta edição foi nomeado o curador Luiz Pérez-Oramaz que, além de ser o responsável pelo departamento de arte latino-americana do MOMA, tem em seu currículo exposições como Alfabeto Enfurecido, a respeito da produção de Leon Ferrari e Mira Schendel, que circulou por grandes instituições ao redor do mundo, recebendo elogios da crítica.

Historicamente, uma das tarefas delegadas ao curador da Bienal é realizar uma síntese da produção atual, o que contribui para a importância do evento em delimitar os caminhos da arte contemporânea gerando certa tensão em torno das escolhas curatoriais. A 30ª Bienal de São Paulo parece esquivar-se deste legado, apresentando-se de maneira avessa a usual monumental realização da mostra. Foram selecionadas formas menos expansivas de manifestações artísticas que afirmam suas realidades como processo, como experiência transitória, e não como um discurso globalizante sobre a arte.

 

Iminência e Poéticas

Como explicitado no texto de abertura do catálogo, Oramas propõe que a arte está sempre em estado de iminência, ou seja, sempre na possibilidade de acontecer. Cada vez que é posta em contato ela é percebida diferentemente, sempre uma relação a ser construída. Partindo deste conceito deparamos com a incoerência de determinar um caminho único de relação com os trabalhos – as experiências desencadeadas estão sempre brotando em novos encontros. Também são múltiplas as poéticas que se manifestam autonomamente através dos processos criados pelos artistas, são situações em potência de alguma solução, sem grandes certezas ou verdades a serem proferidas, mas sim experiências.

Desta maneira, o papel da curadoria seria somente o de indicar relações possíveis, constelações, entre determinados artistas, já que o aparente estado frágil da constituição das linguagens e sentidos se apresenta em um espaço de encontro que ainda não se sedimentou, em que as experiências ainda estão aglutinando.

O pavilhão da Bienal foi organizado de maneira a garantir a proposta da curadoria. Temos uma organização atomizada, onde foram destinados aos cem artistas presentes no prédio módulos que são seções do espaço geral, muitas vezes se assemelhando a uma pequena retrospectiva em que as relações entre os trabalhos de um mesmo artista podem assumir o aspecto de uma obra única, apesar de conviverem diferentes períodos.

Esta babel da Bienal – como se atesta na epígrafe do texto de abertura – deixa em aberto diversas linhas para pensar o evento; dessa forma, pequenas relações a partir do geral parecem ser uma boa maneira para experimentá-la. Estabelecendo relações entre os artistas, e aceitando o convite para vivenciá-los em um mesmo espaço a partir de suas possibilidades, criam pontos e momentos de encontro.

Aproximações

 

Comunão – fotografia 50x75cm, 2006

Em um dos módulos, Rodrigo Braga (1976- ) apresenta projeções ocupando todas as paredes do espaço. São vídeos realizados em vários fragmentos onde explora situações produzidas ou ações envolvendo seu corpo. As ações estão centradas em limitações autoimpostas em encontros diretos com a natureza.

Em um dos fragmentos a mão do artista está amarrada a um caranguejo típico do mangue, limitados ambos a um espaço de conflito inevitável. A mão acostumada aos movimentos da civilização tateia seu espaço de ação e enfrenta as rudimentares garras do caranguejo. Dois universos reduzidos a uma luta pelo território. Movimento semelhante se repete em outra ação onde o artista amarra seus membros a um bode e tenta controlá-lo de forma que os dois possam manter-se erguidos. Após violentas tentativas do bode de se libertar, ambos caem exaustos, o bode se rende ao homem preferindo entregar seu corpo inteiro a aceitar a convivência imposta pelas amarras.

Ian Hamilton Finley (1925-2006) figura na exposição com uma pequena retrospectiva, seu trabalho propõe revisitar a estética clássica acrescentando novos elementos. São colunas em que os ornamentos etapa após etapa se transformam em uma granada, ou a imagem de Diana segurando um fuzil. São recorrentes as citações sobre a revolução e violência que funcionam como elemento para reanimar estas formas já gastas, evocando uma materialidade para um momento histórico revisitando-o, estas palavras e objetos ativam as antigas ruínas.

Constantemente as citações de Finley evocam a figura campestre como espaço idílico anterior à cultura. Sua Arcádia, construída em forma de jardim, a Little Sparta procura ser uma obra total onde dois universos convivem em confluência. A cultura se mescla à natureza destacando seu elemento libertador natural. Diferente de Rodrigo Braga, Finley parece deparar com a natureza como espaço originário da sociedade anterior ao conflito humano. É a natureza inventada pelo homem, a natureza limpa, conhecida, submetida à objetividade de nossos sentidos, é o jardim e não a floresta. Já Braga caminha para outra relação, onde a natureza se recusa a conviver, e oferece resistência ao artista que se obriga à relação. É a natureza se afirmando por si só, onde o homem e a civilização são intrusos.

No último andar da exposição está a produção fotográfica de Mark Morrisroe (1959-1989) que mantém o interesse em seu entorno imediato desde os primeiros registros em Polaroid do ciclo íntimo que o rodeava no auge da cena punk. Possuía grande vocação para criar atmosferas e sensações através de suas imagens. Por mais que hoje em dia olhemos para esta produção com interesse antropológico, devido ao registro de uma situação marginal potencialmente transformadora, sua produção não foi realizada cruamente com este propósito. As fotografias constantemente são manipuladas posteriormente à captura da imagem, são processos como duplas exposições, inscrições no papel fotográfico, ou intervenções diretas no negativo, garantindo um segundo momento para a criação da imagem e não somente o do disparar do diafragma.

As soluções de Morrisroe apontam para a necessidade de se criarem novas linguagens que deem conta de vivências emergentes, uma vontade de se marcar outro tempo. Muitas vezes as inscrições nas fotografias tomam forma de dedicatórias, pequenos presentes que se confundem em experiências estéticas e de vida, alargando as lacunas onde há a possibilidade de se viver diferente. Sua trajetória em construção não se manifesta ordenadamente, se apresenta de maneira errática, por vezes informe.

Trabalhando em outro sentido, Alair Gomes (1921-1992) se detém ao instante de captura da imagem. Suas fotografias, tiradas com objetivas através da janela de seu apartamento em frente à praia, parecem uma coleção de momentos do que poderia ser uma prática voyeur extensa na observação daqueles corpos transitando e se exercitando durante as tardes de sol. É um estudo em torno de um ideal clássico de beleza de corpos bem trabalhados, corpos como monumentos, com um anunciado aspecto erótico.

Estas manifestações seriais se apresentam como um filme mudo com uma trilha sonora sugerida pelo próprio artista em seus títulos alusivos a fórmulas musicais, em que lentamente a descoberta destes corpos vai se desvelando. São estudos de movimentos que derivam de uma profunda admiração pela natureza do corpo, em uma busca por uma beleza não declarada. Estes modelos não tentam seduzir a câmera, como nas poses tão comuns vistas nos editoriais de moda, eles estão experimentando o mundo e nos colocando a reduzida posição do fotógrafo admirando seus movimentos.

Escolhas

O contato menos determinado entre o público e os artistas garante uma vivência mais ampla com as obras expostas. Ao não depararmos com um tema, nós nos permitimos formular nossas próprias relações e a partir delas caminhar para outros momentos da mostra carregados das imagens que nos afetaram ao longo do trajeto. Por outro lado, uma maneira mais direcionada propiciaria reações diretas a respeito do tema e dos trabalhos escolhidos, o que incitaria ao debate, e se proporia como uma resposta para nosso tempo e o caminho possível dentro da vastidão da produção atual.

Apesar desta ausência, a afirmação desta impossibilidade gerou uma situação bastante generosa de relação com os artistas, propondo que se manifestem através de sua própria voz, e não como apenas ilustrações de uma ideia. Esta escolha da curadoria assume a insuficiência de gerar um conceito ordenador, já que poderia desencadear uma relação unilateral e superficial com os trabalhos, e afirma que toda sua construção é apenas um enunciado particular que se expressa através de uma voz.

De maneira geral a 30ª Bienal, “Iminência das Poéticas”, se apresenta de diversos modos, garantindo desvios das ideias apresentadas pela curadoria. Mas, do mesmo modo, sua multiplicidade longe de verdades globais alimenta a ânsia por uma linha que organize o evento. Para aqueles que procuram uma resposta clara e certeira a respeito da produção artística atual e quais os caminhos percorridos, há certa sensação de vazio pela ausência de respostas. Sendo por uma escolha, ou apenas o reflexo da situação da arte atual, se quisermos nos alinhar ao sentido proposto por esta Bienal precisamos assumir suas incertezas e nos convencer de que respostas fáceis e únicas podem se revelar apenas simplificações.